Bebês Yanomami são enterrados sem autorização, deixando famílias desesperadas

Publicado segunda-feira, 29 de junho de 2020 às 21:05 h | Atualizado em 29/06/2020, 21:15 | Autor: Da Redação

Vítimas da covid-19, três bebês indígenas da etnia Yanomami, sendo dois do subgrupo Sanöma, foram enterrados em Roraima sem o conhecimento das suas famílias. As mães das crianças pedem a retirada imediata dos corpos para poder realizar o ritual funerário próprio da cultura nas aldeias.

Segundo informações do portal Amazônia Real, as crianças recém-nascidas morreram entre os dias 29 de abril e 25 maio em hospitais públicos de Boa Vista. No entanto, os corpos só foram localizados entre a sexta-feira, 26, e o domingo, 29. O corpo de um quarto bebê Sanöma, que nasceu prematuro e tinha hidrocefalia, foi encontrado também pela reportagem no Instituto Médico Legal (IML).

As mães, cujas identidades não foram reveladas, disseram que não foram informadas pelas autoridades de saúde que os corpos dos bebês estavam enterrados em sepulturas comuns e que nem mesmo foram consultadas.

Ainda conforme a publicação, a Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana disse que o primeiro óbito de criança, registrado em 29 de abril, foi de um recém-nascido, cuja mãe testou positivo para covid-19. O sepultamento não contou com a cremação tradicional na aldeia, ritual funerário da cultura Yanomami.

Em entrevista ao jornal El País, uma das mães das crianças Sanöma disse que estava sofrendo muito e queria o corpo do filho de volta à aldeia. Após a reportagem, a hashtag #criançasyanomami foi parar no topo dos trends topics do Twitter na sexta-feira, 27.

“Sofri para ter essa criança. E estou sofrendo. Meu povo está sofrendo. Preciso levar o corpo do meu filho para a aldeia. Não posso voltar sem o corpo do meu filho”, disse ao El País.

Conforme o Amazônia Real, na sexta-feira, 26, foi encontrado em um cemitério particular, o túmulo do bebê Yanomami, do sexo masculino, que havia falecido por Insuficiência Renal Respiratória Aguda e pneumonia extrema no dia 29 de abril, um dia após nascer. A mãe havia testado positivo para covid-19. O corpo do bebê só foi enterrado três semanas depois do falecimento, em 20 de maio.

O segundo túmulo Yanomami encontrado pela reportagem foi no sábado, 27. Um Outro menino, do subgrupo Sanöma, tinha dois meses de vida quando morreu no dia 25 de maio de Insuficiência Renal Aguda e suspeita de covid-19.

Também no sábado, foi localizado o terceiro túmulo com bebê do sexo masculino. Ele morreu com três dias de nascido, de infecção neonatal e suspeita de coronavírus. O corpo foi enterrado no dia 25 de maio ao lado do primeiro bebê sanöma.

Entre sábado, 27, e domingo, 28, foi localizado o corpo do quarto bebê Yanomami no Instituto Médico Legal (IML) de Boa Vista. Prematuro e com hidrocefalia, o recém-nascido veio a óbito no dia 1º de maio. A criança foi levada ao IML, onde permanece para ser entregue à família, pois testou negativo para covid-19. Segundo o IML, o corpo pode ser trasladado à aldeia por não representar risco de contaminação do vírus.

Ao Amazônia Real, o administrador do cemitério onde as crianças foram enterradas disse que só é possível retirar corpos sepultados por via judicial ou após o tempo mínimo para a exumação, que é de três anos para adultos e dois anos para crianças e recém-nascidos. Ele contou ainda que os três bebês yanomami foram enterrados em sepulturas cedidas gratuitamente por intermédio da Secretaria do Trabalho e Bem Estar Social de Roraima.

Conforme o site, esta não é a primeira vez que pais da etnia Yanomami passam por esta situação. Um adolescente de 15 anos, que faleceu também por complicações do coronavírus foi enterrado sem conhecimento dos familiares na noite do dia 9 de abril, em Boa Vista.

À Amazônia Real, a Fundação Nacional do Índio (Funai) disse: “a missão da Funai neste momento é sobretudo orientar os povos indígenas, levando informações no sentido de esclarecer e pacificar sobre o perigo de que o corpo volte neste momento à comunidade”.

O Ministério Público Federal (MPF) de Roraima informou que abriu investigação para garantir que as recomendações de saúde sejam seguidas, mas que levem em conta o luto dos povos indígenas e os rituais.

Segundo a Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana, até o momento, 168 indígenas foram infectados pelo coronavírus e cinco morreram, sendo três óbitos suspeitos.

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