A Trança, livro de Laetitia Colombani, retrata a luta de três mulheres com destinos enlaçados

Publicado segunda-feira, 22 de março de 2021 às 12:22 h | Atualizado em 22/03/2021, 12:38 | Autor: Eduarda Uzêda

"Assado, não é ruim. Parece com frango, dizem alguns. É o frango do pobre, dos dalits. A única carne a que eles têm direito. Nagarajan conta que seu pai comia ratos inteiros, com pele e pelos, só deixando o rabo, indigesto. Espetava o bicho em um pedaço de pau e o punha para assar sobre o fogo antes de devorá-lo todo".

(....) Smita, por sua vez, prefere tirar a pele. À noite, eles comem os ratos do dia, com arroz, cuja água do cozimento Smita guarda e serve como molho. Há também, vez ou outra, as sobras cedidas pelas famílias de que esvazia as latrinas, que ela traz e divide com os vizinhos"

Estes trechos da obra A Trança, da cineasta, roteirista e atriz francesa, Laetitia Colombani fala do cotidiano de Smita uma dalit, membro da casta mais baixa da sociedade indiana, que vive em condições desumanas. Ela é uma das três mulheres protagonistas do livro que contabiliza mais de 1,4 milhão de exemplares vendidos somente na França. No Brasil, a publicação tem selo da Intrínseca, em edição de luxo, com capa dura.

A trajetória das três mulheres que vivem em continentes diferentes, com variadas culturas são trançadas de maneira surpreendente. No caso da dalit Smita, ela luta para que sua filha,a pequena Lalita vá para a escola e tenha uma educação formal , o que negado aos dalits para escapar da existência miserável que lhe é imposta. E que existência!"

"Não há palavra que descreva o que Samita faz. Ela cata a merda dos outros com as mãos nuas, o dia inteiro. (...) Samita entra na porta dos fundos reservada a ela que não deve cruzar com os moradores muito menos falar com eles. Não basta ela ser intocável, deve ser invisível. ( Infelizmente em muitas aldeias indianas não há saneamento básico. De acordo com a Folha de São Paulo, em 2014, a Índia registrava 1,3 milhão de catadores de excrementos, os dalits , que são estigmatizados).

Imagem ilustrativa da imagem A Trança, livro de Laetitia Colombani, retrata a luta de três mulheres com destinos enlaçados
Laetitia Colombani é escritora, cineasta e atriz | Foto: Celine Nieszawer

As Moiras

Mas a vida desta mulher está entrelaçada com a existência de outras duas. Não é à toa que no prólogo do livro uma que saberemos depois quem é, enquanto, trança fios em um tear conta esta história. Vale lembrar quer eram as três moiras na mitologia grega ou as parcas na mitologia romana as fiandeiras responsáveis por fabricar, tecer, unir e cortar aquilo que seria o fio da vida de todas as pessoas. E a existência delas acabam se conectando.

Vamos por partes. A segunda protagonista é a siciliana Giulia que trabalha com o pai em um ateliê de perucas que a família mantém a gerações. O pai é apaixonado por este serviço. "Giulia fica horas e horas o observando o pai, atenta ao menor de seus gestos. Ele vigia os cabelos como a mamma vigia a pasta. Mexe-os com uma colher de pau, deixa-os repousar um tempo, e retoma, incansavelmente.

"Há paciência, rigor, amor também, no cuidado que ele tem por eles. Costuma dizer que esses cabelos

um dia serão usados por alguém, e merecem, portanto, todo o respeito. Giulia, às vezes, se pega imaginando as mulheres a quem se destinam essas perucas — os homens aqui não são propensos a usar aplique, são muito orgulhosos, muito apegados a uma certa ideia de virilidade".

Acontece que o pai sofre um acidente e ela terá que assumir o controle do ateliê de perucas Lanfredi. Só que Giulia acaba descobrindo que eles estão em falência. O que fazer para salvar os negócios, garantir o emprego das operárias e ainda por cima vencer a resistência da família que quer vender a oficina de confecção de cabelos?

O único caminho de Giulia para reverter a situação envolve riscos ainda maiores de perder dinheiro. Ela entretanto conta com o apoio do namorado indiano. Tal como a determinada Samita, Giulia também está disposta a mudar a realidade imposta.

Workaholic

A terceira protagonista e a canadense Sarah que é uma advogada renomada de uma grande empresa, a típica workaholic, que só se preocupa com a carreira profissional .Prestes a ser promovida, ela descobre que está gravemente doente. Excelente profissional ela então se dar conta que doença é sinônimo de carta fora do baralho.

Fragilizada , ela começa a ser "poupada", alias uma ótima desculpa quando se quer descartar uma pessoa de uma atividade a favor de outro ou praticar a exclusão, vestindo a máscara de bondade. " Não queria te incomodar" , " Você precisa descansar" ou 'Você tem tanta coisa pra pensar", é o que Sarah mais ouve.

Como boa advogada, Sarah sabe que este "zelo" tem nome: discriminação. E que a doença, a idade mais avançada, a gravidez, a orientação sexual , a ideologia política, a posição religiosa ou o simples fato de ser mulher podem gerar o isolamento, o escanteio pra longe. Resta saber se ela está disposta a enfrentar está causa na Justiça .

A Trança não é uma obra prima, mas é um livro que faz refletir o quanto é difícil a condição de ser mulher em um mundo ainda dominado por atitudes machistas. Por outro lado sinaliza que enfrentar as dificuldades pode ser um bom caminho para fazer a diferença. As três histórias têm em comum um elemento simbólico de libertação feminina: os cabelos.

De positivo sinalizo ainda as páginas em branco que a Intrínseca adota nas publicações que dá um "respiro" ao leitor durante à fruição da obra. De negativo aponto o final da narrativa sobre Smita. A melhor história não tem um final à altura. Fica a desejar na minha opinião.

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