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Inflação acumula alta de 9,5% em 12 meses e pressiona o orçamento das famílias

Publicado às | Atualizado em 24/10/2021, 19:49 | Autor: Fábio Bittencourt
Preços de alimentos pressionam o orçamento familiar | Foto: Divulgação
Preços de alimentos pressionam o orçamento familiar | Foto: Divulgação -
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No início do mês, a assistente administrativa Maria Nildes Nascimento, 42, abastaceu a despensa de casa com compra feita em atacado, no valor de R$ 800. Na última quinta-feira, quando falou com a reportagem de A TARDE, afirmou estar com a “geladeira vazia”, e precisando retornar ao mercado. O que antes dava para 30 dias, dura hoje apenas duas, três semanas, ela diz.

Com os preços dos alimentos nas alturas, Nildes conta que o jeito tem sido substituir itens. No lugar de carne bovina, por exemplo, empanados de frango (processado) e ovos. A carne contabiliza alta de 30,7% no acumulado do ano; o frango inteiro (25,9%), e ovos de galinha (14,2%), segundo o último Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Nildes é casada, e tem uma filha de 16. O marido, depois de oito meses desempregado, há cinco arranjou serviço como vendedor. Metade da fatura do cartão de crédito da família está sem ser paga, mas uma parte do vencimento como recepcionista em clínica médica Nildes reservou para “quando o gás acabar”. Em quase R$ 100, o botijão de gás tem o maior preço do século em relação ao salário mínimo.

O cenário de dificuldade é o mesmo na maioria dos lares da Grande Salvador, onde a inflação acumula alta de 9,5% nos 12 meses encerrados em setembro, segundo o IBGE, e pressiona o orçamento das famílias, que buscam “saídas”. O resultado é o endividamento de 72% das famílias, registra a Fecomércio na Bahia.

Moradora de São Gonçalo do Retiro, Nildes reforça a renda vendendo rifa. “Está tudo muito caro, estamos calculando, avaliando bastante na hora de comprar. A culpa é de quem? Tem a pandemia, muita gente sofrendo. Lá em casa, a gente está tendo de escolher qual conta pagar. Não tem mais churrasco, lazer”, conta.

“O óleo (de cozinha) está caro, feijão, mais de R$ 7 o quilo. E feijão não pode faltar, sem feijão meu marido não passa. E tem de ser gordo, com fato, mocotó, calabresa, carne seca. Mas agora estamos tendo de maneirar”, fala ela, que explica preferir comprar em atacados. “Os preços costumam ser melhores, tem mais promoção para levar em uma quantidade, pagando menos”.

Para o professor de economia e educador financeiro Edval Landulfo, neste “difícil momento da economia é importante ter o orçamento doméstico na ponta do lápis”. “É preciso entender, na real, quanto se tem de receita líquida, e ver onde enxugar. Porque o consumo de gás, energia, deslocamento, tudo vai precisar ser revisto. Você já deve prever aumento de 2%, 3% ao mês de tudo, devido ao frete”.

Sobre como economizar com o mercado, ele diz que algumas dicas são ficar atento ao “ganho real” com relação às ofertas, reduzir a quantidade de perecíveis, e comparar embalagens, ver qual vale mais a pena.

“É imprescindível ter uma lista prévia das compras, bem como fazer concessão, comprar por ordem de importância, e ir por áreas de consumo. Sempre que puder, substituir uma marca por outra mais em conta”.

O professor destaca o dado do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) que aponta que, para atender as necessidades de um grupo familiar básico, o salário mínimo em setembro deveria ser R$ 5.657,66, contra R$ 1,1 mil. E diz que a crise atinge ainda mais em cheio pessoas de baixa renda, “que têm a questão do conceito”.

“Ou seja, a crença de que é preciso feijão, arroz, carne. A paralisação da exportação da carne bovina brasileira para a China ainda não representou a diminuição do preço no mercado interno, e o frango, um substituto direto, subiu 25%, puxado pela alta do milho, farelo de milho, energia, embalagem, frete. A substituição pelas famílias da proteína animal por ovo também teve impacto com o aumento de 14%”.

“Pode piorar”

A má notícia, porém, é que até a situação melhorar há espaço para piora, fala o economista com mestrado em desenvolvimento regional e urbano, Lucas Spínola. Como fator de instabilidade Spínola cita a aproximação de um ano eleitoral.

“A aproximação do processo eleitoral é sempre um momento de muita instabilidade, e não vejo consistência na condução da política econômica no Brasil. Vivemos uma eterna disputa entre os interesses reais do país e os planos eleitorais. Ainda há espaço para piora, pois as principais causas do processo inflacionário atual seguem incólumes”.

Ele diz que o caminho hoje é o da pesquisa de preço, lembrando que custos com o deslocamento devem ser considerados no total das despesas. “Procurar produtos que possam ter um custo menor, mas de modo que supram necessidades. Além de buscar novas alternativas de renda. É isso ou apertar ainda mais o cinto. Consumir o estritamente necessário, evitando gastos supérfluos, e buscar planejar gastos mais representativos”.

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