adblock ativo

Fechamento de fábrica provoca protesto

Publicado quarta-feira, 15 de março de 2006 às 00:00 h | Atualizado em 15/03/2006, 00:00 | Autor: JORNAL A TARDE
adblock ativo

Funcionários da Lanxess, localizada no Pólo Petroquímico, irão paralisar a produção da unidade amanhã



DANNIELA SILVA




Os funcionários da Lanxess resolveram cruzar os braços amanhã em protesto ao anúncio de fechamento da empresa. O comunicado do encerramento das atividades em Camaçari foi feito pelo presidente do grupo químico alemão, Axel Heitmann, no último dia 22 de fevereiro. A decisão pegou os profissionais de surpresa. “



Os trabalhadores estão desesperados. Ninguém esperava essa notícia”, comenta o diretor do Sindicato dos Químicos e Petroleiros, Carlos Alberto Souza.



A empresa alega baixa rentabilidade na unidade de produção de plásticos ABS (estirênicos), localizada no Pólo Petroquímico de Camaçari. A medida foi anunciada em meio a um pacote de reorganização das atividades do grupo no Brasil, “com o objetivo de focar a atuação em unidades de negócios com alta rentabilidade e potencial de crescimento”, explica o comunicado oficial divulgado para os funcionários e reproduzido pela assessoria de comunicação para a imprensa.



O programa compreende ainda, diz o comunicado, a otimização da administração em São Paulo e a consolidação da produção de pigmentos inorgânicos em Porto Feliz (SP). “No exercício de 2006, queremos incrementar nossos negócios na América Latina e, como o Brasil responde por mais de 40% da região, consideramos necessária esta reorganização nos negócios do País”, afirma o presidente Axel Heitmann.



De acordo com a companhia, as novas decisões resultarão na redução dos custos fixos anuais em cerca de 3 milhões de euros (cerca de US$ 3,6 milhões). Com o encerramento das atividades da planta de estirênicos em Camaçari, programado para 31 de maio, o fornecimento dos produtos para o mercado brasileiro e latino-americano passa a ser realizado pela planta de estirênicos de Tarragona, na Espanha.



A opção do grupo de passar a importar os produtos da Europa para ser comercializados no Brasil é criticada pelos dirigentes sindicais. “Essa é uma estratégia que tem sido adotada por muitas empresas para eliminar os custos com produção e pessoal. O governo federal precisa elevar a alíquota de importação para inibir esse tipo de medida e conseguir manter os postos de trabalho no País”, defende Carlos Alberto.



Somente na fábrica da Lanxess são 47 profissionais, dos quais dez estão afastados em função de doenças ocupacionais, segundo os sindicalistas. Os dirigentes estão tentando encontrar alternativas para evitar as demissões. “Vamos levar propostas de viabilidade da empresa para os trabalhadores aprovarem durante assembléia de amanhã”, conta o diretor Luís Tavares, sem dar maiores detalhes sobre as alternativas.



DEMISSÕES – O grupo químico alemão Lanxess comprou a empresa nas mãos da Bayer, que havia adquirido, em 1997, a Companhia Polímeros da Bahia (CPB). Em 2002, medidas de restruturação adotadas pela empresa eram um prenúncio de um futuro incerto para os profissionais.



“A empresa parou de produzir aqui e começou a importar matéria-prima da Alemanha, limitando a operação baiana à coloração do ABS. Naquela época, 250 trabalhadores foram demitidos”, lembra o diretor Carlos Alberto Souza.



Os processos de encerramento de atividades ou reestruturação das empresas têm sido uma constante no Pólo Petroquímico de Camaçari. Os sindicalistas denunciam uma redução de 18 mil trabalhadores, na década de 90, para 4.500, atualmente. “Os processos de fusão de empresas e fechamento de outras têm provocado a demissão de profissionais e os que ficam estão sendo sobrecarregados”, protesta.



Automação agravou desemprego no Pólo



A redução de mão-de-obra no Pólo Petroquímico de Camaçari é consequência da dinâmica do sistema econômico capitalista e dos avanços tecnológicos. Como a mobilidade do capital é mais intensa, os empreendimentos não encontram resistência para migrar de região ou de País.



A análise é do economista Oswaldo Guerra, que cita exemplos em outros Estados, como a fábrica da Azaléia que trocou o Rio Grande do Sul por Itapetinga, na Bahia, e outros Países, a exemplo de montadoras nos Estados Unidos, como a GM e Ford, cujas unidades estão sendo transferidas para países periféricos, onde os custos de produção são menores.



“O mover de plantas é uma tendência mundial. As empresas não produzem por filantropia, e sim para gerar lucro. Portanto, se a unidade não está atendendo as metas do grupo, ela é transferida para onde isso for viável. O compromisso dos executivos das empresas não é com o trabalhador, mas com os acionistas”, explica.



Essa crescente automação das organizações tem agravado não só o desemprego, como exigido redefinição dos postos de trabalho, diz o especialista. O novo perfil dos profissionais requer conhecimentos, sobretudo, em tecnologia. “Não se pode mais ter a ilusão de que a indústria é uma geradora de emprego. Assim como o agronegócio, a automação está avançando na indústria e, consequentemente, o emprego está reduzindo”, aponta.



Seguindo essa lógica, desejar que o Pólo Petroquímico de Camaçari gere o mesmo número de empregos da década de 90 “é sonho de uma noite de verão”, define o economista. Momentos semelhantes de redefinição da mão-de-obra fazem parte da evolução tecnológica. Quando a máquina a vapor foi criada, postos de trabalho foram extintos e outros criados, lembra o economista.



O momento atual, no entanto, é de prepoderância da destruição de postos de trabalho sobre a geração de novas ocupações. “O governo e as empresas precisam promover treinamentos para os profissionais de forma que consigam a reinserção no mercado de trabalho, desempenhando novas funções”.



Ainda que a indústria de transformação não gere mais o número de postos de trabalho esperado, o setor continuará respondendo por 35% do Produto Interno Bruto (PIB) baiano. “A tendência é permanecer como um segmento muito importante, pelas vantagens competitivas no Estado e pela longa tradição nessa área”, observa Oswaldo Guerra.



Empresa alemã possui 17 unidades no País



A Lanxess possui 17 unidades de negócios no País, responsáveis, em 2004, por mais de 40% do faturamento total do grupo na América Latina. A empresa emprega, hoje, cerca de 450 colaboradores no Brasil, distribuídos nas cidades de São Paulo, Porto Feliz (SP), Camaçari (BA) e São Leopoldo (RS).



Nos 18 países onde atua são, aproximadamente, 18.600 colaboradores. Nos primeiros nove meses de 2005, a Lanxess registrou faturamento mundial de cerca de 5,4 bilhões de euros, ficando entre as dez maiores empresas químicas da Europa.

adblock ativo

Publicações relacionadas