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Caymmi: Contemplação e amizade como formas de existência

Publicado quarta-feira, 30 de abril de 2014 às 13:44 h | Atualizado em 30/04/2014, 13:44 | Autor: Marcos Dias
Dorival Caymmi e Vinícius de Morais
Dorival Caymmi e Vinícius de Morais -
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Contemplativo, calmo, muito paciente e muito observador. É essa a visão que Danilo Caymmi tem do pai. Um homem culto, que gostava de ler Manoel Bandeira, tinha Cervantes como autor de cabeceira e filosofava com o  Cândido, de Voltaire.

O acesso a todas as formas de artes foi um traço da educação que Dorival e Stella deram aos filhos. Com o pai, Danilo ia assistir a filmes de arte, exposições e frequentavam a casa de amigos artistas visuais  como Rebolo, Clovis Graciano e Portinari.

Tom Jobim, que  considerava Caymmi um "gênio universal", também compartilhou sua amizade e gravou dele Maricotinha e Milagre —uma das preferidas do autor. Gostavam de ir no Parque Lage, no Rio, onde sentavam na grama e falavam de tudo, inclusive problemas familiares. Numa época em que teve gota e não encontrava o remédio no Brasil, era Tom quem trazia dos EUA.

Para o crítico Tárik de Souza, Caymmi inaugura uma linhagem musical que influencia diretamente os filhos Dori, Danilo e Nana, além de João Gilberto e os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil — incluídas Maria Bethânia e Gal Costa.

"Mas ao longo de toda a MPB há devotos de seu estilo, como Edu Lobo, que tem uma obra praieira inspirada nele, incluindo Arrastão, Veleiros, Corrida de Jangada, e também Sérgio Ricardo (Barravento), Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli (A Morte de um Deus de Sal)".

Gênio silencioso

No Brasil, muitas intérpretes gravaram discos inteiros com obras de Caymmi, como Gal Costa, Jussara Silveira, Olivia Hime, a filha Nana e a baiana Rosa Passos, que considera que Caymmi está na vida dela "desde sempre". É que o pai da cantora e compositora também tocava ao violão as músicas de Caymmi para a mãe dela na gravidez. "Caymmi é um patrimônio universal da música brasileira, é um ícone e referência para todos nós, compositores", diz Rosa.

Para ela,  Caymmi é um "gênio silencioso com seu violão moreno com som de mar, que  tratou da Bahia de uma maneira elegante, sem ser uma coisa folclórica, mas universal".

"Como intérprete, sempre encontro uma coisa nova, uma surpresa naquela melodia, sempre tem um jeito diferente de dizer, e isso é genialidade da música dele, da assinatura dele. Único e singular", diz a cantora, reconhecida internacionalmente.

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Dinâmica

Em relação à obra do pai, Danilo (que resgatou recentemente uma música inédita de Dorival em parceria com Assis Chateaubriand) sente que ela vai se modificando: "Você vai compreendendo que ela tem uma dinâmica própria. Agora, por conta do centenário, estão sendo vistas novamente por outras angulações, e é muito bonito, mas acho que o ponto básico da obra dele é a simplicidade que permite esses vários pontos de vista. São músicas  atemporais".

Na última vez que Caymmi veio a Salvador, em 2006, para receber o Prêmio de Cultura Jorge Amado, Danilo o acompanhou.  "Mamãe não queria que ele saísse, pois estava muito debilitado, mas foi bom ter ido porque pelo menos ele sentiu o cheiro da terra dele. Ele sempre teve um amor muito grande pela terra dele. Eu, Dori e Nana  nascemos no Rio, mas a gente está  impregnado desse conteúdo baiano passado por ele e pela cidade. É como se a gente tivesse dendê no sangue".

A Bahia tem um jeito

Apesar da programação do centenário, não há como deixar de lastimar que Salvador não tenha um espaço dedicado à obra do artista. Para Tárik de Souza, "a Bahia deve a ele certamente uma parcela importante de sua imagem sedutora no resto do País e no planeta. Além do fato dele ter colocado o Estado em definitivo no mapa da MPB".

Se a Bahia, para Caymmi, "tem um jeito que nenhuma terra tem", o Estado às vezes faz crer que tem um jeito perverso de lidar com seu patrimônio cultural — ontem e hoje. 

Paulo Costa Lima, a propósito, que compôs Bahia Concerto, homenagem a Caymmi apresentada no ano passado na 20ª Bienal de Música Brasileira Contemporânea (RJ), e recebida com  entusiasmo, ainda não teve a peça apresentada na Bahia.

Em sua crônica do último domingo,  Caetano Veloso revelou: "João Gilberto me disse que eu olhasse sempre para Caymmi, que ele era o gênio da raça, uma lição permanente".

E Gilberto Gil canta numa música inédita do seu álbum mais recente, em que gravou duas músicas de Caymmi: "Foi Dorival Caymmi quem nos deu/ a noção da canção como um liceu/ A cada cem anos um verdadeiro mestre aparece entre nós".

Pela memória e grandeza de Caymmi, os artistas estão fazendo a parte deles.

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