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Robertinho de Recife: "Se entrar numa festa, vou ser o bolo"

Publicado terça-feira, 20 de janeiro de 2015 às 07:29 h | Atualizado em 19/01/2015, 19:54 | Autor: Chico Castro Jr
Robertinho Recife
Robertinho Recife -
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O guitarrista e produtor Robertinho de Recife tem mais vidas do que um gato. Na ativa desde os anos 1970, foi considerado virtuose já aos 12 anos.  Acompanhou cantores de sucesso da Jovem Guarda e viajou aos Estados Unidos ainda adolescente, apresentando-se com diversas bandas. Nos anos 1970, firmou parceria com Fagner e Zé Ramalho - e ainda hoje produz os discos de ambos.

Em paralelo, desenvolveu sua carreira solo, fazendo muito sucesso nos anos 1980 com hits como Baby-Doll de Nylon (parceria com Caetano Veloso) e O Elefante, com letra de Fausto Nilo e cantada pela sua então esposa, Emilinha. Pouco tempo depois, animado com a ascensão do hard rock nos Estados Unidos e a popularização do heavy metal no Brasil, lançou o álbum Robertinho de Recife & MetalMania (1985), álbum histórico do gênero.

Em 1988, fundou a banda Yahoo, que fazia versões de baladas do hard rock mais comercial, de bandas como Def Leppard e Aerosmith. Em 1990, radicalizou e lançou o álbum instrumental Rapsódia Rock. Desde então, retirou-se para os bastidores da indústria e produziu muitos artistas. Agora, 30 anos depois, retorna com a banda  MetalMania, com o álbum Back For More. Nesta entrevista, ele conta dos problemas de saúde que o fizeram querer retornar, da sua carreira, do seu estilo de tocar e do manguebeat.

Você  teve uma experiência de quase morte e quando voltou, resolveu reformar o MetalMania. Como foi isso?
Isso quem me falou foi o médico. Ele falou: 'Cara, pra mim você tá praticamente morto, seu coração tá todo entupido aí, completamente'. Achei que ia morrer, mesmo. Na cirurgia botei seis stents, um número meio exagerado. Daí eu fiquei na UTI, defronte uma porta e fiquei pensando: 'Se eu sair daqui por essa porta - se eu não for para o inferno (risos) - quero voltar a fazer show com o Metalmania. Porque eu comecei a compor as coisas que estão neste disco ali mesmo, na UTI. Tentei fazer esse disco como se fosse um filme da minha vida. Inclusive tem uma música chamada All That We Lived Together (Tudo o que vivemos juntos), que é cheia de partes e cada parte me lembra alguma coisa, é meio Van Halen. Eu curti muito o metal, não só tocando, mas admirando os caras.

Como fã?
Como fã. Acima de tudo, eu sou fã. As pessoas falavam 'ah, ele copia não sei quem'... Olha, eu não sou de copiar, tá? Mas eu vi Van Halen fazendo aquelas coisas, e eu: 'Pô, essa técnica aí  eu quero fazer também, mas só que eu vou fazer minha própria coisa'. Ele toca Eruption? Eu vou fazer minha Eruption, que é o Voo de Ícaro, usando a mesma técnica, mas contando a minha história. Isso você pode fazer. Aí eu torno aquilo pessoal. O meu metal é pessoal. Inclusive, no tempo que o MetalMania foi lançado (1985), o pessoal falava: 'Ah, é heavy metal'? Eu falava: 'Não, é heavy lata' (risos). Por que naquele tempo tinha baixado aquelas latas, sabe, umas latas cheias de maconha? Então, eu fazia heavy lata!  Porque é brasuca, tem humor também, é um barato. Inclusive eu vi uma coisa que um conterrâneo teu aí fez, eu gostei. É meu amigo... aquele que anda descalço, como é que chama?

Luis Caldas?
Isso! Eu vi e achei sensacional! Ele é um grande músico. Inclusive, a primeira vez que eu toquei no Carnaval da Bahia foi em cima do (trio elétrico) Trás-Os-Montes e eu toquei heavy metal. Eu toquei no Carnaval da Bahia o MetalMania (risos). Ele falou 'Você é louco, só você podia fazer uma coisa dessas, tocar metal no Carnaval!'. Eu tocava Iron Maiden, Ozzy (Osbourne), aí...  E foi uma coisa que a galera curtia muito, mas não entendia. 'Pô, esse cara não tá tocando frevo? Mas ele não é de Recife?'. Eu sempre tive esse conflito. Como você sabe, eu sou nordestino, com muito orgulho. E isso é muito visível. Está no meu nome, em tudo o que eu fiz, nas pessoas que eu acompanhei, Fagner, Zé Ramalho... O Zé Ramalho, aliás, é muito heavy metal.

Não à toa ele já fez parceria até com o Sepultura!
Exatamente! As músicas dele são heavy metal, cara! Os textos dele, é o mesmo texto do Iron Maiden, daqueles caras lá! Dessas bandas que tem um texto mais épico, entendeu? O Zé é muito visionário. Enfim, eu sou uma pessoa que fui muito questionada. 'Ah, esse cara não é aquele que fez Baby-doll de Nylon?' Sim, fiz, Baby-doll de Nylon, é uma música minha com letra do grande Caetano Veloso! Só tenho a me orgulhar!

