É Primavera!

Publicado sábado, 04 de setembro de 2021 às 05:00 h | Atualizado em 09/09/2021, 22:17 | Autor: Isabel Oliveira

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A cosmo é uma Panc comestível, medicinal e atrai borboletas

     Amanda Brasil/ Divulgação

“Quando entrar setembro

E a boa nova andar nos campos

Quero ver brotar o perdão

Onde a gente plantou juntos outra vez”

A música de Beto Guedes, ícone de uma geração, a cada primavera toca e alma de muita gente. Para muitos, a estação é o anúncio de um novo tempo e a possibilidade de renovação.

Essa percepção psicológica coincide com o fenômeno da mudança climática que a estação das flores provoca modificando as paisagens e, dizem os especialistas, o comportamento até mesmo dos animais.

Associada à renovação da flora, a primavera é um período inspirador que traz a poesia das flores, carregadas de simbologia. Elas nos remetem a muitos significados, como renovação e a jovialidade. Está na vida das pessoas em diversos cenários pelas cores, perfume e beleza; enviada como um presente, para ornamentar e, num processo mais recente, para uso culinário, quando se trata de uma Planta Comestível Não Convencional (Panc).

Amanda Brasil/Divulgação

As Pancs têm sido resgatadas de um passado um pouco distante, mas valorizadas cada vez mais como alimento vivo, que vem se inserindo aos poucos na mesa dos brasileiros. E as flores são um banquete à parte para os olhos e alma.

Nínive Dalila, cozinheira e estudante de gastronomia na Ufba, ministra oficinas e cursos sobre Panc. Ela tem como objetivo naturalizar o uso das Pancs. “Uma das primeiras Pancs que conheci foi uma flor. Depois de um período experimentando e conhecendo flores, fui entendendo um pouco a dinâmica do comer. Das que eu costumo consumir estão hibisco, que fica muito boa in natura, apesar de não ter muito sabor, para saladas, decorar bolos e canapés”, conta.

A especialista em educação ambiental e gastróloga especialista em gastronomia Panc, Amanda Brasil, vive rodeada de plantas comestíveis não convencionais no sítio onde mora, no interior do Rio de Janeiro, cujo nome é muito sugestivo: Panclândia!

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Capuchinha, uma das muitas espécies de Pancs

     Amanda Brasil/Divulgação

No local, “ há muitas plantas espontâneas, que eu coleto direto da natureza e também cultivo”, conta. A especialista diz que hoje há um novo olhar sobre essas espécies, antes consideradas apenas como matos, especialmente sobre as flores comestíveis.

“Hoje, temos uma infinidade de plantas com flores comestíveis catalogadas depois desse resgate do movimento Panc. Temos o dente-de-leão, serralha, jambu, perpétua, capuchinha, cosmos; e as ornamentais, que podem ser consumidas por se tratar de orgânicas. Entre elas, a flamboyant-de-jardim, hibiscos, paineira, acácia, rosa. São flores que eram negligenciadas. As folhas ou a raiz das plantas eram utilizadas de maneira medicinal ou até mesmo como verdura silvestre, mas as flores sempre eram deixadas de lado”, conta.

A especialista em educação ambiental declara que embora haja aumento de interesse sobre o assunto, há ainda um certo receio das pessoas, que precisam lançar um novo olhar sobre essas plantas comestíveis não convencionais.

“A gente precisa mudar nosso olhar, ser mais curioso, investigativo, buscar fontes seguras sobre essa temática, tentar interagir, conversar”, diz.

Amanda também conta que embora tenha ocorrido um 'boom' sobre o assunto, esclarece que é preciso alguns cuidados com as flores, pois nem todas encontradas são comestíveis ou podem ser consumidas, como é o caso das flores comercializadas em floriculturas.

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As flores têm o poder de tingir alimentos

      Amanda Brasil/Divulgação

"É importante a gente estar atento ao local de coleta dessas flores, muitas estão no paisagismo urbano, expostas à poluição. É preciso analisar um local que ofereça segurança. A higienização é muito importante. Lavar em água corrente e, se usar sanitizante, tem que ser um mergulho muito rapidinho, pois as flores são frágeis", explica.

Quanto às flores de floricultura ela alerta para o fato de serem produzidas para durar mais. “Existe uma infinidade de aditivos químicos na produção para que fiquem mais bonitas, mais vistosas, mais fortes, que tenham mais durabilidade. Então, não é uma planta para alimentação, ela é para ornamentação”, esclarece.

O caso de amor com as Pancs nasceu desde que a gastróloga se entende por gente, quando convivia com a avó, que tinha uma hortinha de ervas e temperos, além de conhecimento de plantas comestíveis. Era comum na família comer essas “verdurinhas de mato”, como Amanda lembra carinhosamente, tanto quanto comer alface, couve, dentre outras verduras e hortaliças. Para ela, as Pancs têm um grande potencial de resgatar a memória afetiva.

 “Eu vivi isso na pele quando reencontrei elas aqui (na Panclândia). Cada Panc que eu provava novamente, depois de anos sem comer, me trazia histórias. As Pancs têm esse potencial de resgatar nossa memória afetiva de algum momento da nossa história”, declara.

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Bem se vê essa afetividade traduzida na Panclândia, uma ode, em todos os sentidos, à primavera. O local funciona como um laboratório, onde a especialista cataloga as espécies e logo corre para contar aos seus inúmeros seguidores nas redes sociais por meio do Instagram @panclandia.

São centenas de espécies, embora ela não saiba precisar a quantidade. Quando uma amostra é descoberta na Panclândia, Amanda diz: “menos um mato". Foi o caso recente do espinafre-do-mato (Alternanthera tenella).

Muitas espécies transformam-se em pratos pra lá de lindos e, sem dúvida, que devem ser deliciosos, como a geleia de maria pretinha, o maki de arco-íris de vegetais com cogumelos, omelete com pétalas de malvavisco e outras infinidades de sabores que instigam nosso olhar e nosso estômago.

Confiram abaixo uma das receitas mais lindas, coloridas, simples e, certamente, saborosa feita por Amanda Brasil.

Salada Jardim

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As flores Pancs são nutritivas e saborosas

      Felipe Oliveira/Divulgação

Ingredientes:

-Alface Roxa;

-Folhas PANC: capuchinha, almeirão, crepe-do-japão e cosmos;

-Flores: cosmos, ora-pro-nobis,rosa, malvavisco e amor-perfeito.

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As Pancs têm potencial de resgate afetivo

Felipe Oliveira/Divulgação

Montagem

Em uma saladeira, disponha os vegetais na seguinte ordem: primeiro a alface, depois o mix de folhas Pancs e por último as flores.

Tire algumas pétalas de cosmos e salpique sobre a salada para dar um efeito bonito e colorido.

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O fuet homogeneíza misturas, mas quem não tem a peça pode usar um garfo

Felipe Oliveira/Divulgação

Para o Molho:

- 1 colher de sopa de azeite;

- 1 colher de sopa de suco de limão;

- 1 colher de café de mel;

- sal e pimenta-do-reino a gosto.

Misture bem os ingredientes do molho com um fuet para criar uma emulsão e despeje sobre a salada.

Você pode misturar tudo no momento que for servir para envolver todos os ingredientes da salada no molho

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E está pronta uma salada colorida, nutritiva e linda! E viva a primavera!

Felipe Oliveira/Divulgação

Contato: [email protected] 

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