Salvador sediou o I Congresso Nacional de Trovadores e Violeiros em 1955

Publicado sábado, 19 de junho de 2021 às 06:02 h | Atualizado em 18/06/2021, 22:25 | Autor: Cleidiana Ramos*

De 1º a 6 de julho de 1955, A TARDE publicou reportagens sobre a realização de um encontro que mobilizou o universo das artes brasileiras: o I Congresso Nacional de Trovadores e Violeiros. Escritores e jornalistas, especialmente de São Paulo, acompanharam de forma entusiasmada as sessões do encontro. Rubem Valentim, Genaro de Carvalho, Mario Cravo, Jenner Augusto, Carybé, José Claudio, João Garboggini Quaglia e Ruben Martins produziram uma exposição especial para o congresso instalada no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB). Mais do que uma reunião de uma categoria de artistas, os bastidores do evento revelam detalhes da dedicação do poeta e cordelista Rodolfo Coelho Cavalcante (1917-1986) à defesa da sua arte em uma perspectiva coletiva.

Alagoano, Rodolfo Cavalcante teve uma trajetória que pode ser contada nos formatos épicos da literatura de cordel. Filho de operários da indústria têxtil, aventurou-se por diversas atividades, mas encontrou na facilidade de fazer versos a vocação da sua vida. Cordelista, teve na venda dos folhetos com a sua criação a forma mais segura para obter renda.

Conta-se que ao escrever, dentre as muitas obras, o ABC de Octávio Mangabeira e ser convidado para conversar com o governador no Palácio Rio Branco, no lugar de reprimenda que esperava, ganhou simpatia e o direito de comercializar suas obras sem a perseguição que atingia os artistas como ele. No entorno do Mercado Modelo, onde depois teve um ponto de venda fixo para as suas obras, Cavalcante compreendeu a necessidade de uma organização melhor da categoria. Inspirado pelo Congresso Brasileiro de Escritores, que Salvador sediou em 1950, começou a planejar o encontro dos trovadores realizado cinco anos depois.

“Atendendo ao apelo do popular poeta bahiano Rodolfo Coelho Cavalcante, dezenas de trovadores e violeiros vieram das feiras do sertão e das cidades do litoral. Chegaram de viola em punho e voz afinada com as suas esperanças e os seus anseios, a sua ingenuidade, a naturalidade de sua poesia, os seus folhetos de versos e os seus desafios. Vieram da Paraíba e do Ceará, de Pernambuco, Alagoas e Sergipe para com os irmãos da Bahia discutirem pela primeira vez os interesses da classe”. (A TARDE, 2/7/1955, p. 2).

Imagem ilustrativa da imagem Salvador sediou o I Congresso Nacional de Trovadores e Violeiros em 1955
Programação incluiu participação na festa de 2 de Julho || 2.7.1955

Achado

O alerta sobre esse importante encontro me foi dado pelo jornalista, historiador e escritor Gilfrancisco. Ao pesquisar seus arquivos, especialmente sobre a história do Partido Comunista em Sergipe, ele encontrou referências sobre o evento que até então desconhecia. “Eu conhecia um encontro desses artistas, mas na década de 1970 com o chamado “ônibus do cordel”, que saiu de Campina Grande e veio para Salvador com apresentações na Praça Cayru, vendas de fitas K7 e folhetos. Mas este de 1955 eu não conhecia até encontrar muitas referências no jornal Imprensa Popular”, diz. O jornal Imprensa Popular foi um periódico vinculado ao PCB.

Com a sua atenção a todos os acontecimentos relevantes na Bahia, A TARDE acompanhou detalhadamente a realização do congresso. Na edição de 1º de julho de 1955 anunciou a abertura do evento, a programação e o hino que Rodolfo Cavalcante compôs especialmente para a ocasião:

“Somos nós trovadores brasileiros/ Que cantamos a vida com prazer/ Nossos livros são humildes e fagueiros/ Mas são grandes, nos dão para viver.

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O congresso teve ampla cobertura de A TARDE || 4.7.1955

Estribilho

Somos unidos/ vamos marchando/ Cantando versos, nos alegrando/ Quando o amargo da vida nos domina/ Nossos versos têm mais inspiração/ Nossa arte é de glória e nos fascina/ nosso livro é o nosso ganha-pão” (A TARDE, 1º/7/1955, p. 2). 

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A TARDE noticiou o I Congresso Nacional dos Trovadores e Violeiros || 1º.7.1955

Articulação

Ao longo dos registros nas reportagens, a capacidade política de Rodolfo Cavalcante vai ficando mais evidente. Além da presença de artistas de outros estados, a abertura contou com a participação de uma das estrelas baianas da arte do cordel: Cuíca de Santo Amaro (1907-1964), celebrado pelo escritor Jorge Amado, pelo dramaturgo Dias Gomes e pelo cineasta Anselmo Duarte.

