Editorial - Vidas importam

Publicado quarta-feira, 23 de dezembro de 2020 às 06:00 h | Atualizado em 22/12/2020, 23:49 | Autor: Da Redação

O pífio desempenho do Brasil no enfrentamento da Covid-19 não tem sua expressão apenas nos 188 mil óbitos reconhecidos, mas apresenta efeitos igualmente letais para pacientes de outras enfermidades, como os necessitados de transplante de medula. Enquanto o país patina na organização de campanhas para vacinar a população, além de desorientá-la, descuida-se igualmente dos acometidos por doenças graves diversas: leucemias, linfomas, mielomas múltiplos, entre outras.

Estima-se mais de cinco mil brasileiros no aguardo de transplante de medula óssea, no número acumulado deste ano, mais de 100% superior à quantidade de pacientes atendidos com a cirurgia salvadora em 2019. Como agravante, no ano novo, o Brasil não terá um dos medicamentos necessários para realização do transplante, o bussulfano, pois a indústria farmacêutica responsável por sua fabricação anunciou parar de fornecê-lo.

Chama a atenção o fato de um laboratório farmacêutico considerar suficiente apenas informar a descontinuidade do fornecimento, como se milhares de vidas não dependessem de sua utilização. Desde novembro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável pela regulação da oferta de fármacos, está ciente do comunicado, mas até o momento não apresentou solução.

Sem o bussulfano ou alguma alternativa, a maioria ou totalidade dos procedimentos representaria uma condenação à morte, em vez da cura dos brasileiros, como ocorre há 41 anos. A perspectiva da falta de um dos medicamentos para realização do transplante segue uma triste tradição de desabastecimento de fármacos em um país onde viver não parece ter tanto valor.

O exemplo do bussulfano evidencia não apenas a necessidade de revisão de normativas para regulamento do registro de medicamentos, mas também mais controle sobre as decisões da indústria. As autoridades sanitárias precisam mostrar-se ágeis para providenciar importação, considerando a situação como emergencial, em vez de prostrar-se, sem buscar uma saída, pois vidas humanas importam.

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