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"A TV lhe dá a oportunidade de não fazer supermercado só"

Publicado domingo, 05 de julho de 2015 às 11:46 h | Atualizado em 21/01/2021, 00:00 | Autor: Isabel Ribeiro Estadão Conteúdo
Frank Menezes fala sobre a novela I Love Paraisópolis
Frank Menezes fala sobre a novela I Love Paraisópolis -
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Dia desses, durante um voo, uma passageira virou-se para Frank Menezes e disparou: "Menino, você é um ladrãozinho safado, né?" e caiu na gargalhada. Quem narra o fato é o próprio ator baiano, que tem roubado a cena (e a patroa Soraya, papel de Letícia Spiller) em I Love Paraisópolis. Na novela da TV Globo, ele é Júnior, um mordomo que, de tão amoral e abusado, chega a ser engraçado. "Ele é assim. É desta forma que o público o identifica e se diverte", comemora o intérprete. Aos 53 anos de idade, sendo 32 de carreira, ele já fez trabalhos marcantes na emissora, como Gabriela, em 2012; e O Astro, em 2011. Com humor no DNA, se diz privilegiado por ter nascido com jeito para a comédia. "É tão instintivo que nem sei explicar". Acompanhe a entrevista completa.

Por que alguém amoral como Júnior faz tanto sucesso?

Por causa da comédia. Quando um personagem é cômico e aceito, ele atinge o público no melhor do ser humano, que é o riso. Se você rir, automaticamente está gostando daquilo que lhe fez chegar a este estado. A afeição é imediata. Acho até que nós conseguimos encontrar, lá dentro da gente, desculpas para perdoar aquele que é vil quando o afeto vem do vínculo com o humor.

Em tempos de "patrulha" aos tipos homossexuais, você teve receio de fazer um mordomo gay?

Não, de jeito nenhum! O Júnior é tão rico e tão cheio de conflitos... Primeiro tem os furtos que ele faz, depois vêm as missões terríveis e engraçadíssimas que a Soraya lhe determina. Essa comicidade gera uma conivência com o público, até nas falcatruas dele (risos).

Qual a razão de ele se sujeitar aos desmandos da Soraya?

Acredito que ele a ama, ela é tudo que ele queria ser (risos)! Acho que ele a idolatra, mas não consegue parar de roubá-la. E Soraya sabe da fragilidade de caráter dele, mas eles têm uma relação de dependência.

Ao chamar pela empregada Melodia (Olívia Araújo), ele berra a palavra favelada. Dói gravar essas cenas?

Não, porque é texto feito para ser comédia e Júnior também vem de Paraisópolis. Ele é uma caricatura do sujeito preconceituoso. E uma caricatura é para ser cômica.

Falando em comédia, imagino que você se divirta com Zezeh Barbosa (a Dália, a quem o mordomo vende roupas caras da patroa)...

Ela é incrível! Acho que, se tivéssemos tempo, não gravaríamos nada, ficaríamos às gargalhadas. Às vezes, uma bobagem dispara o "risômetro", como a cena em que fui vender uma calça de Soraya e a disputamos até rasgá-la. O meu sapato derrapava no piso, então, quando Zezeh puxava a calça para ela, eu ia junto (risos).

Você é filho de mãe pianista, foi estudar desenho e acabou ator?

Vim de família de músicos eruditos, fui educado a frequentar museus, teatro, balé, música de câmara. Estudei Licenciatura em Educação Artística na Universidade Católica de Salvador porque amava desenhar, mas ali tive contato com o universo das artes cênicas e me apaixonei. Depois de formado, fui cursar Interpretação Teatral na Universidade Federal da Bahia. Nessa época, eu já integrava a Cia Baiana de Patifaria e estávamos fazendo um enorme sucesso no país com o espetáculo A Bofetada.

Seu currículo traz montagens de projeção nacional, como Quem matou Maria Helena? e Deus. Para um ator com essa bagagem teatral, o que significa fazer televisão?

Um sentimento de vitória misturado com alívio, de saber que meu lado histriônico pode ser admitido na linguagem televisiva. E tem a gratificante popularização do trabalho. A tevê lhe dá a oportunidade de não fazer supermercado sozinho (risos)! Em Salvador, onde eu moro, sou conhecido, então já sei qual o melhor horário de ir para a rua (risos)!

Você estreou na TV Globo há quase 21 anos, né?

Sim, no especial de fim de ano O Compadre de Ogum, da obra de Jorge Amado. Foi gravado na Bahia, em 1994, e como o diretor Roberto Talma tinha me visto em A Bofetada, me chamou para o teste. Foi ele o responsável pela minha trajetória na Globo. E também o diretor Mauro Mendonça Filho, que me convidou para a minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos, em 1998.

Ao ingressar na tevê, teve receio de ficar limitado às tramas regionais?

Nunca tive medo e acho que a tevê precisa de um leque de opções no elenco e o tem. A tevê necessita de "tipos" e isso não me incomoda. Acho que, nesse aspecto, dei muita sorte, pois já me deram personagens bem diferentes.

Qual deles te deu mais prazer?

Foi Samuel Wandernes, de A Pedra do Reino. O processo da montagem foi excitante, ficamos três meses no sertão buscando, com processos teatrais, descobrir aquele mundo mítico. Eu fazia um descendente de holandês, loiro de olhos azuis. Retocar sobrancelhas e bigode era uma tortura.

Gosta de assistir à televisão?

Gosto muito! Estou adorando assistir a I Love Paraisópolis . É muito bom acompanhar, não só meu desempenho, como o dos colegas para entender o que estamos construindo. Também acho Sete Vidas excelente, assim como Babilônia. E sou muito fã do Tá no Ar.

O que curte fazer quando não tem de gravar a novela?

Eu tento não ficar parado porque já sou preguiçoso, se deixar fico na cama estudando minhas cenas, que são muitas! Então, nas folgas, se estou no Rio de Janeiro, caminho na praia da Barra da Tijuca, ou procuro assistir aos amigos em cartaz com alguma peça.

Defina Frank Menezes despido de qualquer personagem...

Sou um privilegiado por ter nascido numa família que me educou com o intuito de ser feliz. Então, sou uma pessoa feliz por viver do trabalho que amo. Busco ser honesto sempre, íntegro, companheiro. Às vezes ranzinza, rabugento (risos), mas me divirto depois, afinal, por mais chato que eu seja, não perco meu humor.

Imagem ilustrativa da imagem "A TV lhe dá a oportunidade de não fazer supermercado só"

Frank Menezes em cena da novela I Love Paraisópolis (Foto: Zé Paulo Cardeal | TV Globo)

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