Falta de renda fixa exige uma organização financeira maior

Publicado segunda-feira, 22 de março de 2021 às 06:02 h | Atualizado em 21/03/2021, 16:06 | Autor: Luísa Carvalho*

Quando os ventos da economia não estão favoráveis, as expectativas de geração de emprego são turbulentas. Na sua última medição, realizada em dezembro, o índice de Medo do Desemprego (IMD), avaliado pela Conferência Nacional da Indústria (CNI), ficou em 57,1 pontos – número superior à média histórica de 50,2 pontos. Num contexto de crise financeira e grande receio de demissão, a saída encontrada por muitos tem sido trabalhar por conta própria. Em 2020, mais de dois milhões de profissionais se constituíram como Microempreendedor Individual (MEI), maior quantidade de novos inscritos desde 2009, segundo o Portal do Empreendedor. A abertura de microempresas é uma opção que trabalhadores autônomos encontraram para se regularizar e criar o próprio emprego.

Trabalhar de forma independente, como fazem os freelancers e os pequenos empreendedores, tem sido uma solução, mas os profissionais acabam se esbarrando no que pode ser um dilema caso não se organizem financeiramente: a falta de uma receita fixa e constante. O contador e especialista em finanças Luiz Alberto de Jesus aponta que a variação da renda torna a organização do trabalhador autônomo mais complexa, por isso é fundamental que quem trabalha sem um salário fixo crie um roteiro de planejamento. O primeiro passo para gerenciar as finanças é analisar os gastos pessoais. Só a partir do conhecimento das principais despesas é possível saber quanto é preciso ganhar para cobrir as contas essenciais. Já tendo uma noção maior dos próprios gastos, é preciso, em seguida, separar as finanças pessoais das do trabalho.

Separação de contas

Lidar com as despesas relacionadas ao negócio também é uma novidade para o profissional independente. “A separação não é difícil, mas é preciso se educar para realizá-la”, afirma Luiz Alberto. A organização através de planilhas separadas e a abertura de contas distintas, uma para a pessoa física e outra para a jurídica, ajudam. Sair para almoçar em família, por exemplo, é um gasto que deve constar nas despesas pessoais, mas marcar uma reunião de negócios num restaurante entra como despesa do empreendimento.

Não tomar cuidado com essa divisão pode gerar grandes problemas. O professor de economia na Unifacs Alex Gama indica que esse tipo de desorganização é uma das principais causas da inadimplência. “O microempresário precisa ter em mente que misturar as duas coisas pode complicar tanto o lado pessoal como o seu negócio”, afirma o economista. Estabelecida essa divisão, é chegada a hora de criar uma reserva de emergência. O indicado pelos especialistas é reservar entre 10% a 30% da renda mensal. Como em certas profissões a variação de ganho de um mês a outro pode ser bastante significativa, Alex Gama pontua que, nos meses em que o ganho é maior que o esperado, é fundamental poupar o dinheiro excedente, que deve ser usado para suprir os momentos de lucros menores. Sem a carteira assinada, quem trabalha por conta própria perde os benefícios garantidos pela CLT. Luiz Alberto destaca que é importante ter um dinheiro reservado para cobrir a falta deles.

Realizadas essas etapas se torna mais fácil determinar qual é o percentual do trabalhador no rendimento do seu negócio e tirar sua parte. Estabelecer o próprio salário de modo justo e adequado é um processo que não acontece de imediato, mas se torna menos complicado por meio do planejamento financeiro.

Organizar as contas para se pagar um valor fixo de salário, mesmo com a variação mensal da sua receita, foi crucial para a produtora de conteúdo Marina Baruch, freelancer em tempo integral desde 2020. “Foi uma grande virada de chave financeiramente. Comecei a me pagar o quanto eu ganhava na agência e a guardar o resto. Assim consigo tirar minhas férias remuneradas, licença médica quando preciso e pagar meu décimo terceiro”, diz.

Quando decidiu que se demitiria da agência onde trabalhava para se tornar freelancer, Marina começou a reservar dinheiro para a transição. “Minha ideia era juntar seis meses. Acabei saindo antes, mas (a reserva) foi fundamental”, afirma. Pela sua experiência, considera que vale a pena começar a empreender de forma autônoma sem fazer uma reserva antes, mas se planejar é fundamental.

*Sob supervisão da editora Cassandra Barteló

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