'A poesia se manifesta em minha vida precisamente por recobrir a perspectiva existencial', diz Heloísa Prazeres

Publicado quarta-feira, 16 de junho de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 15/06/2021, 21:44 | Autor: Eugênio Afonso

Desde o último dia 4, a mais festejada casa literária do estado tem uma nova integrante. Eleita com 29 votos, a escritora Heloísa Prazeres, 74, agora passa a ocupar a cadeira de número 26 da Academia de Letras da Bahia (ALB), antes pertencente ao ex-governador Roberto Santos, morto em fevereiro deste ano. Desde então, Prazeres se tornou a mais nova imortal das letras baianas e vai tomar posse no próximo dia 29 de julho.

Com cinco livros publicados e tendo participado de algumas antologias, Heloísa, filha de Itabuna, é poeta, ensaísta e professora universitária aposentada. Desde muito cedo foi estimulada para a leitura pela própria família e, mais tarde, já em Salvador, cursou letras vernáculas com inglês na Universidade Federal da Bahia – Ufba.

Nos anos 1980, finalizou seus estudos acadêmicos com um doutorado em literatura, no estado de Ohio (EUA). Em 1985, já de volta ao Brasil, passou a ter participação intensa na vida acadêmica de Salvador, sem nunca abandonar o universo poético, até se aposentar em 2005.

Heloísa afirma que honra a atividade da escrita, sobretudo como poeta, e gosta de lembrar que, no seu trabalho, tenta traduzir a circunstância primordial de ausência, efemeridade e voragem que sobressalta o poeta.

Para a mais nova imortal da ALB, a linguagem poética ultrapassa a função comunicativa, transformando-se em objeto artístico mediante o desvio e a contaminação semântica, ou seja, poesia implica texto onde a linguagem é explorada em todas as suas dimensões.

Por e-mail, Heloísa conversou com o Caderno 2 + sobre a função dos membros da Academia de Letras da Bahia, literatura baiana, relevância do texto poético, influências literárias, esfacelamento da educação pública, hábito da leitura entre os mais jovens, importância da ALB para a cultura local, dentre outros temas.

Qual é exatamente a função social de um membro da Academia de Letras da Bahia?

A Academia é um centenário centro difusor de conhecimento; tem assim compromisso de preservação da memória cultural da cidade e das matrizes identitárias do estado. Ao assumir uma cadeira, o acadêmico toma a si a responsabilidade social de transmissão e incentivo a esse saber. Entendo que não há espaço para personalismo, prevalecerá sempre o espírito de trabalho.

Faz diferença mais uma voz feminina na ALB?

O recorte de gênero na discussão da cultura é importante; a presença feminina no meio cultural procede, quando sua voz já se faz ouvir, porque o trabalho autoral é uma realidade, mesmo que ainda em construção. Refiro-me à consecução da produção literária feminina, porque a casa acadêmica em si ainda é uma miragem, uma vez que fui eleita como membro de um corpo colegiado onde já encontro nove mulheres.

Como fazer para aproximar mais o público do universo da Academia?

Há um esforço consolidado de destacados acadêmicos, à frente de atividades culturais voltadas para o público, como o Curso Castro Alves, quase cinquentenário, palestras e simpósios. Mais recentemente, deu-se a criação de uma rede virtual de integração das academias de letras do estado.

Qual a importância da ALB para o desenvolvimento da cultura baiana?

A Academia é uma instituição cultural fundada a 7 de março de 1917. O seu objetivo é a preservação e o estímulo ao cultivo das letras e artes. Um exemplo do esforço coletivo pela dinamização e atualização da Casa, impactada pela pandemia do coronavírus, foram as ações imediatamente implementadas via recursos remotos. Assim, a vida acadêmica não sofreu, de fato, solução de continuidade. Eventos culturais, como seminários, cursos e reuniões do calendário regular, bem como a posse da nova presidência e a recepção a novos membros da ALB, recém-eleitos, nos últimos quase dois anos, prosseguem, a distância, por meio de aplicativos e canais digitais.

Que conselhos daria para alguém que sonha em ser integrante da ALB?

Importante manter hábitos regulares e intensos de leitura, praticar constantemente a escrita criativa. Além disso, mais do que gostar de escrever, é preciso dominar a língua portuguesa e ter um conhecimento vertical do mundo literário.

Fale um pouco sobre sua obra.

