SALVADOR
Abrigo D. Pedro II sofre com descaso

A ação do tempo é implacável. No abrigo Dom Pedro II, na Boa Viagem, isso é percebido facilmente. Mais nos prédios do que nos 115 idosos ali abrigados. Infiltrações e marcas de umidade nas paredes, danos em grande parte das janelas e nas obras de arte, como as estátuas nos jardins. No casarão principal, uma fita isola as regiões próximas à área externa, onde pedaços de reboco que desprendem das paredes ameaçam a segurança dos moradores e funcionários do lugar.
Único mantido pela Prefeitura de Salvador para pessoas com mais de 60 anos, o asilo, tombado em 1980 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), funciona em um complexo arquitetônico de oito prédios, os mais antigos datados de 1887. Devido aos danos, dois prédios estão completamente interditados pela Defesa Civil. Já na capela, o altar foi recuado e colocado próximo dos assentos porque a estrutura da nave está condenada, e as paredes e camarotes laterais podem desabar a qualquer momento. Sem os problemas, o asilo poderia abrigar 250 idosos, mais do que o dobro da capacidade atual.
A situação do imóvel é agravada por sua proximidade do mar. Não somente pela ação do salitre, mas também pelas constantes explosões das bombas usadas na pesca ilegal na Baía de Todos os Santos. "A cada bomba, cai um pedaço das paredes do abrigo", revela a administradora do local, Ana Valéria Souza dos Santos. Os danos não seriam tão críticos se o prédio passasse por manutenção periódica. No entanto, a última reforma aconteceu em 1997, época da comemoração dos 110 anos de fundação. Em 2007, a direção vai aproveitar o apelo dos 120 anos para lutar por um processo de restauração mais amplo, que vai além dos remendos superficiais e pinturas de embelezamento.
O projeto de recuperação foi lançado em julho deste ano dentro da Campanha para Resgate da Memória do local. O objetivo é mostrar à sociedade a situação atual do abrigo e buscar formas de financiar a restauração do patrimônio, que tem custo estimado em R$4 milhões. Uma das idéias é transformar o local em uma fundação, que teria maior autonomia para a arrecadação de recursos para bancar a reforma.
Faltam recursos - Atualmente, todas as despesas de funcionamento do abrigo são pagas pela Prefeitura de Salvador, através da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), a quem o abrigo é vinculado. No entanto, não há repasse de recursos. Os pagamentos são feitos diretamente pela Secretaria aos funcionários e fornecedores, além de algumas empresas terceirizadas. Em caixa, a direção tem à disposição apenas R$400 mensais, fruto de doações fixas de um grupo de empresários da região. "Esse é todo o recurso que temos para fazer qualquer coisa além da rotina". O dinheiro é utilizado para a realização de pelo menos uma festa mensal, em homenagem coletiva aos aniversariantes, passeios e outras atividades de recreação para os abrigados. "Nós sabemos que essas iniciativas são tão importantes para os idosos quanto a moradia e a visita do médico. É fundamental para a qualidade de vida deles", afirma a diretora.
A Sedes informou, por meio da assessoria de imprensa, que a Prefeitura não tem recursos para bancar a restauração da estrutura, estimada em R$4 milhões. Segundo o secretário Carlos Soares, apesar da falta de recursos, a administração municipal está empenhada em encontrar uma solução para o quadro atual. "Já encaminhamos projeto para o Ministério da Cultura para enquadrar o D. Pedro II na Lei Rouanet de incentivo fiscal." Desta forma, a reforma seria financiada por empresários e organismos internacionais preocupados com a preservação desse patrimônio cultural.
Valéria trabalha há nove anos no abrigo e assumiu a direção há um ano, ciente das dificuldades que iria enfrentar. Ela atribui a iniciativa ao amor que desenvolveu pela instituição ao longo dos anos. Para ela, o sentimento é necessário para conviver com um ambiente que muitas vezes parece esquecido pelos poderes públicos. "Quem trabalha aqui tem que ter muita dedicação. Ninguém está aqui somente pelo salário", afirma. Além dela, o abrigo tem outros 46 funcionários municipais e 18 terceirizados. A equipe técnica é formada ainda por 19 auxiliares de enfermagem, cinco enfermeiros, um médico, assistente social, nutricionista, terapeuta ocupacional e fisioterapeuta. Trabalham e moram no local também seis Irmãs Vicentinas, cada uma responsável por cuidar de uma das alas em funcionamento.
Apesar das deficiências, são poucas as reclamações dos idosos asilados. Para Margarida Maria dos Santos, que mora há seis meses no abrigo, o maior problema é a falta de companhia. "Eu me sinto muito sozinha aqui. Eu durmo tarde e não tenho com quem conversar", lamenta. Aos 77 anos, foi dela a iniciativa de pedir à família para ser encaminhada ao abrigo. Ela não está feliz em viver no abrigo, mas diz não ter mais para onde ir. Segundo Valéria, o caso de Margarida não é o padrão. "De todos os idosos daqui, somente 10 a 20 não têm família ou amigos que possam lhes abrigar. Eles vêm para cá por opção, para não se sentirem um peso para outras pessoas."
Alguns dos moradores já estão há décadas no Pedro II. Pessoas como dona Dionéa Lima, que de tão antiga no local, que é seu endereço há 48 anos, dá nome a uma das praças. Ela é a moradora mais antiga do abrigo. Quando chegou, tinha 29 anos de idade e foi levada por ser portadora de epilepsia, doença ainda estigmatizada na época. Sua maior frustração é nunca ter tido a permissão dos familiares para segurar os sobrinhos no colo. "Tinham medo que eu tivesse um ataque segurando a criança", lembra.
Apesar de jovem naquela época, Dionéa foi aceita no abrigo para que ficasse isolada do restante da família e da sociedade. E é contra esse pensamento que o abrigo luta hoje. A briga é para cada vez mais fazer parte da sociedade e se revitalizar, para não ficar esquecido como um casarão idoso e sem futuro e, assim, servir de modelo para as pessoas que abriga.