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Salvador sediou conflito entre católicos e muçulmanos

Publicado sexta-feira, 15 de janeiro de 2021 às 10:45 h | Atualizado em 15/01/2021, 11:53 | Autor: Cleidiana Ramos
Na edição de 10 de dezembro de 1914 A TARDE contou detalhes do conflito
Na edição de 10 de dezembro de 1914 A TARDE contou detalhes do conflito -
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Em 6 de dezembro de 1914, A TARDE noticiou um conflito no interior da comunidade turca  como era chamada a reunião de imigrantes vindos principalmente dos atuais países Líbano e Síria. Na confusão enfrentaram-se católicos e muçulmanos com as consequências de duas mortes, várias pessoas feridas e 42 presas. A disputa religiosa foi reflexo da instabilidade política no local de partida desses imigrantes: o  Império Turco Otomano que, formado por volta do século XIII, ocupou um vasto território: parte do oriente médio, do leste europeu e do norte da África. Com uma diversidade étnica significativa o império turco vivia em meio a seguidas instabilidades políticas pioradas com a sua adesão à Alemanha na I Guerra Mundial. Amanhã, sábado, 16, a versão dessa coluna no jornal A TARDE vai apresentar os detalhes desse conflito religioso em Salvador.  Neste artigo da doutora em história e professora da Uneb, Cistiane Santana é possível entender o contexto geopolítico que resultou nesse enfrentamento.

Imagem ilustrativa da imagem Salvador sediou conflito entre católicos e muçulmanos
Conflito entre cristãos e muçulmanos ocorreu em Salvador em 1914

ARTIGO: O Império Turco Otomano e a I Guerra Mundial​

Cristiane Santana

O Império Turco Otomano, poderoso ao longo de quatro séculos, seria marcado a partir de meados do século XIX pelo crescimento de movimentos nacionalistas entre os súditos do sudoeste asiático, do norte africano e do leste europeu  que cooperaram com o processo de desintegração. Diante deste quadro, as potências européias viram a oportunidade de expandirem sua zona de influência na região.

A Primeira Guerra Mundial iniciada em agosto de 1914 colocou o Império Turco Otomano como foco de disputa entre os países europeus envolvidos, devido sua a posição estratégica entre três continentes.

A participação dos turcos na I Guerra é uma temática negligenciada. Desde o fim do século XIX, os alemães e os turcos estabeleciam relações, o que explica a tomada de posição a favor da Alemanha no contexto do conflito. Sean MacMeekin abordou em sua obra a importância do Império Turco Otomano na tentativa de conquista por parte dos alemães, mostrando que além de terem o território como sua zona de influência, Berlim investiu em levantes muçulmanos em defesa da jihad islâmica. O autor aponta que os investimentos foram altos por parte dos alemães com o intuito de desestabilizar seus inimigos. Ouro, dinheiro e armas foram fornecidos pelos alemães para esses grupos. Seria o conflito entre cristãos e muçulmanos ocorrido em 7 de dezembro de 1914 a Rua dos Capitães em Salvador uma tentativa de jihad islâmica patrocinada pelos alemães?Uma questão para investigação futura...

O auge da guerra trouxe um novo cenário marcado pelo avanço da Tríplice Entente. Iniciou-se a desintegração do império marcada pela divisão do território entre potências, o que já havia se iniciado desde 1915 com o processo negociação feito através do secreto acordo de Sykes – Picot, do qual fizeram parte Inglaterra, França, Rússia czarista e Itália.

O fim da I Guerra mudou não somente o mapa geopolítico da Europa. O Império Otomano foi reduzido a Anatólia e uma pequena parte da Europa sendo extinto em 1922 com a queda do sultão Mehmed VI.  Sendo desmembrado, deu origem a novos países controlados por ingleses e britânicos, os quais impuseram um poderio militar em tais regiões. A Turquia surgiu como Estado Nacional Independente.  Sob o regime de Mandato, Líbano e Síria foram colocados sob o domínio francês e a Inglaterra detinha o comando do Iraque, da Transjordânia e da Palestina.

Uma nova história, reflexo da política imperialista, se iniciaria com essa divisão cujos capítulos se desenrolam até os dias de hoje, afinal o mandato britânico favoreceu a imigração judaica, dando condições para o estabelecimento do Estado de Israel em território palestino.

Cristiane Santana é doutora em história, professora na Uneb- Campus XIV- Conceição do Coité e autora de Maoísmo na Bahia (1967-1970).  

Imagem ilustrativa da imagem Salvador sediou conflito entre católicos e muçulmanos
Cristiane Santana é doutora em história e professora da Uneb

Fontes:

Gattaz, André. Do Líbano ao Brasil: história oral de imigrantes.2ª edição. Salvador: Editora Pontocom, 2012

McMeekin, Sean. O expresso Berlim--Bagdá. O Império otomano e a tentativa da Alemanha de conquistar o poder mundial, 1898-1918. São Paulo: Globo, 2011.

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