Ao ser eleita membro da Academia de Letras da Bahia, faço-o, sobretudo, como poeta, honro a atividade da escrita, sempre cultivada. Como sujeito de leitura e escrita, vinculada também à docência e à pesquisa em instituições de ensino superior, nunca abandonei a percepção poética, que vem da juventude. Destaco algumas metáforas dominantes que referem espaços de uma geografia de memórias e vivências na região sul da Bahia, na costa da mata atlântica, zona cacaueira, onde cresci, e onde permaneci até os 14 anos, na cidade de Itabuna. A poesia se manifesta em minha vida precisamente por recobrir a perspectiva existencial, a consciência da voz autoral feminina, a liberdade da arte, a virtude do silêncio, a rispidez da vida nas grandes cidades.

Qual o papel da poesia dentro do universo literário e por que consumimos tão pouco esse tipo de literatura?

O sentido da poesia na contemporaneidade é um campo de desafios. Seria talvez necessário reconhecer a leitura como formativa, universo que dá a conhecer a alteridade, os sentimentos e o entendimento de perspectivas temporais e filosóficas. A linguagem poética ultrapassa sua função comunicativa, é a arte da linguagem, transformando-se em objeto artístico, mediante o desvio e a contaminação semântica, ou seja, poesia implica texto onde a linguagem é explorada em todas as suas dimensões. Como disse o filósofo austríaco Wittgenstein, na poesia a linguagem “sai de férias”. Reconheço que há escassez de incentivo à leitura, há falta de vontade política. Observo que nos países em que se escolhe a leitura como fator de desenvolvimento, como meio civilizacional, a resposta é exitosa. Hoje, há a predominância da imagem sobre o texto. A leitura em geral toca a vida das crianças como uma obrigação e este fator determina o afastamento dos livros.

A senhora estudou em colégio público, mas eram outros tempos. Por que sucatearam tanto a educação pública de lá pra cá?

A educação hoje é elitista. A cidade de Salvador ocupa o terceiro lugar entre as metrópoles brasileiras, o que determina uma série de fatores que desafiam a qualidade e o compromisso com a formação regular dos estudantes de escolas públicas. Há pouco investimento em estruturas físicas; desvalorização dos educadores e servidores; carência de profissionais com formação; baixos salários; salas superlotadas. As consequências são devastadoras.

Em tempos de tanto avanço tecnológico e de tão pouca capacidade de concentração em um único objeto, como despertar a curiosidade, sobretudo do jovem, para a leitura?

Hoje, há predominância da imagem e o incentivo à leitura tem lugar, mais das vezes na escola, apenas minoritariamente em casa. Imagino também que as famílias podem ser não leitoras. Já foi o contrário. As bibliotecas familiares eram comuns e o hábito de ler era valorizado e incentivado. Tive sorte de nunca faltarem livros em casa e de haver sido estimulada a visitas às bibliotecas públicas. O estímulo à leitura é fundamental à ampliação da visão de mundo do leitor precoce. Ao menos experimentei esta prática, e tive a oportunidade de replicá-la em ambientes educacionais, bem como em casa, com filhos e netos – naturalmente confrontando a dispersão, provocada pela vitória da globalização e respectiva democratização do mundo digital.

Quais suas influências literárias?

A literatura modela nossa humana capacidade de ampliação de consciência crítica, desvelo pelo conhecimento, compreensão da alteridade, desafios e complexidades do homem, bem assim a captação dos estados de estesia. Todo escritor possui sua família de escritores. Destaco alguns nomes, sempre em dívida com outros: Virgílio, Horácio, Camões, Shakespeare, Antero de Quental, Castro Alves, Baudelaire, Cesário Verde, Fernando Pessoa, Cecilia Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Fiama Hasse Pais Brandão, Federico García Lorca, Borges, Stafford, Wislawa Szymborska, Konstantínos Kaváfis.

A gente pode dizer que existe uma literatura baiana?

A literatura baiana produz grande impacto nas letras nacionais. Cito Gregório de Mattos, Castro Alves, Jorge Amado, Adonias Filho, João Ubaldo Ribeiro, Antônio Torres. Na prosa e na poesia há criadores reconhecidos, poetas e narradores aclamados, Ruy Espinheira Filho, Florisvaldo Mattos, Cyro de Mattos, Myriam Fraga. A literatura baiana detém “grande variedade de estilos e maneiras: a literatura do sertão, a praieira e a que aborda temas universais” ? comentário da saudosa poeta Myriam Fraga. Concluo observando que a literatura baiana é estudada com absoluta seriedade nas universidades e é objeto de teses e estudos críticos.

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