Beatle George Harrison ainda é exemplo de artista no modo de lidar com a fama

Publicado domingo, 05 de dezembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 04/12/2021, 19:12 | Autor: João Paulo Barreto | Especial para A TARDE

"Alguém disse que você pode ter tudo o quiser vivendo o tempo de cinco vidas. Ou você pode ter apenas uma, mas realmente intensa. Ele diria: 'dê-me somente uma. Eu não vou voltar para cá'". Foi assim que Olívia Harrison, viúva do quieto George, definiu a ligação de seu marido com o mundo material  no qual viveu por, realmente intensos, 58 anos, até ser derrotado pelo câncer há pouco mais de vinte anos, em novembro de 2001.

As aspas acima foram proferidas por Olívia em entrevista ao cineasta Martin Scorsese, que, em 2011, lançou o documentário Living in the Material World, tratado de mais de três horas sobre a vida do guitarrista de Liverpool que preferia ser reconhecido como o grande jardineiro que se considerava, mas que formou nos anos 80, ao lado de Bob Dylan, Roy Orbison, Jeff Lynne e Tom Petty, a banda Traveling Wilburys. Além disso, hipotecou a própria casa para financiar um filme do Monty Python, pois leu o roteiro e teve vontade de assistir àquele filme.

Tal impulso foi algo que o ator e humorista Eric Idle, membro do grupo cômico e amigo de George, definiu como "o mais caro que alguém já pagou por um ingresso de cinema". Harrison, também, se aprofundou por um tempo por esse aspecto da indústria cultural e produziu diversas outras obras de cinema. 

Amante do automobilismo, na sua breve vida, George frequentou vários  Grandes Prêmios de Fórmula 1, incluindo o do Brasil, cultivando amizades longevas com alguns pilotos, dentre eles o brasileiro Emerson Fittipaldi. Com outros amigos, foi precursor na realização de um show beneficente, tendo como foco daquele encontro histórico no Madison Square Garden, em agosto de 1971, para angariar fundos para ajudar as vitimas da tragédia genocida oriunda da guerra em Bangladesh.  

Mas não somente isso: também  se dedicou com afinco à meditação e ao estudo Hare Krishna, criando uma prolífica parceria musical com o músico Ravi Shankar, e passando a direcionar a própria existência  a um aspecto mais espiritual que material, algo que já havia iniciado ainda nos anos 1960.

Ah, sim, claro. Falando na década de 1960, neste período ele também fez parte de uma banda chamada The Beatles. 

Vazão ao talento

Sobre a banda, George foi bem enfático ao dizer que nunca mais gostaria de ser famoso como se tornou na sua fase ainda com o grupo formado na companhia dos amigos de adolescência. "Eles (o público) deram dinheiro e gritos. Mas os Beatles deram seu sistema nervoso. O mundo nos usou como desculpa para enlouquecer", disse em entrevista durante os anos 1990. Em sua fase nos FabFour, George trouxe composições chave para a História da Música no século XX. Canções como Something, Here Comes the Sun e I Me Mine não requerem apresentações. Mas com eles, apesar de representar um dos alicerces no ritmo e no talento necessários para aquele sucesso avassalador, viu suas composições  represadas quando poucos dos seus trabalhos eram, realmente, aproveitados. Ter um selo como Lennon & McCartney como a outra parte daquela balança fazia a diferença, claro.

All things must pass

Ao seguir sozinho após a separação da banda, lançou de cara um álbum triplo, All Things Must Pass, no qual algumas músicas chegaram a ser gravadas em versões demo pelos Beatles, mas não seguiram em frente. A quantidade imensa de excelentes canções como a própria faixa título, de onde a chamada deste texto se origina, denota exatamente esse talento represado ao qual, finalmente, pôde dar vazão.

Tal obra completou 50 anos em 2020 e ganhou uma edição especial remasterizada em versões tanto em CD, vinil e blu-ray, acompanhando livretos com imagens inéditas, faixas bônus inéditas e todos os mimos que fazem a alegria dos fãs colecionadores. Porém, o mais impressionante lançamento comemorativo ficou para esse ano e trata-se do que foi batizado de Uber Deluxe Edition. 

Lançada neste último mês de novembro, contém oito LPs e cinco CDs remasterizados acondicionados em uma bela caixa de madeira talhada em design que homenageia o amor de George pela jardinagem, bem como acompanha livros especiais acerca dessa paixão; estatuetas de George e dos gnomos que aparecem na capa do disco, bem como diversos outros itens. Pode ser adquirido pela bagatela de mil dólares. Suspiro...

Influências na Bahia

Guitarristas de duas das principais bandas cover dos Beatles no Brasil, respectivamente e Beatles in Senna e a Cavern Beatles, Oyama Bittencourt e Eric Assmar possuem uma ligação forte com a música de George Harrison e com a influência trazida por ele no instrumento.

Sobre essa inovação no instrumento, Eric relembra que a mesma se iniciou logo nos primeiros discos dos Beatles. "Em A Hard Day's Night, George veio com a guitarra de 12 cordas, um recurso cujo pioneirismo na música pop também é atribuído a esse disco, em especial, e aos Beatles de um modo geral. Muitos riffs e melodias que se tornaram clássicas da música pop surgiram através de George, com o uso da guitarra de 12 cordas. Um pouco mais à frente, veio o uso das distorções, do fuzz, dos efeitos na guitarra já a partir do disco Revolver para a frente", explica o músico. 

Oyama pontua o legado de George na criação desses rifs, além de sua postura espiritualizada e atrelada ao seu trabalho como compositor. "Criador, inventor de riffs, praticamente o alicerce do rock and roll, como o de Day Tripper, e outros riffs muito importantes que não existiam e que ele criou. Fora isso, aliar o tema espiritual a canções pop. Seu legado é esse. Passar um pouco do tema espiritual para uma maioria dos fãs", diz Oyama. 

Eric ainda pontua o modo respeitoso como George buscou conhecer a música indiana. "Ele possibilitou que os elementos dessa cultura e dessa música, da cítara, da tabla, por exemplo, viessem a conhecimento de um grande público por conta da sua enorme popularidade. Esses elementos dentro da música do Beatles faz com que os olhos do mundo se voltem para a existência dessas culturas. E isso de uma maneira respeitosa para com os protagonistas e povos nativos dessa cultura. Ele sempre se conectou e fez referências muito respeitosas a essa origem. Isso perdurou por décadas. Foi até o fim da vida", finaliza.  

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