Flexibilizações sanitárias preocupam os especialistas

Ações como a desobrigação do uso das máscaras aliadas à estagnação da vacinação preocupam médicos

Publicado sábado, 19 de março de 2022 às 07:00 h | Atualizado em 18/03/2022, 23:05 | Autor: Jade Santana
A Deltacron, versão híbrida das variantes Delta e Ômicron, ainda não foi confirmada no Brasil
A Deltacron, versão híbrida das variantes Delta e Ômicron, ainda não foi confirmada no Brasil -

Enquanto cidades baianas iniciam a flexibilização do uso de máscara em seus territórios, a Deltacron, versão híbrida das variantes Delta e Ômicron, ainda não foi confirmada no Brasil, mas está associada a um aumento de novos casos de Covid-19 na Europa. No país, por enquanto, a variante Ômicron (BA.1) do novo coronavírus é predominante em quase 100% das amostras do vírus sequenciados.

De acordo com Tiago Gräf, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a recombinação da variante, apesar de ser evento raro, já era esperada para acontecer com o SARS-CoV-2. "Se observou alguns eventos de mistura entre as variantes Delta e Ômicron, mas epidemiologicamente ela não tem sido muito relevante, já que não infectou muitas pessoas mundialmente. Nesta semana, falou-se muito sobre dois possíveis casos da Deltacron no Brasil, porém nenhum caso ainda foi confirmado no país", explica.

O Ministério da Saúde anunciou na manhã da última terça-feira que o Brasil havia confirmado dois diagnósticos da nova variante. Horas depois, Marcelo Queiroga, gestor da pasta, recuou e afirmou que os casos estavam em investigação, com previsão de resultado para esta semana. Concluído na sexta-feira, o resultado obtido a partir de sequenciamento genômico realizado pela Fiocruz possibilitou que a pasta afirmasse que o possível caso de Deltacron em Santana, no Amapá é, na realidade, uma coinfecção das variantes Delta e Ômicron. Outra infecção em potencial, em Afuá, no Pará, continua em análise.

As flexibilizações sanitárias, como a desobrigação das máscaras e a estagnação da vacina, preocupam os especialistas da Fiocruz, que indicam cautela. Segundo os pesquisadores do Observatório, responsáveis pelo Boletim do Observatório Fiocruz Covid-19, é necessário ter prudência na adoção de qualquer medida de flexibilização, tanto pelo possível impacto do Carnaval e o potencial aumento de casos e internação, como pela "vacinação que avançou bastante, mas precisa ir além". 

“Flexibilizar medidas como o distanciamento físico ou o abandono do uso de máscaras de forma irrestrita colabora para um possível aumento de casos, internações e óbitos, e não nos protege de uma nova onda”, afirmam. O documento menciona que as próximas semanas serão cruciais para compreender como serão os novos cenários da Covid-19 em relação ao controle na dinâmica de transmissão.

Com o aumento da circulação da nova variante na Europa, a região registrou que em 14 dias a incidência de novos casos de covid-19 voltou a subir, após semanas de declínio, informou o Centro Europeu de Previsão e Controle de Doenças (ECDC). O aumento foi equivalente a 4,6% e a incidência atingiu os 1.565 casos por 100.000 habitantes, número que sobe para 9,1% nos idosos maiores de 65 anos. 14 países já registram uma tendência ascendente do número de casos. 

Enquanto isso, segundo levantamento da Rede Genômica Fiocruz, a Ômicron é identificada em quase 100% das amostras do vírus da Covid-19 sequenciados no Brasil. Este relatório cobre o período de 11 de fevereiro a 3 de março de 2022. Em fevereiro, a variante Ômicron correspondeu a cerca de 99,7% dos 2.971 genomas sequenciados e em janeiro, o número foi de 95,9%, segundo dados do estudo. Já em dezembro, a porcentagem era de 39,4%. Identificada pela primeira vez em fevereiro no Brasil, a incidência da BA.2, subvariante da Ômicron, ainda é baixa, equivalente a 0.4% dos casos registrados.

“Ainda não é possível verificar se há a tendência de novas características decorrentes da infecção pela Deltacron. Com a tendência de desobrigatoriedade do uso das máscaras no Brasil, pode ser mais comum que novas combinações ou variantes da doença apareçam. O abandono do uso das máscaras em lugares fechados vai facilitar a transmissão do vírus”. Segundo o especialista, quanto maior a circulação da variante, maior a possibilidade de mutação e fortalecimento dela. 

Sem máscara

Na Bahia, a gestão das cidades de Porto Seguro e Mata de São João, que já haviam flexibilizado o uso da máscara e voltado atrás ainda no fim de 2021, desobrigaram, mais uma vez, o uso da medida protetiva em locais abertos na semana passada. Sem decisão estadual, o governador do estado, Rui Costa, criticou a iniciativa das cidades, apesar de demonstrar estar aberto à possibilidade de retirada da obrigatoriedade do uso de máscara em locais abertos, ainda no início de abril. 

Costa pede cautela e considera esse período essencial para analisar o cenário epidemiológico no estado. "Estamos monitorando o número de casos ativos, acho que não tem que ter precipitação. A cautela para salvar vidas humanas é sempre o melhor caminho, sem afobação. Se os números continuarem caindo, tem toda probabilidade de tirar as máscaras em ambientes abertos", afirma.

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