Procurador que defende obrigações sexuais de mulheres será investigado

Corregedoria do MPF vai apurar conduta de membro que compara feminismo a transtorno mental

Publicado quarta-feira, 20 de julho de 2022 às 20:53 h | Atualizado em 20/07/2022, 20:53 | Autor: Da Redação
Procurador do MPF paulista alega que declarações a respeito da conduta das mulheres tinha objetivo de abrir diálogo sobre monogamia
Procurador do MPF paulista alega que declarações a respeito da conduta das mulheres tinha objetivo de abrir diálogo sobre monogamia -

O procurador da República Anderson Santos, que atua no MPF em São Paulo, será alvo de investigação pela Corregedoria-Geral do Ministério Público Federal. O motivo são mensagens enviadas a colegas com conteúdo que associa feminismo a "transtorno mental" e defende que as mulheres têm "obrigações sexuais" para com os maridos.

A instalação de um procedimento disciplinar foi determinada pela corregedora Célia Regina Delgado, em decisão de ofício, ou seja, por iniciativa própria, mas que também contempla as representações enviadas para a Corregedoria questionando a conduta do procurador. A portaria formalizando a apuração do caso deve ser publicada nesta quinta-feira, 21.

A apuração pode levar à advertência, censura, suspensão ou demissão do procurador, que poderá ainda prestar seus esclarecimentos. As mensagens provocaram reação entre procuradores. Para alguns integrantes do MPF, a tese defendida pelo colega Anderson Santos legitimaria o "estupro matrimonial".

Anderson Santos negou ter defendido o estupro. Ele disse que fez o comentário dentro da rede interna do MPF para levantar o debate entre os colegas sobre a monogamia e a criminalização do adultério e  afirmou que a discussão surgiu diante de decisões na Justiça que ainda levam em conta a falta de sexo para anular casamentos.

"Não é o caso de cobrar e exigir que a mulher faça sexo. É dar ensejo, se for reiterado (a falta de sexo), ao pedido de divórcio. Eles querem, na verdade, dizer que estou defendendo estupro de mulheres. Claro, se defendesse, seria uma incitação ao crime, mais do que quebra de decoro, seria caso de ação penal pública", disse.

No primeiro texto, enviado no início da noite de segunda-feira, 18, o procurador Anderson Santos classifica o feminismo como "transtorno mental" e diz acreditar que, para isso, será criada no futuro uma CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde).

“A feminista normalmente é uma menina que teve problemas com os pais no processo de criação e carrega muita mágoa no coração. Normalmente, é uma adolescente no corpo de uma mulher. Desconhece uma literatura de qualidade e absorveu seus conhecimentos pela televisão e mais recentemente pela internet”, afirmou.

E ele acrescenta:“Na maioria das vezes, a sua busca por empoderamento é na verdade uma tentativa de suprir profundos recalques e dissabores com o sexo masculino gerado pelas suas próprias escolhas de parceiros conjugais”.

Em uma segunda mensagem, Santos apresenta aos colegas uma análise sobre “casamento e débito conjugal”, baseada numa interpretação bíblica. “O marido pague a sua mulher o que lhe deve, e da mesma maneira a mulher ao marido”, escreveu citando o livro de Coríntios.

“O progressismo nos convenceu que o cônjuge não tem qualquer obrigação sexual para com o seu parceiro, levando muitos à traição desnecessária, consumo de pornografia e ao divórcio”, escreveu Anderson. Segundo o procurador, “esse é um drama vivido muito mais pelos homens diante das feministas ou falsas conservadoras. A esposa que não cumpre o débito conjugal deve ter uma boa explicação sob pena de dissolução da união e perda de todos os benefícios patrimoniais”.

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