"Meu grande prazer é reler as canções a meu modo, jogar luz sobre elas e oferecê-las", diz Mônica Salmaso

Publicado terça-feira, 30 de novembro de 2021 às 06:15 h | Atualizado em 29/11/2021, 23:30 | Autor: Eugênio Afonso

Mônica Salmaso está comemorando 50 anos de idade e mais de 25 de carreira. Considerada uma das mais importantes intérpretes da música popular brasileira da atualidade, em 2017 a cantora paulistana lançou Caipira, seu álbum mais recente. Como teve que interromper os shows em função da pandemia, Mônica então decidiu readequar o formato do projeto, migrar para o universo virtual e criar o Caipira Online.

No canal da artista, no YouTube, a cada semana, ela recebe um convidado e divide com o público um roteiro novo, sempre com inspiração no universo do disco. Na próxima sexta-feira, 3, às 21h, o convidado será o cantor, compositor e violonista mineiro Sérgio Santos, e no dia 10, o cantor, ator, compositor e pesquisador paulista Rolando Boldrin. Dois outros artistas – trio Conversa Ribeira e Paulo Freire – já passaram pelo programa e tudo pode ser conferido no YouTube.

Em março de 2020, em plena pandemia, a artista criou mais um projeto musical e virtual, o Ô de casas (que segue em curso). No programa, Mônica convida instrumentistas ou cantores para dividirem a tela com ela, sempre cada um em sua casa.

De lá pra cá, já foram produzidos 171 vídeos com alguns dos maiores nomes da música brasileira (de Chico Buarque a Guinga, passando por João Bosco e Dori Caymmi). O material pode ser conferido nas redes sociais da cantora.

E no último dia 21, a artista esteve em Salvador para um show intimista – voz e violão – na casa em que Vinicius de Moraes viveu (no bairro de Itapuã) com sua sétima mulher, a baiana Gesse Gessy, e que agora se transformou no Casa di Vina Boutique Hotel, um espaço criado também para preservar a memória do período em que o Poetinha viveu por aqui.

Com 12 discos e três DVDs no currículo, Mônica segue cantando o Brasil profundo e já gravou os mais valiosos mestres do cancioneiro nacional. Hoje, ela é considerada uma das mais importantes intérpretes do cantor e compositor carioca Chico Buarque de Holanda.

Mônica é dessas artistas que segue apostando no Brasil, até porque tem construído sua caminhada cantando as histórias do país que ama e lhe dá orgulho. Mas confessa que anda assustada já que, por muitas vezes, sobretudo a partir de 2018, chegou a não reconhecer o Brasil, e acredita que teremos muito trabalho pra tentar reverter a destruição que se deu por aqui em tantas áreas.

Por WhatsApp, a cantora conversou com o Caderno 2+ sobre carreira, música baiana, o Brasil atual, a vida na pandemia, influências musicais e novos projetos, entre outros temas.

Por que criar o projeto Caipira Online e qual o objetivo dele?

Estávamos com a turnê do disco, mas aí veio a pandemia e tivemos que adiar alguns shows. Em agosto desse ano, com medo de não conseguir realizar, tivemos a ideia de readequar os shows. Nos encontramos no estúdio, gravamos 32 músicas, dividimos em quatro conteúdos e a outra metade fiz à distância com convidados que têm a ver com a história desse trabalho.

E o seu último trabalho solo? Fale um pouco sobre ele.

Meu disco Caipira (2017) é uma leitura minha, muito livre, artisticamente aberta com um olhar sobre esses interiores. Estou falando dos interiores humanos brasileiros. Acho curioso isso, o Brasil é tão grande e com diferentes temperos, e a gente tem as mesmas características no sentido da fé, do humor, da resistência, da alegria, da resiliência. Tudo isso se encontra em todas as regiões do Brasil com acentos diferentes. É desse universo que eu falo.

O que quer o seu trabalho, a sua música?

