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Racismo é o segundo crime mais denunciado na internet

Publicado domingo, 31 de agosto de 2014 às 09:50 h | Atualizado em 31/08/2014, 09:50 | Autor: Fabiana Mascarenhas
Cabeleireira Elísia Santos
Cabeleireira Elísia Santos -
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Era para ser apenas mais uma foto de um casal feliz, entre as inúmeras publicadas diariamente nas redes sociais. Era e deveria ser, não fosse o casal formado por um jovem branco e uma parceira negra, e o Brasil um país racista.

Não à toa, o crime de racismo na internet é o segundo com o maior número de denúncias, perdendo apenas para a pornografia infantil.

O caso mais recente divulgado na mídia ocorreu na semana passada. Dóris Martins, de 20 anos, postou uma foto com o namorado, Leandro de Freitas, de 18 anos.

A demonstração de afeto se tornou alvo de agressões, com uma série de comentários preconceituosos contra o casal, residente da cidade de Muriaé, Minas Gerais.

"Eu acho que você roubou o branco para tirar a foto"; "onde comprou essa escrava?"; "parece até que tão (sic) na senzala" foram alguns dos comentários.

O caso ganhou repercussão nacional e, para evitar maiores constrangimentos, a jovem desativou a conta na rede social.

Antes, postou uma mensagem lamentando as manifestações racistas. "Haverá racismo enquanto as pessoas não entenderem que por dentro somos todos iguais", disse.

O casal, que está junto há um ano e oito meses, foi, na última terça-feira, à Delegacia Regional de Muriaé para prestar queixa. A Polícia Civil  instaurou inquérito para apurar a denúncia.

Por telefone, Leandro de Freitas limitou-se a dizer que os dois estão muito tristes com o episódio, mas que isso, em momento algum, abalou a relação. "Nos gostamos. Isto é o que importa".

Estatística

Esse não foi o primeiro caso de crime de racismo na internet e, infelizmente pelo histórico, não parece ser o último. Só em 2013, a ONG Safernet Brasil, que controla a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, recebeu 78.690 denúncias anônimas de racismo.

Atualmente, esse tipo de crime é, inclusive, o segundo mais frequente, perdendo com margem bem pequena apenas para os crimes de pornografia infantil, que registrou 80.195 denúncias anônimas em 2013, segundo dados da Safernet.

Entre 2006 e 2013, foram 383.372 denúncias de racismo, envolvendo 51.649 páginas distintas escritas em sete idiomas e hospedadas em 6.392 hosts diferentes.

"A situação torna-se ainda mais preocupante se considerarmos que, nos primeiros quatro anos de levantamento, o crime de racismo era o quarto com maior número de denúncias", diz o presidente da Safernet, Thiago Tavares Nunes de Oliveira.

O crime de racismo ficava atrás dos crimes de homofobia, pornografia infantil e da apologia e incitação a crimes contra a vida.

O caso do músico baiano Adalmir Chabi não entrou para as estatísticas, como ocorre com muitos. Ele sofreu preconceito, após publicar uma foto antiga, quando ainda usava o cabelo no estilo black-power.

"Fui obrigado a ler comentários dizendo que eu parecia um bicho , tipo macaco e leão, e que dava para esconder  um monte de coisa no meu cabelo. Lamentável", lembrou.

Situação semelhante ocorreu com a cabeleireira Elísia Santos, 30. Ela participava de um grupo de uma grande marca de cosméticos e houve uma discussão sobre alisamento de cabelo. A profissional fez questão de abordar as consequências do alisamento e, em seguida, foi bombardeada com comentários que, segundo ela, eram racistas.

"Sou negra, uso dread e cuido de cabelos afros há anos. Entre os comentários, me disseram que eu só estava falando aquilo porque estava acostumada a trabalhar com gente feia e que o cabelo liso era esteticamente mais bonito, entre outros absurdos", contou Elísia.

Ainda segundo relato da cabeleireira, muitos integrantes do grupo acharam engraçado. "O pior de tudo foi isso: ver que muitos riram da situação, em vez de se indignarem. Denunciei o grupo na rede social e saí. É muito triste ver o quanto as pessoas ainda são preconceituosas".

Mazelas

Para a professora Josiane Clímaco, mestranda em educação e coordenadora do Fórum Nacional de Mulheres Negras - Bahia, episódios como esses só reafirmam a existência do racismo, embora muitos insistam em negá-lo.

"Esse caso só prova que as mazelas da colonização ainda continuam presentes na nossa sociedade, em pleno século XXI. É um absurdo que precisa ser denunciado e combatido", opinou Josiane.

Para Valter da Mata, mestre em psicologia social e representante da Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia, situações desse tipo podem fazer com que as vítimas de racismo carreguem traumas para o resto da vida.

"Dificilmente uma pessoa passa por uma situação dessas sem ter a autoestima abalada, sobretudo quando se é muito jovem. Se a vítima não tiver uma estrutura emocional e familiar muito boa, episódios assim podem trazer prejuízos em diversas áreas", comentou o profissional.

De acordo com Valter da Mata, as referências e a maneira como a vítima constrói a própria identidade são  fatores importantes.

"Dependendo da situação, a pessoa pode, muitas vezes de maneira inconsciente, evitar se relacionar com pessoas de etnia diferente temendo o preconceito social. Isso acaba interferindo nas escolhas pessoais, o que pode acabar gerando frustração ao longo da vida", avaliou.

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