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Pandemia, inflação e terra

Publicado segunda-feira, 18 de janeiro de 2021 às 20:36 h | Atualizado em 18/01/2021, 20:44 | Autor: Matteus Martins*
Matteus Guimarães Martins, assessor de Planejamento e Gestão da Secretaria de Desenvolvimento Rural do Estado da Bahia | Foto: Divulgação
Matteus Guimarães Martins, assessor de Planejamento e Gestão da Secretaria de Desenvolvimento Rural do Estado da Bahia | Foto: Divulgação -
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O IBGE divulgou o Índice de Preço do Consumidor Amplo (IPCA) referente a 2020, segundo o qual, com expansão de 4,52%, expressa a maior inflação dos últimos 4 anos no Brasil. Nesse cenário de desequilíbrio, com acúmulo de aproximadamente 14,1%, em 2020, os alimentos responderam por quase metade da inflação anual, na maior elevação de preços destes bens desde 2002. Novidade? Não, essas estatísticas foram sentidas no bolso de cada brasileiro(a), durante todo ano 2020.

Uma das explicações que as ciências econômicas nos fornecem sobre isso é da inflação via demanda: o distanciamento físico requerido pela pandemia levou as pessoas a se resguardaram em suas casas e estas encontraram nos alimentos uma forma de maximização do prazer, o que elevou o consumo alimentar agregado e desencadeou o aumento dos preços.

Isso atinge diretamente a classe que vive do trabalho. Segundo o Dieese, o comprometimento do salário mínimo com os alimentos básicos foi o maior em 12 anos. Em todas as capitais pesquisadas por esta organização a cesta básica teve aumento, com destaque para Salvador que, com elevação de 32,89%,liderou o crescimento de preços de alimentos básicos no Brasil. Este crescimento significa que um(a) soteropolitano(a) que recebe um salário mínimo precisa desembolsar R$ 479,08 para adquirir a cesta básica, ou seja, ele compromete 45,8% com o alimento basilar em função da inflação de 2020. Em termos de tempo de trabalho, esse(a) mesmo(a) soteropolitano(a) precisou dispor de 100 horas e 52 minutos do seu suor no mês de dezembro para conseguir pagar seu alimento básico.

A sabedoria popular ensina que “não só de pão vive o homem”. Nem a mulher. Então, como é que se paga as demais contas para assegurar a sobrevivência? Em um cenário de desemprego e de necessidade de coesão social, há uma expectativa moral de que os bens básicos se mantenham, no mínimo, estáveis. O alimento é o substrato que os processos agropecuários fornecem à vida humana. Mas essa expectativa moral não ecoa nos ouvidos do mercado.l

Um país com tanta terra para se produzir alimentos não pode ficar refém de uma regra de mercado dessa natureza. A pandemia, à luz dessa explicação da inflação via demanda, escancarou o quão viva é a necessidade de se fazer reforma agrária no Brasil. Desemprego e inflação podem ser combatidos, conforme preconiza a própria lei de mercado, por uma ampla reforma agrária capaz de elevar a produção de alimentos e conter a inflação mediante a expansão da oferta, dando ainda ocupação para os mais de 14 milhões de brasileiro(a)s desempregrado(a)s.

Obviamente que já temos prontos, no mínimo, dois discursos que rechaçam essa possibilidade para dar sustentação à hegemonia da concentração da propriedade fundiária no Brasil, mesmo este afetado pela inflação e pela retomada da fome. Gritam: “se der a terra, eles vendem e não produzem” e “isso é coisa de comunista”. Para o primeiro, a própria pandemia revela sua fragilidade diante da quantidade de alimentos produzidos, vendidos e até doados de forma solidária pelos diversos assentamentos de reforma agrária. As gôndolas dos supermercados e as feiras livres também tornam esse discurso irrelevante. Ante o segundo discurso, a história mostra que até mesmo os Estados Unidos da América - referência de liberalismo para grande parte dos defensores do latifúndio - fizeram reforma agrária para o desenvolvimento da sua porção oeste. Portanto, reforma agrária não é coisa de comunista, é coisa de quem usa a racionalidade e tem coragem de quebrar paradigmas em nome da superação dos desafios que a vida em sociedade apresenta. Não veio por amor, mas chegou pela dor: urge quebrar o paradigma da concentração de terras no Brasil.

*Matteus Martins é economista formado pela Universidade Estadual de Feira de Santana, mestre em Agronegócios pela Universidade de Brasília, onde pesquisou agroindústrias da agricultura familiar, e doutorando em economia pela Universidade de Federal da Bahia

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