CULTURA
João Carlos Martins vem a Salvador falar de superação
O paulista João Carlos Martins se diz um teimoso. Ele não encontra palavra melhor para resumir sua saga. Exímio pianista desde menino, Martins foi obrigado pelo destino a enfrentar uma gravíssima lesão nas mãos. Perdeu a guerra contra uma LER, mas não se rendeu.
Entre uma cirurgia e outra – foram nove, a mais recente no final do ano passado –, ele chegou a tocar piano com apenas uma das mãos. Para não fugir à exatidão da informação, com apenas três dedos. No dia em que nem isso era mais possível, João Carlos Martins teimou de novo: virou maestro.
Um resumo dessa história, que já conta uns 50 anos, que os convidados da Unimed conferem em uma palestra que o maestro ministra nesta terça(8) no Bahia Othon Palace Hotel. O tema é superação, mas bem que ele gostaria de reconceituar esta história: “Eu vou falar é sobre teimosia”, define, em entrevista por telefone.
O artista traz na bagagem uma outra forma de contar sua trajetória, um registro fonográfico inusitado. Trata-se do CD duplo "Páginas de uma História", recém-lançado pela gravadora paulista Flautim 55.
“A ideia era fazer só um, mas tem tanta história que o projeto teve de ser transformado em dois”, diz Martins. “O primeiro CD conta o nascimento e a morte de um pianista”, define, com humor mais que peculiar. “O segundo é o que chamo de 'A música venceu na minha vida'”. A direção artística é assinada por Ney Marque.
O inusitado da coletânea, que reúne 20 faixas, está no fato de que o maestro parece estar sentado ao lado do ouvinte, através de uma narração que localiza as obras em sua trajetória.
A viagem musical começa com uma relíquia, "Sonhos de Amor" ("Liszt"), da época em que João Carlos Martins estava com 10 anos de idade. “Só com um suporte eu era capaz de alcançar os pedais do piano. Começava o meu sonho”, registra o artista, lembrando que a gravação foi feita pelo próprio pai.
Sem essa dica, aliás, seria difícil suspeitar ali o dedilhar de uma criança. Sem falsa modéstia, o maestro explica: “O piano ou é fácil ou é impossível, nunca é difícil. Mas, mesmo que seja fácil, precisa da disciplina de um atleta. Eu estudava quatro horas por dia, todos os dias”.
“A mão de um pianista aos 10 anos já toca quase tudo. Aí começa o amadurecimento“, acrescenta Martins, que mais adiante surge na casa dos 19 anos, com Schubert ("Improviso Opus 90, nº 2"), numa gravação ao vivo de sua participação no concurso Eldorado, promovido pelo Estado de São Paulo.
O primeiro CD registra, ainda, obras de compositores como Vivaldi ("A Primavera"), Haydn ("Presto", "Sonata nº 3 em Mi Menor") e Scriabin ("Noturno Opus 9"). Bach, é claro, tem espaço privilegiado. "Cravo Bem Temperado" e "Largo" estão entre as obras pinçadas do repertório do compositor de cuja interpretação o artista brasileiro se tornou referência internacional.
Veja trecho de "Eu Sei Que Vou Te Amar", com João Carlos Martins
Memória
A referência a Bach continua no segundo disco de "Páginas de uma História", que conta a trajetória de João Carlos Martins a partir de 2003, quando se tornou maestro.
”Se eu tivesse tido maturidade, poderia ter começado uma carreira de regente aos 30 anos. Mas eu só vim ter maturidade aos 62“, brinca. ”Aos 63, os médicos falaram para mim ‘Olha, você nunca mais vai tocar piano, acabou!‘. Durante dois meses, eu andei pelas ruas de São Paulo, pensando ’O que eu vou fazer da vida?'“, recorda.
A resposta veio com a ajuda do travesseiro. ”Tive um sonho com o maestro Eleazar de Carvalho, que já tinha falecido. E ele dizia 'Vem estudar regência, João!'. No outro dia, 7 horas da manhã eu estava na porta de uma faculdade”, relata.
Datam dessa fase dois registros que revelam a afeição de João Carlos Martins por compositores populares que se tornaram clássicos. Tom Jobim é lembrado com "Luiza", e Astor Piazzolla com "Adiós Nonino".
O desafio de aprender a reger naquela idade trouxe outros a tiracolo. Como segurar uma batuta com firmeza sem ter qualquer flexibilidade nas articulações? “Eu corria o risco de furar o olho do spalla!”, diverte-se o maestro, que encontrou no movimento dos braços e na expressão dos olhos o canal de comunicação com os músicos.
E o que dizer das partituras, já que não seria possível virar as páginas? “Tive de memorizar tudo”, resume. Só para se ter uma ideia do que isso significa, basta dizer que, somente no ano passado, foram mais de dez mil páginas. Este ano, ele está chegando ao 120º concerto. “É bom que assim eu atraso o Alzheimer”, alfineta mais uma vez, aos risos.
Jogo do contente
Tanto humor tem sua razão de ser numa filosofia à la Pollyanna. “A pessoa tem de fazer o jogo do contente. Eu digo que a pior coisa que aconteceu na minha vida foi perder as mãos para o piano. E a melhor coisa que aconteceu na minha vida foi perder as mãos para o piano”.
Também serviu de remédio para o maestro a criação da Fundação Bachiana, instituição que mantém e para a qual direciona a maior parte dos cachês que recebe. Entre os corpos estáveis da casa, estão a Bachiana Filarmônica e também a Bachiana Filarmônica Jovem.
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