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Programas "noticiosos" expõem crianças a conteúdo inadequado

Publicado terça-feira, 02 de outubro de 2012 às 12:10 h | Atualizado em 02/10/2012, 12:11 | Autor: Henrique Mendes
Criança assistindo TV
Criança assistindo TV -
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Uma voz alta, potente e desesperada ecoa do televisor: "Tirem as crianças da sala agora". Para garantir que o pedido seja atendido, a frase é reiterada: "Tirem as crianças da sala, porque as imagens que vocês verão a seguir são chocantes".

Por meio desta voz "autorizada", eclodem nas telas de TV da Bahia uma sequência perversa: Ouvem-se gritos, desenrolam-se socos, presenciam-se mortes. Parte do público adulto assiste a tudo atônito, acreditando que a realidade das ruas deve ser encarada de frente. Já as crianças, que não saíram da sala, ficam marcadas por uma "verdade" que não deveria alcançá-las.

Por serem classificados como noticiosos, os programas populares da Bahia - que alguns chamariam de popularescos - não seguem a tradicional classificação indicativa dos produtos de entretenimento. Ainda assim, possuem concessão pública para transmissão de conteúdos informativos que possam ser vistos por toda a família.

O confronto com este parâmetro legal põe em cheque a legitimidade dos programas populares do Estado. Com três atrações policiais apenas no horário do almoço (Se Liga Bocão, na Record; Brasil Urgente, na Band; e Na Mira, na TV Aratu), a grade de programação da Bahia reitera questões de complexos debates: Quais são os constrangimentos causados pela violência e pela morte? Qual o poder e dever do jornalismo? Qual a real obrigação do Estado?

Riscos - "Tirem as crianças da sala". Os apresentadores pedem, os pais orientam, mas essa é uma tarefa difícil. Quem exemplifica isso é Karina Ribeiro, 33 anos, que mora no bairro do Jardim Cruzeiro, na Cidade Baixa.

A dona de casa, mesmo dando diversas orientações contrárias, já flagrou a filha de 12 anos assistindo a uma destas atrações. "Estes programas são exibidos em horários inadequados. Como costumam ser curiosas, as crianças estão totalmente vulneráveis aos conteúdos violentos que são apresentados", salienta.

A preocupação de Karina Ribeiro, compartilhada por vários pais de família, é considerada plausível pelo professor de psicologia jurídica da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Domingos Araújo. "A formação das cognições ocorre na faixa etária que vai até os 12 anos. Sendo expostas a estes conteúdos violentos, as crianças podem passar a considerar os hábitos veiculados como se fossem normais. Todos sabemos que a violência é real. É real, mas não é normal", justifica.

Segundo o psicólogo, a exposição de uma matéria violenta, do ponto de vista psicológico, induz que o telespectador busque mais produtos violentos. "A mídia deve estar atenta a um conteúdo que preze a educação pela educação", sugere.

Palpites - Para garantir o direito de "palpite" a todos os envolvidos no tema, a reportagem procurou a Record Bahia e a Band Bahia, por meio de emails e telefonemas. Até o fechamento desta matéria, entretanto, as emissoras não comentaram o assunto.

Vigilância - Segundo Davi Pires, diretor adjunto do Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação, que é um órgão do Ministério da Justiça, os programas noticiosos não são classificados por faixas etárias porque a Constituição Brasileira garante ampla liberdade de expressão para os órgãos de comunicação.

"Sabemos, até mais que cientificamente, que a realidade tem uma força maior de persuasão do que a ficção (que tem seus produtos classificados). O que tem ocorrido, pontualmente, é que os programas noticiosos - comuns não apenas na Bahia - têm sido procurados pelos Ministérios Público Federal ou Estadual quando cometem excessos", relata.

Por meio destes órgãos, os representantes dos programas assinam Termos de Ajustamento de Conduta (TAC), prevendo pagamento de multa ou retirada da atração do ar, caso os acordos não sejam cumpridos.

Jornalismo - Para a doutora em comunicação e professora da Faculdade de Comunicação da Ufba (Facom), Malu Fontes, é inegável que os programas populares da Bahia são exibidos em horário impróprio. "Transmitidas no horário do almoço, estas atrações alcançam um público jovem que não tem maturidade e repertório para lidar com o conteúdo mostrado: violência, morte, estupro", explica.

Para Malu, isto não é o mais grave. "O que mais me incomoda é a desculpa dos produtores destes programas. Eles dizem que quem deve fazer este controle (dos filhos) é a família. Que família é essa que pode estar em casa durante todo o dia, principalmente nos bairros mais pobres? Todo mundo precisa trabalhar. É um cinismo essa transferência de responsabilidade", argumenta.

Já para o doutor em comunicação e líder do Grupo de Pesquisa em Análise Crítica da Mídia e Produtos Midiáticos da Ufba, Edson Dalmonte, esses programas não possuem classificação por idade por serem tidos como jornalísticos, mas não exibem conteúdo jornalístico. "O jornalismo é pluralista. Não é monotemático. O que percebemos nestes programas são sempre as mesmas histórias [violentas], só que com novos personagens", salienta.

Assim como Malu, Dalmonte considera que a família - um instrumento de mediação entre as crianças e a TV - não está mais em casa para cumprir este papel. "A gente não pode falar de censura, mas esse é um debate que a sociedade tem que enfrentar", conclui.

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