Os desafios da economia no pós-pandemia

Publicado quinta-feira, 17 de junho de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 16/06/2021, 22:28 | Autor: Armando Avena

Após grandes tragédias, como guerras e pandemias, é normal os países registrarem num primeiro momento uma taxa de crescimento econômico exponencial. É comum também, por causa dos gastos extraordinários no enfrentamento das tragédias, que haja uma forte injeção de dinheiro novo na economia, sem o consequente aumento da produção, e o resultado é o aumento dos índices inflacionários.

É exatamente isso o que está acontecendo com a economia brasileira, que se depara com alguns desafios no pós-pandemia. É possível afirmar, por exemplo, que o PIB vai crescer 5% ou mais em 2021, e isso já está dado pelos resultados verificados no 1º trimestre. O desafio está na volta da inflação, inflada pelos gastos públicos, que aumentaram a base monetária sem aumento da produtividade, e nos últimos 12 meses já atingiu 8%. Essa inflação é maior para as camadas mais pobres da população e para a chamada classe média-baixa, e isso, vai reduzir a demanda. A disparada inflacionária fez o Banco Central voltar com a política de aumento da taxa de juros e, enquanto escrevo este artigo, a taxa Selic deve ter aumentado em 0,7%, talvez em até 1%, e vai fechar 2021 em 6% ou mais. A alta nos juros não vai comprometer o crescimento do PIB em 2021, mas vai colocar um freio na economia, encarecendo o crédito, estimulando a poupança e reduzindo o crescimento em 2022.

Outro desafio será a redução do desemprego. O PIB brasileiro já vem crescendo a três trimestres consecutivos, mas os efeitos na geração de emprego são pífios e o país ainda registra 14,3 milhões de desempregados, dois milhões a mais do que o registrado no governo Dilma. As empresas, que reduziram pessoal para enfrentar a crise aumentando a produtividade, estão voltando a crescer sem grandes reposições de mão de obra. Essa taxa de desemprego deve cair ao longo do ano, mas em velocidade menor, pois as empresas estão produzindo mais com menos trabalho.

Outra questão é a melhoria nas contas públicas. A retomada da atividade econômica e a inflação de 8% aumentaram a arrecadação, e o governo deve reduzir seu déficit público mesmo com aumento dos gastos. É um dado positivo, mas esse movimento está se dando mais pelo aumento da inflação, já que até agora o crescimento do PIB está apenas repondo as perdas. E redução do déficit via inflação melhora o cenário no curto prazo, mas no longo prazo a inflação vai frear a retomada econômica, pois a demanda cai e os juros mais altos desestimulam as compras, encarecem a rolagem da dívida e faz o país voltar a ser uma economia de rentistas. O último desafio é a crise energética e o medo do racionamento, pois, à medida que o PIB cresce, a demanda por energia aumenta mais que proporcionalmente.

Boom turístico

O turismo foi um dos setores que mais sofreram com a pandemia e as medidas restritivas. Mas o volume das atividades turísticas ampliou-se em 120% em abril, embora isso signifique pouco, pois comparado com o quase nada de abril de 2020. Mas se o governo federal agilizar a vacinação e forem confirmados os anúncios de vários estados prevendo que em setembro e outubro toda a população adulta estará vacinada, haverá um “boom turístico” no país e vão faltar avião e quarto de hotel. O final da vacinação no Brasil deve coincidir com o início do verão, e aí quem sair na frente vai faturar mais. Salvador, Porto Seguro e outras cidades turísticas da Bahia precisam se preparar para o pós-pandemia.

Especializada em commodities

A Bahia está se tornando um centro produtor de commodities e reduzindo a participação dos bens finais. É bom porque amplia as oportunidades econômicas, mas deixa o estado dependente do mercado internacional. Entre janeiro e abril de 2021, as commodities foram responsáveis por 83% das exportações baianas, quando esse percentual era de 60%. Entre os dez principais produtos da pauta de exportações baianas, todos são commodities, ou seja, soja, celulose, produtos petroquímicos, petróleo, minerais, metalurgia, algodão e outros. Por enquanto, a coisa está indo bem, afinal o preço das commodities no 1º quadrimestre de 2021 cresceu 38%. Os dados são da SEI.

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