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Favela do mar faz 60 anos

Publicado segunda-feira, 23 de janeiro de 2006 às 00:00 h | Atualizado em 23/01/2006, 00:00 | Autor: JORNAL A TARDE
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Alagados padece de graves problemas sociais resultantes da miséria e da violência; só o número de palafitas diminuiu



Jeane Borges




Alagados, a favela erguida na década de 40 sobre a lama e a maré da Cidade Baixa, completa 60 anos de uma história que traz como protagonistas gente pobre, batalhadora, na sua grande maioria negra, que aprendeu a se equilibrar em pontes de madeira corroídas pelo tempo para garantir a sobrevivência. Hoje, seis décadas depois do surgimento, a região – que reúne os bairros periféricos do Uruguai, Jardim Cruzeiro e Massaranduba – está quase toda aterrada, para contentamento de uns e protestos de outros.



A área, divulgada em verso, prosa e em páginas policiais por conta do alto índice de violência, já chegou a abrigar 3,5 mil palafitas (barracos de madeira fincados na maré e unidos por toscas pontes). Hoje, restam mil palafitas, já que as outras 2,5 mil cederam lugar a casas de alvenaria erguidas em projetos de urbanização tocados pelo governo do Estado.



Pesquisa feita pela Conder no período de 1999 a 2001 contabilizou naquela área 135 mil habitantes, somando 40 mil famílias. As palafitas começaram a ser erradicadas na década de 80, numa tentativa de criar condições mais humanas para a população local. A intervenção melhorou a paisagem, mas não conseguiu resolver graves problemas sociais decorrentes da miséria, dentre eles a marginalidade.



GUERRA DE FOICE – Liderança comunitária nos Alagados, o padre Clóvis Souza Santos admite que hoje, naquela área, há dezenas de pontos de venda de drogas (maconha, crack e cocaína) e guerra de gangues pelo controle do tráfico. “Nos últimos oito anos, cerca de 100 pessoas apareceram mortas aqui, a grande maioria jovens entre 17 e 30 anos, eliminados por supostos grupos de extermínio”, diz. A marginalidade, raciocina o padre, resulta sobretudo da falta de emprego para tantos jovens, na faixa entre 18 e 25 anos, que enfrentam o ócio (nada criativo) dia após dia.



Díficil obter estatísticas oficiais que traduzam em números a guerra de foice no escuro onde rolam cabeças quase sempre de jovens, negros e desempregados. Os assassinatos nos Alagados são constantes, impera a lei do silêncio. Todo mundo tem medo de ser a próxima vítima.



A publicação “O Rastro da Violência em Salvador-II”, do Fórum Comunitário de Combate à Violência, traz levantamento do número de homicídios nos Alagados no período de 1998 a 2001. De acordo com o documento, na Massaranduba e Jardim Cruzeiro ocorreram 12 mortes desta natureza em 1998, cinco em 1999, sete em 2000 e 16 em 2001. No Uruguai e Alagados ocorreram 22 homicídios em 1998, 19 em 1999, 18 em 2000 e 21 no ano de 2001.



FÁBRICA E PESCA – “Parece que a pobreza de antes era mais digna. As palafitas antigas eram melhores, mais bem acabadas. Hoje, são precaríssimas, cobertas de plástico e feitas de paus apodrecidos”, avalia. O “antes” a que o pároco se refere remonta à década de 40 por ocasião do surgimento do conglomerado dos barracos sobre a maré.



O adensamento populacional naquela região ganhou impulso após a descoberta do primeiro poço de petróleo no subúrbio de Lobato, em 1939. Muita gente, atraída pelas promessas de progresso, passou a ocupar áreas vizinhas ao Lobato, transformadas anos depois nos bairros de Uruguai, Jardim Cruzeiro e Massaranduba.



As fábricas instaladas na Península Itapagipana e a atividade da pesca também atraíram milhares de moradores para os Alagados. O tempo passou, a pesca em larga escala acabou, as fábricas fecharam ou foram transferidas e a pobreza recrudesceu trazendo a degradação das condições de vida em seu rastro, conclui padre Clóvis.

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