Minissérie de Peter Jackson traz revelações sobre os Beatles

Publicado sábado, 27 de novembro de 2021 às 06:06 h | Atualizado em 26/11/2021, 22:24 | Autor: João Paulo Barreto | Especial para A TARDE

"Eu estava no lugar certo, na hora certa". Com essa definição básica dada sempre por aquelas modestas pessoas detentoras do toque de Midas, o cineasta Peter Jackson classificou seu acesso às sessenta horas de filmagens e 130 horas de áudio inéditos das gravações do documentário Let it Be, dirigido em janeiro de 1969 (mas lançado em maio de 1970) por Michael Lindsay-Hogg e que, agora, deram origem à minissérie de oito horas de duração (dividida em três episódios), The Beatles - Get Back, dirigida por Jackson e disponível na plataforma de streaming Disney+.

"Eu estava em Londres, em busca de algumas imagens do Museu Imperial de Guerra e que iria usar no Eles Não Envelhecerão (documentário de Jackson sobre a Primeira Guerra Mudial e lançado em 2018). Na cidade, eu tive uma reunião com Jeff Jones e Jonathan Clyde (produtores da Apple Corps). Eles queriam conversar sobre A.R. (augmented reality ou realidade aumentada) e VR (realidade virtual). Eles deviam ter lido uma entrevista minha na qual eu falo que tenho interesse nesse campo. Então, queriam me consultar, pois estavam fazendo uma exposição dos Beatles", relembra Jackson acerca do encontro ainda em meados da década passada.

O que os executivos da Apple não esperavam era que, a partir daquele encontro, o cineasta lhe faria uma pergunta crucial. "Durante a reunião, eu não queria agir como um fã, mas uma coisa que eu sempre me perguntei nos últimos quarenta anos foi: o que teria acontecido com todas as imagens não utilizadas em Let it Be?"

Quando Peter Jackson precisa frisar que "não queria soar como um fã" diante de um pergunta acerca de algo tão importante como as imagens dos Beatles durante um dos seus derradeiros trabalhos juntos, bom, sabemos o peso disso. E sabemos, também, o que ter um fã da estatura do cineasta neozelandês à frente de qualquer projeto sobre os Beatles pode significar. "Eu conheci Paul McCartney há muito tempo, em uma premiere de As Duas Torres. Ele me disse que era um grande fã de O Senhor dos Anéis, e eu lhe perguntei sobre a história dos Beatles fazerem uma adaptação com Stanley Kubrick. Se aquilo era verdade mesmo. E era", relembra o cineasta.

Assim, observar aqueles caminhos se cruzando quase duas décadas depois daquele encontro, e com Jackson, agora, colocando a mão na massa ao mergulhar nas dezenas de horas de material inédito do Let it Be, torna tal simbolismo ainda mais especial.

Harmonia impera

A TARDE assistiu à minissérie de Peter Jackson e, nas imagens, uma prova de que o modo como o documentário Let it Be (1070), de Michael Lindsay-Hogg, preferiu seguir pelo notório caminho das pedras atravessado pela banda naquela fase final não foi o mais fiel possível ao que, na realidade, acontecia à época entre os quatro rapazes.

Curiosamente, o documentário Anthology, lançado em 1995, também preferiu seguir por esse viés áspero da fase final, não mostrando a face mais leve daqueles dias em janeiro de 1969, e tendo até mesmo George, Ringo e Paul, então com pouco mais de 50 anos de idade, corroborando a existência daqueles momentos espinhosos, mas, no entanto, não adentrando no ambiente menos tenso que também existiu ali.

