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Detalhe Tático

Publicado terça-feira, 03 de março de 2020 às 10:30 h | Atualizado em 21/01/2021, 00:00 | Autor: Daniel Dórea | Jornalista | [email protected]
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Talvez a baixa expectativa tenha feito muitas pessoas classificarem o Ba-Vi do último domingo como um bom jogo. Não foi. Poucas chances foram criadas e nenhuma das equipes mostrou poder de construir jogadas bem trabalhadas a partir do seu campo de defesa, privilégio de poucos – e só dos melhores – no futebol atual.

A verdade é que o ânimo demonstrado pelos jogadores, convertido em parte na intensidade que tanto se exige, também ajudou a moldar essa visão positiva do embate. E, de fato, minha impressão não foi negativa. Consigo ver no funcionamento das duas equipes conceitos interessantes, modernos, mesmo que na prática, pela pouca qualidade técnica da maioria dos atletas, as coisas não aconteçam como se planeja.

O vencedor no Barradão foi o Bahia, apesar de não ter jogado melhor que o Vitória, ter apresentado problemas de saída de bola, de marcação, de tudo. No comando tricolor está Dado Cavalcanti, um técnico jovem (38 anos), mas com currículo extenso. Após o jogo, ele deu mais uma de suas excelentes entrevistas, nas quais é didático, mas claro, profundo, mas direto.

É salutar que o treinador consiga explicar suas decisões, assumir erros, justificá-los. Os jornalistas e os torcedores precisam entender esses porquês. Se o cargo de técnico é tão inseguro,  frágil, é também porque os treinadores não conseguem nos convencer sobre os motivos para suas ideias às vezes não darem certo. Os discursos excessivamente metafóricos e/ou cheios de vícios de linguagem,  como os de Tite e Roger, me incomodam um pouco.

No Ba-Vi, o Bahia não contava com o meio-campista Ramon, o melhor jogador do time. E Dado o substituiu por Yuri, um jogador muito mais defensivo. Na entrevista, ele não tergiversou ao ser questionado sobre o assunto. “Foi uma mudança significativa. Eu vinha jogando com dois meias e um volante, e passei a jogar com dois volantes e um meia. Sofremos muito com a perda do apoio na saída da pressão. Fiz opção por uma segurança maior na equipe, ter mais força defensiva”, argumentou. Ainda assim, os mecanismos ajustados de saída de bola puderam ser vistos, como destaco em dois momentos no infográfico.

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Diferentemente do time principal, os aspirantes usam o goleiro Fernando, melhor com os pés em comparação a Douglas e Anderson. Com os recuos, os adversários se espalham mais no campo, aumentando os espaços. E aí é importante que o goleiro tenha capacidade de encontrar companheiros bem colocados entre linhas com passes de curta ou média distância, como no lance destacado no campinho número 2, em que Fernando lança o lateral esquerdo Mayk. Na hora do recuo, os zagueiros abrem para ser opção de passe e dispersar a marcação rival, algo parecido com o que faz o Flamengo, por exemplo.

Outra alternativa que bons times modernos usam é o trabalho do volante mais defensivo como terceiro zagueiro para ajudar no início das jogadas. No lance 3 do infográfico, Yuri recua e os zagueiros se posicionam mais perto dos laterais, para facilitar o avanço pelos lados.

Em mais um bom momento da coletiva, Dado é perguntado sobre um suposto posicionamento conservador do time. Ele discorda e expõe um problema ainda maior da equipe. “Não estávamos embaixo, mas longe, com as linhas afastadas, descompactados”. É verdade, mas o time chegou a exercer no primeiro tempo uma pressão bastante agressiva no campo de ataque (1), com várias bolas roubadas próximo à área adversária.

Dado Cavalcanti também revelou, durante a semana, ter poupado Arthur Rezende de treinos físicos para que ele aprimorasse as bolas paradas. E assim a partida se resolveu. Arthur tem um importante papel na saída de jogo, que é buscar a bola no pé dos zagueiros e esticar o passe com mais qualidade (4). 

O centroavante Saldanha, único a já ser utilizado por Roger no time principal, é outro jogador que me chama a atenção. Ele não só se parece fisicamente com Roberto Firmino como também emula virtudes do atacante do Liverpool, um jogador de grande mobilidade e inteligência, que se destaca mais pelo trabalho coletivo do que pelos gols.

Mas, desse time de aspirantes, nada se tira de mais positivo do que o seu técnico. Ter Dado em casa, um professor tão prendado, é motivo para acreditar num caminho a trilhar semelhante ao de outros treinadores que cresceram dentro do próprio clube, como Tiago Nunes e Fábio Carille.

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