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Eu quero uma bússola

Publicado às | Atualizado em 07/10/2021, 21:27 | Autor: [email protected]
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O navegador e mercador veneziano Marco Polo foi o principal conselheiro do Imperador Kublai Khan (neto do Imperador mongol Gengis Khan) por 17 anos, ganhando prestígio e dinheiro. Nas suas viagens à China trouxe ao ocidente iguarias e artefatos, presentes até hoje em nossas vidas. Uma das mais relevantes foi a bússola. Inventada pelos chineses em torno de 1040 d.C. guardava significado místico, inserida no “feng shui” era um instrumento usado para adivinhações, profecias e auxílio na tomada de decisões. Posteriormente aplicada à navegação, mudou o mundo ocidental, facilitando a descoberta das novas rotas marítimas.

Quase 700 anos depois, início de 1979, o então presidente chinês Deng Xiaoping abriu as portas do país aos investidores estrangeiros. Um processo gradativo e persistente, fez a China dobrar seu PIB a cada oito anos, em média, ajudando a tirar da pobreza cerca de 800 milhões de pessoas. Conforme relatório RL33534 da CRS - Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA (everycrsreport.com), a China se tornou a maior economia do mundo (com base na paridade do poder de compra), fabricante, comerciante de mercadorias e detentora de reservas cambiais. É o maior parceiro comercial, a maior fonte de importações e o terceiro maior mercado de exportação dos EUA. Tudo que acontece lá repercute no mundo inteiro.

Pós-pandemia

Com a retomada econômica mundial, pós-pandemia, cresceu a demanda de produtos chineses. Além dos componentes eletrônicos, roupas, sapatos etc. também o que gasta muita energia (aço, alumínio, vidros).

Na China 67% da produção de energia vem de termelétricas a carvão. O governo, para cumprir metas de emissão de CO2, apertou as mineradoras nos aspectos ambientais e de segurança, causando uma redução na disponibilidade do produto. Como consequência natural: preços subiram e as geradoras de energia passaram a operar no prejuízo, pois não houve aumento do preço da eletricidade. Sem “bandeiras tarifárias” e com preço do carvão nas alturas, os empresários reduziram produção, provocando o déficit energético.

O apagão chegou por lá e está afetando o funcionamento de empresas, cidades e a vida das pessoas. A economia mundial entrou em estado de alerta. A principal agência de planejamento econômico da China, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (www.en.ndrc.gov.cn), ordenou a 20 grandes cidades e a todas as províncias, no final de agosto, a reduzir o consumo pelo resto do ano. Indústrias em geral foram obrigadas a parar, principalmente as eletrointensivas. Elevadores desligados, cidades sem energia. Em 27/09 a Agência Reuters anunciou que “vários fornecedores da Apple Inc e Tesla Inc suspenderam a produção em algumas fábricas chinesas por vários dias, para cumprir as políticas de consumo de energia mais rígidas, colocando as cadeias de abastecimento em risco na alta temporada, para produtos eletrônicos”.

Os efeitos dessa situação começaram a ser noticiados esta semana. A redução da máquina chinesa irá repercutir num aumento de preços em todo o planeta. No Brasil já vivenciamos um aumento generalizado nas comodities. Segundo a Assoc. Brasileira Ind. de Alimentos (Abia) os insumos na indústria de alimentos variaram até 74%. Na construção civil, o INCC-M (FGV) subiu 0,56% em setembro e acumula alta de 16,37% em 12 meses. Em 30/09/21 o Diretor do Banco Central, Fabio Kanczuk, apresentou o relatório de Inflação com previsão de IPCA de 8,35% ao final do ano, sem considerar os impactos da crise energética do Brasil e da China.

Ou seja, estamos num mar de incertezas! Hora de pegar a bússola trazida por Marco Polo e usá-la, conforme a velha tradição chinesa, como instrumento de orientação e tomada de decisões em meio a esse cenário.

Luiz Carlos Lima é engenheiro eletricista, especialista em Gestão e Comercialização de Energia Elétrica

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