E agora, volta com os shows?
Sim, pois é. Não posso ainda divulgar, mas vamos abrir o show de um monstro desses do rock. Um grande nome, está sendo discutido neste momento com os empresários na América. Já tivemos muitos problemas como banda de abertura, dividindo o show com essas bandas grandes. Porque eles tratam você como banda de abertura, você tem direito a pouca luz, não pode usar o equipamento todo... Graças a Deus, sempre fui autossuficiente nisso. E a gente fazia tanta palhaçada no palco, que mesmo que desligassem as luzes, eu tava tão brilhante - com as roupas tão brilhantes (risos) - que até no escuro eu aparecia! Você tem que ir preparado. O show começa, aí ali pelo meio já vem o empresário gritando: 'Baixa! Desliga as luzes que esses caras não podem tomar o show!' (risos).

Quando você pensou em remontar o Metal Mania não teve medo do pessoal considerar uma coisa meio ultrapassada, não? O metal mudou tanto...
Cara, em tudo que eu faço, eu tenho primeiro que agradar a mim. Se eu for agradar ao mercado, eu vou ter que fazer aquelas coisas... Yahoo. Não estou atrás de reconhecimento,  embora esteja sendo muito bem recebido. O disco foi lançado dia 16 (de dezembro) apenas para download. E quais são as estatísticas: no iTunes estávamos na 52ª posição no Top Downloads Brasil. E tudo foi assim, a gente começou a ensaiar porque eu ia fazer apenas um show, não ia gravar disco. Esse ensaio foi ouvido pelo diretor da Sony, porque eu tava produzindo Zé Ramalho. Ele ouviu e falou: 'Me dá uma cópia disso'. Levou e me ligou no dia seguinte: 'Velho, não paro de ouvir. Vamos lançar'. Aí eu: 'Cê tá louco, cara?' (risos).

É bastante incomum uma Sony lançar um material com esse perfil hoje em dia, não é?
Pois é, nem eu teria coragem de oferecer! Eu achei que ele tava querendo me agradar. O disco do Zé Ramalho e do Fagner tá vendendo pra caramba e eles estão felizes. Porra nenhuma! Três dias depois me chega um contrato pelo correio. Eu falei: 'Esse cara tá achando que eu vou morrer mesmo!  Então vamos lançar enquanto ele não morre'! Porque desde que me afastei da carreira solo, investi no anonimato. Eu não aparecia. Detesto ser pipoca de festa. Agora, se eu entrar numa festa, querido, eu vou ser o bolo! (Risos).

Algumas faixas têm um clima bem épico, grandiloquente mesmo, é como se você estivesse tentando tocar o céu.
Adorei isso, vou roubar essa coisa! (Risos) É, eu quero tocar o céu! Adorei isso! Porra, obrigado pela frase!  Mas foi tipo assim: se resta mesmo pouco tempo, eu tô cheio de stent, de parafuso no braço... Quando eu comecei os ensaios e comecei a me divertir muito de novo,  consegui fazer mesmo com todas as limitações, porque dói pra tocar! Eu quebrei o braço há dois anos, tenho 18 parafusos. Então, eu estar conseguindo fazer tudo isso! Eu: 'Cara, dá para se divertir. Uau'. Eu achei que nunca mais ia conseguir entrar no ringue, entendeu? É esse desafio que tá sendo bacana. Continuamos ensaiando, a gente pretende fazer um show muito bacana e levar para as pessoas. Olha aí, cara, essa é a oportunidade, porque eu também não pretendo ficar para sempre na estrada. Então, quem quiser ver o Robertinho, quando anunciar, vai ser tal dia, bicho, vá lá porque depois não vai ter de novo. 'Ah, depois eu vou, ele volta outro dia'. Não vai não, querido. Não vai.

O que achou de toda aquela cena manguebeat dos anos 90? Eles nunca te procuraram?
Eles me procuraram. Chico Science passou pela minha mão.  Teve um dia que eu cheguei na Sony e o Jorge Davidson era o diretor artístico. Ele chegou e me disse que tinha uma coisa para eu ouvir. Aí ele falou: 'Pô, eu tô entre você e o Liminha para produzir'. Eu falei: 'Cara, já ouvi, acho muito legal, agora, para o Chico, é melhor o Liminha produzir'. Por que? Eu já sou de Recife, vai ficar uma coisa muito.... Eu acho que eu ajudei o Chico nisso, entende?

Não sei se você sabe, mas essa produção do Liminha do primeiro disco do Chico foi muito criticada na época.
É, mas eu acho que Liminha deu um toque ali. Deu uma coisa bacana ali, peraí! Inclusive, ele tava produzindo todo o pessoal da época, o Rappa, o Planet Hemp, que tinha tudo a ver. Mas sabe qual foi meu problema? Eu estava produzindo a Angélica! (Risos). Eu falei: 'Não vou ter tempo de me dedicar. Quer saber de uma coisa? Deixa  o Liminha fazer'. Porque se eu entrasse, ia 'pernambucalizar' muito, entende? 

Traz esse show a Salvador?
Cara, eu vou aonde me chamarem. Eu adoro Salvador. Sou casado com uma baiana e sou fã  de Luis Caldas, Pepeu, Moraes, Armando (Macedo), a Thati, guitarrista que eu produzi. Adoro ela, adoro.

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