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A Petrobras e a Bahia

Publicado quinta-feira, 27 de setembro de 2018 às 11:00 h | Atualizado em 27/09/2018, 11:01 | Autor: Conteúdo Publicitário | Foto: Divulgação
Nascida na Bahia, a empresa se desenvolveu e, por meio de investimentos estatais
Nascida na Bahia, a empresa se desenvolveu e, por meio de investimentos estatais -
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Uma das empresas de maior importância para a economia brasileira e baiana, a Petrobras passa por um processo de reestruturação de sua atuação. A estatal tem divulgado em seus planos estratégicos, vendas de ativos e uma política de ‘desinvestimentos’.

Para Ivo Saraiva, petroleiro e diretor de imprensa do Sindipetro Bahia, a Petrobras vem sendo privatizada aceleradamente. “Sem dúvida, resultado de interesses geopolíticos na mais importante, potencialmente falando, empresa de petróleo do mundo. A sociedade, ainda anestesiada pela ‘novelização’ da política, assiste à entrega do patrimônio nacional aos estrangeiros”, ressaltou.

O cenário de privatização, instalado fortemente desde o ano de 2016, têm gerado influências diretas em todas as áreas onde a estatal atua, principalmente naquelas consideradas estratégicas, como é o caso das atividades na Bahia.

Desenvolvimento local

Nascida na Bahia, onde foi descoberto o primeiro campo de petróleo do Brasil, a empresa se desenvolveu e, por meio de investimentos estatais, ergueu toda a cadeia produtiva do setor petróleo. Atualmente, opera em todas as áreas de negócio no estado, tendo como operações a exploração e produção, o refino, o transporte, a distribuição, as atividades termelétricas, de biocombustíveis e fertilizantes.

A Bahia conta com quase 90 campos, produzindo, no total, mais de 30 mil barris de petróleo por dia. Na produção de gás, destaca-se o campo de Manati, onde a plataforma marítima extrai 5 milhões de m³ por dia.

Na atividade do refino, a Petrobras atua com a Refinaria Landulpho Alves (RLAM), em Mataripe, a segunda maior do país, composta por 26 unidades de processo e capacidade para refinar 323.000 barris de petróleo por dia.

Quanto aos terminais para movimentação e transporte de petróleo e seus derivados, existem quatro em atividade na Bahia. São os terminais de Madre de Deus, Candeias, Jequié e Itabuna. Há também o TRBA, Terminal de Regaseificação, situado na Baía de Todos os Santos. A BR Distribuidora, por sua vez, distribui e comercializa os produtos.

Na geração de energia, são cinco termelétricas: Rômulo Almeida, Bahia I, Muricy e Arembepe, todas em Camaçari, e a Celso Furtado, em São Francisco do Conde.

A produção de fertilizantes conta, no Polo Petroquímico de Camaçari, com a FAFEN (Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados), produtora de amônia, ureia fertilizante, ureia pecuária, ureia industrial, ácido nítrico, hidrogênio, gás carbônico e Agente Redutor Líquido Automotivo (Arla 32). Não para por aí. Localizada em Candeias, a usina de Biocombustíveis, que responde por mais de 200 milhões de litros de biodiesel ao ano, detém 50% da BioÓleo, responsável por processar 130 mil toneladas ao ano de grãos de oleaginosas, oriundas da agricultura familiar.

Segundo Radiovaldo Costa, petroleiro e diretor licenciado do Sindipetro Bahia, a atuação como empresa integrada, realidade da estatal na Bahia, faz com que a companhia consiga absorver os ciclos de variação do setor de petróleo, historicamente volátil. “Além disso, possibilita maior flexibilidade para gerir o negócio, com matriz produtiva diversificada. A economia de escala, com incorporação de custos e integralização de cadeias produtivas, é outra vantagem dessa concepção de empresa integrada”, afirma.

