"Levamos a imagem de Salvador e da Bahia ao Brasil e ao mundo", diz Lelo Filho

Publicado quinta-feira, 02 de dezembro de 2021 às 05:53 h | Atualizado em 02/12/2021, 05:53 | Autor: Da Redação

Montagens integrantes da história da cultura da baiana que ocuparam o Brasil e o mundo, como 'Abafabanca', 'Noviças Rebeldes', 'A Bofetada' e outras correm o risco de terem um ponto final em suas vidas. Nesta terça-feira, 30, o ator e produtor Lelo Filho usou as redes sociais para anunciar o fim da Cia. Baiana de Patifaria após 35 anos de atividades.

O motivo é a falta de condições de manter vivo o grupo e o acervo cultural destas décadas. Sem condições de arcar com o aluguel do espaço onde itens estão mantidos, há o temor de que, assim como já aconteceu em outra ocasião, fantasias, recortes jornalisticos e objetos que deram vida cenários possam ser perdidos.

Em conversa com o Portal A TARDE momentos antes de reunião do grupo, Lelo contou que já chorou bastante com a decisão tomada. Ele pontuou que a pandemia foi crucial para expor a importância dada à cultura pelo país.

Uma das principais queixas do artista é a falta de patrocínio público. Mesmo com a notoriedade sólida, o grupo não foi aprovado nos editais que participou. Nadando na maré da explosão do conteúdo digital, houve uma tentativa de produzir um documentário com a história da Companhia, que rompeu as fronteiras e já levou a imagem da Bahia à Broadway, em Nova York, além de diversos outros estados brasileiros.

Ele ressalta que, em toda a história, o grupo usou verbas públicas em apenas cinco vezes. Em todas elas, os requisitos exigidos foram cumpridos. "Levamos a imagem de Salvador e da Bahia ao Brasil e ao mundo. Não fosse assim, haveria apenas a primeira, pois seríamos taxados de inadiplentes e ficariamos barrados".

Durante o anúncio do encerramento do grupo, Lelo pontuou que a Cia integra o grupo de companhias desassistidas pelos projetos de fomento à cultura. "Entraremos para a lista de companhias de teatro que não conseguiram passar em nenhum edital recente da Lei Aldir Blanc, nem pelo município e nem pelo estado", escreveu.

Lelo avalia o momento da arte em Salvador, a exemplo do fechamento de teatros na cidade, como o Acbeu, que foi demolido para dar lugar a um empreendimento de alto padrão no Corredor da Vitória. "O que fazer para que, a partir de hoje, nenhum teatro precise fechar as portas?", questiona ele, ao lembrar que, além do ator, há profissionais também na iluminação, áudio, bilheteria, além do pessoal da porta para fora do espaço, como vendedores de pipoca e baleiros.

Uma solução apresentada pelo produtor é o remanejamento de verbas que seriam utilizadas em festas que não aconteceram e teriam patrocínio público. Lelo ressalta que parlamentares locais e partidos decepcionaram no apoio e incentivo à arte.

No âmbito nacional, a situação é ainda mais crítica: "Temos um secretário da Cultura que não se importa com a cultura. Temos um presidente da Fundação Palmares que não se importa com negros. É o retrato do governo federal, que é contrário à cultura".

O artista explica que tentou manter o grupo com as 'próprias pernas'. Na pandemia, foram feitas apresentações que tiveram um número muito baixo de público. "Pensei que, então, o pessoal não quer mais assistir o que temos pra mostrar".

Sobre a verba recebida na Lei Aldir Blanc, Lelo explicou que, segundo o regulamento, só deveria ser usada para adaptação de espaços para apresentações digitais e pagamento de taxas, entre outras possibilidades insuficientes.

Ele foi questionado sobre o significado real da mensagem publicada nas redes sociais. Ele considerou esta como a 'pergunta de um milhão de reais' e afirmou que não conseguiria prever, mas que o esperado é que surja uma luz no fim do túnel. Um exemplo de 'respiro' é o apoio de empresa privada, a exemplo do que aconteceu na pandemia, quando um empresário baiano doou milhares de cestas básicas.

Lelo revelou que há uma peça escrita e guardada que tem esperança de um dia poder apresentar ao público.

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