Resenha rubro-negra - Vitória da democracia

Publicado sexta-feira, 10 de setembro de 2021 às 06:02 h | Atualizado em 09/09/2021, 18:56 | Autor: Angelo Paz | Jornalista | [email protected]

Pode ser que você, assim como eu, tenha crescido pegando o baba que tinha o seguinte esquema: dez minutos, dois gols. O que acontecia primeiro determinava o fim da partida. Em caso de vencedor, saia o perdedor e entrava o baba de fora. Simples, sem juiz, de vez em quando rolava uns ‘pegapacapás’, mas em geral todo mundo respeitava.

É com uma analogia semelhante a essa, mas com o basquete como ponto de referência, que os autores do best-seller Como as Democracias Morrem, buscam explicar como o respeito às tais regras não escritas são importantes para proteger a democracia, que obviamente tem as regras escritas (constituições) e árbitros (tribunais). Em suma, quando o jogo político se desenrola longe do clima de luta livre, assim como no exemplo do baba, o ambiente democrático funciona melhor.

Essa é uma questão que, infelizmente, não ocorre atualmente no Brasil, como vimos mais uma vez no feriado da Independência, quando o presidente, Jair Bolsonaro, e seus apoiadores atacaram as regras escritas anteriormente mencionadas, e também não vinha ocorrendo no Vitória, devido ao perfil também autoritário do presidente Paulo Carneiro. Enquanto torço ansiosamente pelo impeachment do primeiro, já me deixa satisfeito o afastamento do segundo. Vejo o Vitória, que vive uma democracia jovem, com apenas quatro anos de eleições diretas, fortalecido com a decisão.

Alerta de tirania

Afinal, o sistema democrático está fadado ao fim caso seu sistema de defesa não seja suficientemente efetivo para afastar líderes autoritários do poder. E Paulo Carneiro, apesar de ter sido eleito pelo voto dos sócios do clube, se encaixa em todos os critérios que devem ser motivo de alerta à democracia, como bem descreveram os professores de Ciência Política da Universidade de Havard-EUA, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores do livro que citei no início do texto.

Vamos a eles: primeiro, rejeição das regras democráticas estabelecidas. Enquanto o estatuto do clube prevê que, em caso de afastamento do presidente, o vice assuma a função de presidente temporariamente, Paulo classificou a posse do vice, Luiz Henrique, como incoerente, um dia após ser afastado por administração temerária num cenário de 76 votos a favor, três abstenções e nenhum voto contrário.

Em segundo ponto temos a negação da legitimidade de seus oponentes. “A partir de amanhã o Vitória vai estar no caos porque vai ser dirigido por Fábio Mota [presidente do Conselho Deliberativo], o grande Judas desse processo”, bradou, via WhatsApp, horas antes da reunião. Como terceiro ponto, destaco a tolerância à violência, que Paulo praticou, por exemplo, de forma verbal contra o meia Vinícius, do Ceará, numa partida pela Copa do Brasil do ano passado, e acabou punido pelo STJD.

Por fim, Paulo também tem propensão a restringir liberdades, como é o caso da mídia. Sem nem precisar citar os episódios de confusão com a imprensa em sua primeira passagem pelo clube, uso um exemplo mais recente, de 2019, quando subiu o tom contra a equipe do programa No Campo do 4, da TV Aratu, após desaprovar uma matéria. “Se não houver retratação da equipe, vamos tomar a providência que achamos que temos que tomar”, ameaçou, também através de áudio no WhatsApp. Definitivamente, esse é um perfil de presidente que os rubro-negros não merecem e a sociedade não precisa.

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