Política de ‘desinvestimentos’ na Bahia

Exploração e Produção (E&P)

Após ter congelado os investimentos e anunciado a venda de uma série de ativos no estado da Bahia, já há a sinalização da companhia em desfazer sua atuação nos chamados campos maduros. Há quem defenda que tais vendas poderiam levar à substituição da Petrobras por empresas privadas e, com isso, novos investimentos seriam feitos no setor. Mas para Radiovaldo, este pensamento, no entanto, não se confirma na prática. “Desde o início dos anos 2000, por meio de leilões dos campos, várias empresas adquiriram blocos para exploração e produção de petróleo na Bahia, tais como Starfish Oil & Gas, Queiroz Galvão, Samson Investment Company, PetroRecôncavo, W. Washington, Synergy Group, RAL Engenharia e Brazalta Resources. Algumas destas empresas já possuem a concessão há mais de dez anos, no entanto, é a Petrobras que continua na posição de principal produtora e essas outras não têm assumido o espaço deixado pela estatal”, analisa.

Radiovaldo ainda reflete que, ao analisar o caso da produção de petróleo na Bahia, percebe-se que toda sustentação aconteceu, de fato, em decorrência dos programas desenvolvidos pela Petrobras e não pela iniciativa de empresas privadas. “Um exemplo disso foi o Recage (Revitalização de Campos com Alto Grau de Exploração - 2003), que teve o intuito de barrar o declínio dos campos maduros e recuperá-los.

Na área de exploração, infelizmente a atual política entreguista vem se concretizando. As plataformas P-59 e P-60, construídas no estaleiro de São Roque do Paraguaçu, gerando à época 2 mil empregos diretos, foram vendidas esse ano por apenas 10% do valor de construção”.

Refino

A atual política da empresa atrela os preços dos derivados, como diesel, gasolina e gás de cozinha, ao mercado externo. Se sobe o preço internacional do barril de petróleo ou o dólar, os derivados no Brasil aumentam, mesmo que os custos de produção da Petrobras permaneçam os mesmos. Para Ivo Saraiva, esse foi um passo estratégico para a privatização. “Esse movimento favoreceu com que importadores entrassem no mercado brasileiro, forçando a estatal a reduzir em cerca de 30% sua participação. Hoje, 80% do diesel importado vêm dos Estados Unidos.

Saraiva afirma ainda que, após estabelecida essa política favorável ao mercado, o governo atraiu interessados para a entrega do refino da Petrobras. “Em maio desse ano, foi anunciada a venda da RLAM e de outras 3 refinarias. Quem está pagando a conta desse processo de privatização é o povo brasileiro”.

Fertilizantes

Anunciado para 31 de outubro próximo, o fechamento da FAFEN deveria ser tratado como assunto de segurança nacional. “Os fertilizantes são essenciais para a produção agropecuária, abrir mão da produção brasileira desses insumos significa deixar com os estrangeiros nossa capacidade de produzir alimentos, seja para consumo interno ou para exportação. Como fica nossa soberania alimentar?”, alertou Saraiva.

Para Radiovaldo Costa, petroleiro há mais de 30 anos, “o fechamento seria catastrófico se, numa disputa internacional, os países produtores viessem a extrapolar os preços, ou mesmo cortar o fornecimento de fertilizantes para o Brasil. Isso colocaria o país em uma situação de imensa vulnerabilidade”, elenca.

Segundo levantamento de dados, no estado da Bahia, o encerramento da fábrica compromete também o funcionamento de grande parte das empresas de Camaçari, já que a FAFEN é a primeira indústria do polo e fornecedora de matérias primas básicas do complexo petroquímico.

Transporte

Terminais também estão no pacote de desinvestimentos, devendo ser privatizados juntamente com os ativos produtores. O estratégico TRBA, por exemplo, que responde por cerca de 20% da oferta nacional de gás – desconsiderando o volume importado da Bolívia –, já está sendo negociado. A venda do TRBA pode significar a transferência da distribuição do gás para empresas estrangeiras, reduzindo o controle nacional de atendimento à demanda interna.

Usinas

Termelétricas e de biocombustíveis devem passar para o controle privado, ou até mesmo ser fechadas, comprometendo a segurança energética e a agricultura familiar.

A atual conjuntura sinaliza para a saída da Petrobras do estado da Bahia. “Nós, petroleiros e petroleiras, seguiremos atuando intensamente na defesa dessa grande empresa nacional. Atos, mobilizações e greves continuarão a ser feitos para barrar a entrega das riquezas do nosso povo. Ações jurídicas e articulações políticas também seguem sendo realizadas. Acreditamos que sociedade baiana deve se manifestar e exigir que esse assunto seja colocado no centro do debate, para que nas eleições tenhamos clareza do projeto de nação que nós queremos”, enfatiza Radiovaldo.

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