Porém, claro que havia rusgas e brigas. Claro que havia um desgaste perceptível. Mas não era somente isso. Na minissérie, vemos um John leve, recebendo o carinho de sua amada Yoko enquanto dedilha acordes no ensaio. Vemos George batalhar ao piano a composição de Old Brown Shoe, enquanto Paul o estimula a continuar (o baixista chega a sentar-se à bateria para lhe dar um compasso). Macca, inclusive, tinha ganhado a reputação de se tornar um tanto mandão naquela fase, algo que ao vermos essas imagens, chegamos a uma conclusão inversa: de que Paul, na verdade, era bem encorajador.

Em outro momento, vemos Ringo (que sempre será Ringo, o amigo de todos) compartilhar uma goma de mascar com Yoko, que a divide em duas dando a outra metade a John, em uma metáfora visual perfeita de como os dois passaram a ser indissociáveis.

Apesar dos ânimos aflorados em alguns momentos, Peter Jackson frisa sua surpresa ao observar o comportamento de John Lennon nas filmagens. "Se você pensa na versão do John Lennon dos anos 1960, em A Hard Day's Night (1964), aqueles coletivas de imprensa, aquilo lhe dá um senso de quem é John Lennon. Nos anos 1970, você tem o John ativista, alguém meio com raiva, nervoso, Gimme Some Truth, aquela fase com Phil Spector. John como alguém de temperamento curto, acho que você podemos chamá-lo assim. Mas esse não é o John que você tem nas filmagens aqui. Não tem nada a ver com o John que aparece nas sessões. Ele é engraçado, relaxado, maravilhosamente paciente, realmente amigável e sem nunca levantar a voz. Nenhuma palavra nervosa vem de John. E isso eu nunca esperava. Ver que Paul está estressado machuca John. Isso você percebe nos closes no rosto de Lennon. Ele está dizendo: 'Jesus, preciso ajudar Paul.' Ele quer ajudar Paul, sabe? Seu tom de voz é baixo. Ele conversa com Paul de forma amável e paciente. E quando ele pode, ele é muito engraçado e brincalhão. Isso me surpreendeu. Eu estava esperando algo nervoso de John. Algo como as sessões do Imagine, aquele documentário. Aquilo não aparece em momento algum no nosso filme", afirma o cineasta.

Impressão errônea

Peter Jackson explica que, ao mergulhar no material bruto captado por Lindsay-Hogg, constatou que a reputação daquele período final dos Beatles não vinha de janeiro de 1969, quando as imagens do Let it Be foram captadas, mas, sim, de maio de 1970, quando, realmente, não representava a melhor fase dos quatro em termos de harmonia entre si.

"Ao assistir às imagens, eu ficava rindo. Eu não acreditava no que estava vendo. Paul compondo Get Back! Deus, era incrível. Passei 22 dias assistindo e era apenas metade do material. E, claro, coisas aconteciam. George decide sair em certo estágio, mas aquilo é algo que acontece. Não significa que eram os Beatles se separando. Era apenas algo que eles precisavam trabalhar. É apenas vida. Aquele era um projeto provavelmente ambicioso demais e as coisas poderiam desandar. E, sim, isso acontece. Eu fiquei pensando: 'Bom, isso é uma estranha distorção da memória e da História, porque a reputação ruim vem não daquele começo de 1969, mas de maio do ano seguinte”, salienta.

Ao exibir a minissérie a Paul e Ringo, Jackson ficou na expectativa e receber muitas notas. “Lembro que quando fiz O Senhor dos Anéis, a Warner me deu seis, sete páginas de notas (com mudanças). Aqui, ao invés disso, basicamente o que recebi foram versões de: ‘Foi muito estressante assistir. É algo muito cru. Meu Deus! Mas é uma história definitiva desse período, por isso não mude nada’”, relembra o diretor.

“Essa foi a primeira vez na minha vida que eu escutei um 'não mude nada'. E você precisa dar o crédito a Paul e Ringo por isso. Porque eles estão sendo muito corajosos em se expor com esse material cru. Eles nunca permitiram às pessoas verem os Beatles de modo tão honesto antes. Isso requer coragem”, finaliza Peter Jackson.

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