Ele quer existir. Essa experiência da pandemia deixou muito claro o quanto é importante a arte. A gente teria enlouquecido se tivesse atravessado esse momento sem livro, música, filme, peças de teatro, dança, visitas a museu. Sem arte, a gente míngua e enlouquece. A arte, além de entreter, organiza a gente emocionalmente, nos dá identidade. Me dedico, através da música, a oferecer o meu melhor para dignificar a função do que a gente faz.

Como você classifica sua música e define sua carreira? Dá para fazer um balanço?

Tenho orgulho de, até hoje, ter feito a minha carreira de forma muito íntegra, muito certa das minhas escolhas, da forma como realizei cada projeto. Parando pra olhar pra trás, me dei conta do tamanho da minha trajetória, do tempo dela, das coisas que realizei. A gente não tem muito tempo de olhar para o que foi feito. A gente está ali viabilizando o trabalho daquele momento, daquela vez. E esse momento (da pandemia) me proporcionou uma oportunidade de olhar pra trás e entender que existe uma trajetória e tenho muito orgulho dela.

Como é sua relação com a nova geração de artistas da música no Brasil? Quem você admira?

Existe uma relação enorme de muitos bons músicos, cantores, compositores. É muito lindo ver, tem árvores e árvores brotando. Tenho o maior prazer de estar ao lado deles.

Quais suas influências musicais? Quem toca profundamente seu coração?

Muita gente toca o meu coração na música. Muitas dessas pessoas eu já cantei. Muito do que já gravei aprendi ouvindo meus heróis, os que compõem e os que cantaram e interpretaram essas músicas. São muitas influências.

Como tem sido esse vivenciar pandêmico e o que projeta com uma possível volta à “normalidade”?

Ainda é muito novo isso para mim. A gente está tateando essa volta. É muito emocionante olhar para o público, cantar vendo gente. Parece que a gente está recomeçando. Acho que a gente vai reaprender muitas coisas. Espero que tenhamos consciência de muitas outras. Que a gente saiba, no mínimo, sair desse momento agradecido à vida por ter resistido, sabendo que precisa cuidar do planeta e de como a gente vai lidar com essa desigualdade absurda que existe no Brasil. Que a gente transforme isso em força para mudar o que tem acontecido. Isso é absolutamente urgente.

Você concorda que o Brasil é um país de cantoras? Onde sua voz se situa nesse universo?

O Brasil já foi um país de cantoras porque agora as cantoras compõem, mas é um fenômeno o surgimento de importantes cantoras no Brasil. Eu sou mais uma e acho que sou uma das poucas que não compõem e nunca teve vontade de compor. O meu grande prazer é o de descobrir o que as pessoas fazem e ser um veículo. Reler as canções a meu modo, jogar luz sobre elas e oferecê-las.

Qual a sua relação com a música baiana? Tem alguma?

Não existe brasileiro que goste da música brasileira e não tenha relação com a música baiana. Impossível. São tantas coisas que saem da Bahia e chegam no Brasil inteiro. No Caipira mesmo, tem duas músicas do Roque Ferreira, que é um compositor gigante. Impossível não ser apaixonado pela música da Bahia.

Quais os próximos projetos? Tem show presencial vindo por aí?

No finalzinho do ano, a gente vai lançar, pela Biscoito Fino, nas plataformas digitais, um especial que fiz com André Mehmari (músico), durante a pandemia, em homenagem a Milton Nascimento. E aí, a gente vai ver, no ano que vem, para onde andar. Meu coração está cheio de vontade de fazer muitos shows.

Você é uma cantora essencialmente nacional. Ainda confia no Brasil?

O Brasil foi parar num lugar tão esquisito. Confesso a você que, por muitas vezes, eu cheguei a não reconhecer o Brasil a partir de 2018. Isso, para mim, é uma cacetada porque eu vivo de falar do Brasil. O que eu canto é o Brasil que acredito, que amo, que me orgulho. De repente, achei que ele não existia. Voltar para a música que faço e amo foi me puxando de volta. Acredito no país, mas acho que vamos ter muito trabalho pra tentar reverter a destruição que se deu no Brasil em tantas áreas. Eu tenho que acreditar que nós não somos poucos e os valores que fazem eu amar o Brasil estão aí.

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