Com homenagem à baiana Helena Ignez, festival Cinefantasy inicia nesta sexta-feira

Publicado sexta-feira, 10 de setembro de 2021 às 06:08 h | Atualizado em 09/09/2021, 19:37 | Autor: João Lucas dantas*

Começou a 12ª edição do Cinefantasy, considerado o mais importante festival de cinema fantástico do Brasil. Estará rolando até o dia 19 de setembro, de forma híbrida, na plataforma Innsaei.TV (https://innsaei.tv/) e sessões presenciais somente em Fortaleza, no Ceará (Cineteatro São Luiz), com toda a programação gratuita.

Há 12 edições, Eduardo Santana e Vivi Amaral criavam o evento para trazer o universo do cinema fantástico, ambientado no Brasil. “Eram poucos os festivais com essa temática, trabalhando com a imaginação, o desconhecido, o insólito. Eu estou na direção do evento desde 2018. A partir desse momento, nós passamos a criar algumas mostras e pautas que são afirmativas”, afirma Mônica Trigo, diretora.

Debates importantes

Na programação, 119 filmes de 34 países, entre longas e curtas-metragens, ficção e documentários, sempre envolvendo o cinema de gênero de horror, fantasia, ficção científica e derivados.

Além disso, pela primeira vez, contará com a equipe de júri e curadoria 100% feminina. A temática presente durante toda sua exibição será o "Assédio no Cinema", que estará centralizando os debates durante oficinas e workshops, ao longo dos dias.

“Essa é a primeira edição do festival 100% feminino. São quinze juradas que assistiram 726 filmes e selecionaram 111, para quinze mostradas competitivas. São quarenta e cinco juradas que irão definir quais são as melhores obras. As políticas afirmativas e a criação desses espaços de fala, para a mulher, garantindo esse olhar de inclusão, é uma forma de assegurar espaço para as realizadoras. E foi pensando nisso que montamos a edição deste ano”, revela a diretora.

Apesar do alcance global, o festival dá foco para as produções brasileiras na sua grade de programação. “Este é um festival internacional, com 41 filmes brasileiros e cinco filmes baianos (um longa-metragem e quatro curtas). Temos filmes de Morro do Chapéu, São Francisco do Conde, dois filmes de Salvador. É uma representação baiana significativa”, pontua Mônica.

Imagem ilustrativa da imagem Com homenagem à baiana Helena Ignez, festival Cinefantasy inicia nesta sexta-feira
Almas que Dançam no escuro: Um pai busca o assassino da filha | Foto: Divulgação

Um pouco de tudo

Na programação, mostras para todos os gostos e idades estarão sendo indicadas no site. Haverá uma grade voltada para crianças, para os fãs de terror, de ficção, feito por mulheres etc.

“Nós temos 15 mostras competitivas, uma para crianças a partir de 5 anos. Temos mostra fantasia/horror/ficção científica, as já tradicionais. Mas além dessas, nós temos a fantástica diversidade, que são filmes com temática LGBTQIA+ e Mulheres Fantásticas, dirigidas exclusivamente por mulheres. O Fantástico Black Power, de realizadores negros. A gente tá trazendo esses conteúdos do universo fantástico mundial e, ao mesmo tempo, fomentando o que está sendo feito no Brasil. Além de mostras para filmes amadores/ de estudantes, além de filmes produzidos por indígenas”, explica a organizadora.

Espaço para realizadores

O Cinefantasy vem cumprindo o dever de apresentar produções de gênero para o maior público nacional possível, há anos. Não tão tradicional quanto comédias ou dramas, mas sempre houve realizadores dispostos a encarar os riscos e produzir suas ideias, mesmo que de nicho, compúblicos menores – e o festival dá luz justamente a essas pessoas que lutam por espaço e respeito no meio audiovisual.

“A gente está vivendo, no mundo, uma distopia. O que a gente entendia como fantástico, começou a parecer muito próximo da realidade. Com a pandemia, a distopia foi aproximada do nosso dia-a-dia. A partir disso, as pessoas começaram a entender mais o universo fantástico, por essa proximidade”, expressa Mônica.

“Filmes de ficção são feitos no Brasil há muito tempo. Temos representantes premiados mundialmente. Bacurau é um filme de horror. Nós temos essa potência criativa para levarmos e apresentarmos em festivais. Nós queremos abrir portas e janelas para apresentar esses conteúdos e criar atividades formativas. As nossas atividades terão o assédio como tema principal, para reflexão”, acrescenta.

Homenagem

O festival estará homenageando um dos ícones do cinema nacional, neste ano. A atriz e diretora baiana Helena Ignez, receberá alguns painéis especiais, participando de debates e falando sobre a sua extensa carreira no cinema.

“Helena Ignez, além de atriz, produtora, é uma grande cineasta. Ela é uma potência criativa, ela fundou a Bel-Air, junto com Rogério Sganzerla (1946 - 2004), e chegaram a produzir sete filmes em um único ano. Nós temos um debate muito interessante, na abertura, com a Helena e as suas três filhas. Teremos a Paloma Rocha (atriz e filha de Helena com Glauber Rocha), Sinai Sganzerla e Djin Sganzerla (diretoras e filhas de Helena com Rogério Sganzerla)”, comemora Mônica.

Destaques

Um dos destaques do evento será a Première Mundial do filme As Almas que Dançam no Escuro, de Marcos DeBrito (Condado Macabro).

O longa do diretor brasileiro será exibido pela primeira vez no festival. O filme é uma adaptação do livro de mesmo nome, escrito também pelo próprio Marcos. O filme será um suspense policial, com influências de terror, especialidade do diretor.

“Eu nunca participei com um filme no Cinefantasy, já havia participado como júri para curtas e longas-metragens. Essa turma do cinema de gênero, se apoia muito se ajudando e se conhecendo. Esse é um filme que está fresco, nunca foi exibido e o festival é uma vitrine ótima. Vai ter sessões presenciais em Fortaleza (CE), em vários locais do Brasil, online. Antigamente, era tudo restrito à São Paulo”, observa.

“A pandemia, ao mesmo tempo que nos atrapalha, nos possibilita que esses conteúdos sejam acessados por muito mais pessoas. Espero que a partir do ano que vem, essas mostras online não sejam encerradas, porque queiram ou não, é o futuro. Essa vitrine do online, como do streaming, trouxeram um novo comportamento de espectador e é legal ver o festival seguindo essa onda”, afirma Marcos.

Cinema no Brasil

De maneira geral, os cineastas brasileiros têm que lidar com o preconceito que o público local apresenta em relação a todo tipo de produção audiovisual local. Além da atual falta de incentivo governamental à cultura, fazer cinema se tornou uma tarefa muito difícil.

“Os filmes de terror acabam sofrendo mais por ser de gênero que acaba se enquadrando num grupo diferente. Nós temos grandes filmes de comédia e dramas, e o horror acaba se tornando um sub-gênero, consequentemente tendo valores de produção menores, que tentamos driblar com a nossa criatividade e os recursos que a gente consegue. Os últimos anos estão ruins, antes nós tínhamos grandes incentivos de fomento à cultura, para fazermos filmes como gostaríamos de fazer. Com a mudança de governo, essa parte cultural sofreu um abalo muito grande. É difícil conseguir investimento para um filme nacional e pior ainda para um filme de gênero nacional. Felizmente, consegui investimento via iniciativa privada, com uma distribuidora que demonstrou interesse em um filme assinado por mim, a Elite Filmes”, conclui Marcos.

A programação completa do festival pode ser conferida no site cinefantasy.com.br.

* Sob a supervisão do editor Chico Castro Jr.

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