Claudete Macêdo, o retrato fiel da Bahia, faz 88 anos

Publicado segunda-feira, 01 de novembro de 2021 às 19:15 h | Atualizado em 01/11/2021, 19:17 | Autor: Carlos Leal*

Quando o sambista Riachão (1921-2020) convidou Claudete Macêdo para participar do seu disco Humanenochum (2000), acertou em cheio ao dividir com ela os vocais na música Retrato da Bahia: Claudete tem uma história de vida e uma trajetória artística que retratam a vida de muitas baianas que lutaram para conquistar seu lugar ao sol. É uma artista da resistência, uma mulher que mesmo nas adversidades, amou o Pelourinho como poucas pessoas. É no Pelourinho, pertinho da Igreja de Rosário dos Pretos onde vive até hoje.

Nascida em 26 de outubro de 1933, Claudete começou a cantar ainda criança, quando ainda estudava no Colégio Antero Brito, no Centro Histórico de Salvador. Contava, claro, com o apoio da mãe. No início da sua carreira, cantava em qualquer lugar, bastava que a convidassem. Uma das curiosidades da sua carreira é que aos 15 anos foi vencedora de um concurso de música no Rio de janeiro, mas cantando fox, não samba, ritmo que a consagrou.

Em entrevista a Raimundo Dalvo da Costa Silva para sua pesquisa de mestrado intitulada Cotidiano, Memória e Tensões: a trajetória artística das cantoras de rádio de Salvador de 1950 a 1964, a cantora disse que sua mãe chegou a se esforçar e pagar o valor do que seria seu cachê para que ela não cantasse em determinadas boates. Mas Claudete ia onde o povo estava: até em serviços de alto falantes em bairros como Pau da Lima e Baixa do Sapateiro, se apresentava. Com a popularização do rádio nas décadas de 1940 e 1950, passou a ser atração em programas de auditório e a ganhar popularidade. Posteriormente, já em 1962, foi contratada pela Rádio Sociedade da Bahia, onde ficou como atração fixa por quase 10 anos.

Mas seu sucesso popular veio mesmo quando passou a cantar no carnaval de Salvador, que tinha o rádio como o grande divulgador da festa. Foi na lendária Cantina da Lua, de Clarindo Silva, que conheceu parceiros que levou para a vida inteira. Além de Riachão e o próprio Clarindo, outro parceiro foi Zé Pretinho, com quem gravou na década de 1960 um compacto duplo intitulado Carnaval da Boa Terra que tinha dentre as canções, Flor de Laranjeira, seu grande sucesso até hoje. Quem não lembra dos versos “A flor da laranjeira /Alô Bahia. Cheira mais que aroeira/ Alô Bahia...vou mandar tirar/ Vou mandar tirar/ Flor de laranja pro meu benzinho cheirar”? Claudete conta em entrevistas que o disco teve uma excelente vendagem: era comercializado em lojas, em kombis, nas ruas, em feiras... mas ela nunca soube quantos foram prensados ou vendidos, ou seja, nada lucrou com a sua comercialização. Essa música teve várias regravações, uma delas, inclusive, foi da cantora Clemilda, que fez muito sucesso em todo o Nordeste.

Sua discografia não é muito extensa para uma artista com quase 80 anos de carreira: são apenas dois Lps, nove compactos e algumas participações em discos de projetos especiais ou de amigos. A artista chegou a morar no Rio de Janeiro, mas o amor pela Bahia falava mais alto. Foi na Terra de Todos os Santos que ela resolveu fixar residência e isso foi determinante para que seu trabalho não tivesse repercussão em todo o país.

Claudete conta que muitas vezes era visível o machismo que reinava no meio artístico. Os homens não aceitavam fazer menos sucesso que as mulheres: “Tinha uma coisa engraçada: os colegas cantores não queriam se apresentar depois de mim. Eles iam pegar o roteiro porque, quando entravam, era guerra mesmo. Então eles diziam assim: deixe eu ver onde eu estou. Aí eu não quero estar, depois de Claudete, não. Era inadmissível para eles fazer menos sucesso que uma mulher”. Isso, segundo Claudete, acontecia porque o artista entrava com seu vozeirão, comportado, e ela entrava sambando, rodando e levantando a plateia. Com seus requebros, encantava o público numa época em que os homens ainda não exploravam a expressão corporal para acompanhar as músicas.

Ao completar 88 anos, precisamos reverenciar a primeira mulher a cantar no lendário bloco carnavalesco Vai Levando, mulher que compôs para o Bloco Filhos de Gandhi, cantora de blocos como Os Filhos do Morro, Os Internacionais, O papagaio, Lá vem elas, além de vários afoxés. Viva o Samba, Viva Dona Cleudete Macêdo, viva o retrato fiel da Bahia.

*Carlos Leal é jornalista, escritor, pesquisador e produtor cultural

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