Em todas os textos sobre o congresso sempre é repetido os seus principais interesses: a valorização da categoria, que passa pelo associativismo. Talvez tenha sido essa a característica que despertou o interesse em torno do evento de intelectuais ligados ao PCB.

Na edição de 6 de julho de 1955, que noticiou o encerramento do congresso, A TARDE aponta que os objetivos estipulados desde o início da divulgação do evento foram atingidos nas suas decisões finais: a criação da Associação Nacional de Trovadores e Violeiros (ANTV); a fundação da Casa do Trovador; a transformação do jornal “Voz do Trovador”, no periódico oficial da categoria, um programa voltado para a educação formal dos chamados poetas populares e o registro dos folhetos produzidos por eles.

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Evento atraiu o apoio de escritores, jornalistas e artistas || 5.7.1955

Outra decisão do congresso mostra o empenho de Rodolfo Cavalcante em valorizar a memória da arte de cordel. Foram escolhidos como patronos da ANTV Leandro Gomes de Barros e Inácio da Catingueira.

Leandro Gomes de Barros (1865-1918) nasceu em Pombal, na Paraíba, e é considerado o primeiro artista a se preocupar com os registros de autoria da literatura feita por meio da trova e do repente, que é o ambiente do nascimento do gênero conhecido como cordel. Duas obras de Leandro de Barros – O testamento do cachorro e O cavalo que defecava dinheiro – inspiraram a composição de O Auto da Compadecida, por Ariano Suassuna.

Inácio da Catingueira é outra referência que mostra a força de mobilização e emancipação que essa arte proporciona aos seus artistas. Escravo em Patos, também na Paraíba, Inácio ficou conhecido por fazer seus versos acompanhado pelo pandeiro.

No entorno desse personagem há uma vasta literatura oral que pesquisadoras e pesquisadores da historiografia costumam perseguir para encontrar mais elementos como o seu mais famoso feito: uma peleja, como é chamada também a disputa literária, entre ele e Francisco Romano da Teixeira, um poeta que dominava as formas clássicas. De acordo com algumas narrativas, a peleja durou horas, outros falam em dias e foi vencida por Inácio ao deixar Romano sem condições de lhe fazer uma das réplicas. O rapper e compositor Emicida fez uma música inspirada na história de Inácio.

Ao recuperar, portanto, personagens como estes, o I Congresso Nacional de Trovadores e Violeiros marcou a importância de uma arte que começava a ganhar visibilidade como um bem cultural e que merecia lugar de destaque entre as artes brasileiras. A articulação de Cavalcante, especialmente com o jornalismo, já havia se sedimentado. Um ano antes do congresso, por exemplo, ele assinava a coluna “Quando falam os trovadores”, no Diário da Bahia. Além disso, a Associação da Imprensa Periódica foi a patrocinadora do congresso.

Na edição de 6 de julho, A TARDE anunciou que a próxima edição do congresso estava programada, embora ainda sem uma data definida, para Recife. A capital pernambucana enviou uma das delegações mais numerosas, além do grupo ter contado com o financiamento da prefeitura local no valor de 50 mil cruzeiros, o que atestava a importância dada pelo poder público ao evento. Na Bahia, tanto o governo do estado como a prefeitura também ofereceram apoio.

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Congresso terminou com ações de valorização | Foto: Arquivo A TARDE | 6.7.1955

Mas os desdobramentos das resoluções aprovadas no congresso não tiveram, nos anos seguintes, os efeitos desejados por Rodolfo Cavalcante. Um ano depois ele deixou a ANTV porque, segundo algumas versões, avaliava que ela se aproximava de interesses ligados a partidos políticos, embora não se encontre uma definição precisa sobre qual grupo específico recaíram suas queixas.

Em 1958, Cavalcante voltou aos caminhos do associativismo com a fundação do Grêmio Brasileiro de Trovadores. A associação funcionou até 1960 quando foi realizado o II Congresso de Trovadores e Violeiros em São Paulo.

Na capital baiana, Rodolfo Cavalcante conseguiu organizar, em 1976, mais um evento importante: a I Feira Regional de Cordel, com o apoio da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Autor de cerca de dois mil folhetos de cordel, fundou a Ordem Brasileira de Literatura e Cordel, que dirigiu até morrer em 7 de outubro de 1986, atropelado nas imediações da casa onde morava na Liberdade. Dentre as suas obras destacam-se ABC da Carestia, O Adeus de Juraci e O Casamento do Macaco com a Raposa.

A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período. Fontes: Edições de A TARDE, Cedoc A TARDE. Para saber mais: Fundação Joaquim Nabuco (https://www.fundaj.gov.br/) e Itaú Cultural (https://www.itaucultural.org.br/)

*Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em Antropologia

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