Desafios no tratamento da obesidade

Publicado quarta-feira, 21 de julho de 2021 às 18:27 h | Atualizado em 21/07/2021, 18:29 | Autor: Iane Gusmão*

Segundo dados do IBGE, o Brasil tem cerca de 27 milhões de pessoas com obesidade e somando o total de pessoas acima do peso esse número chega a quase 75 milhões. Muitos fatores podem estar relacionados ao desenvolvimento daobesidade, em uma pessoa geneticamente predisposta os maus hábitos alimentares e sedentarismo irão precipitar seu surgimento,em outras algumas disfunções endócrinas estão relacionadas ao ganho excessivo de peso. A relação entre obesidade e distúrbios emocionais é complexa, alguns transtornos psíquicos são associados a um maior risco de obesidade como o transtorno da compulsão alimentar e algumas formas de depressão, por outro lado o indivíduo obeso é muitas vezes estigmatizado e sofre preconceito que pode gerar transtornos psíquicos como depressão e baixa auto-estima, que agravam ainda mais a doença.Além de erros alimentares e sedentarismo, o sono também tem relação com o ganho de peso, quando dormimos mal ocorre aumento nos níveis de grelina, um hormônio que aumenta a fome e diminuição de leptina,um hormônio que causa saciedade.

Obesidade é causa de hipertensão arterial e diabetes (mais de 80% dos indivíduos com Diabetes tipo 2 são obesos),está relacionada a maior risco de desenvolver vários tipos de câncer entre eles o câncer de mama,útero, intestino etireoide.O INCA (Instituto Nacional de Câncer) recomenda a manutenção de peso corporal adequado como uma das formas mais importantes de se proteger contra o câncer.

Perder peso melhora o controle do diabetes e da hipertensão arterial, em alguns casos levando até á remissão dessas patologias. Perda mesmo modesta em torno de 5-10% do peso corporal, já traz importante benefício á saúde.A incorporação de hábitos alimentares saudáveis e prática regular de atividade física é um dos pilares fundamentais para alcançar sucesso na perda de peso, mas muitas vezes faz-se necessário a utilização de terapia medicamentosa associada. Um erro muito freqüente é achar que após a perda de peso não será necessário a manutenção do tratamento.Da mesma forma que acontece com o diabetes e a hipertensão arterial, a obesidade é uma doença crônica e seu tratamento deve ser contínuo,adotando-se estratégias diferentes de acordo com a evolução da perda de peso.Abandono dos hábitos alimentares adquiridos e/ou da atividade física que possibilitaram a perda de peso, ou ainterrupção do tratamento medicamentoso quando ele se faz necessário, faz com que ocorra o efeito sanfona, em que o indivíduo perde e ganha peso repetidamente.

É necessário ter estratégias para manter o peso emlongo prazo, nosso corpo é geneticamente preparado para defender-se da perda de peso, criando modificações hormonais que visam poupar energia para fazer com que o peso retorne. Quando se perde peso além da gordura corporal,um percentual de massa muscular também é perdido, essa perda indesejável pode ser minimizadacom a atividade física. Preservar músculo enquanto emagrecemos é um dos mecanismos para vencer a resistência do corpo em continuar perdendo peso ou em manter o peso perdido. Como o músculo gasta mais energia para manter-se do que a gordura, à medida que a massa muscular é perdida o metabolismo basal, que representa o gasto de energia em repouso, diminui e essa redução de gasto energéticodificulta a perda de peso.A atividade física regular é uma dos principais aliados na manutenção do peso.

O entendimento da obesidade como doença crônica que necessita tratamento contínuo é fundamental para o sucesso terapêutico, mesmo quando a escolha do tratamento recai na cirurgia bariátrica, pois a não incorporação das medidas para manter o peso perdido pode acarretar reganho de peso mesmo após uma cirurgia bem sucedida. Essa visão é a mesma adotada pela medicina no tratamentoda hipertensão e do diabetes,quando depois de obtido o controle adequadoé mantido as medidas instituídas para esse controle,uma vez que a interrupção do tratamento leva a falha terapêutica.

*Médica Endocrinologista, preceptora da residência médica em endocrinologia e metabologia da UFBA

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