Produtos à base de frutas da caatinga geram renda

Publicado segunda-feira, 14 de junho de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 13/06/2021, 18:08 | Autor: Fábio Bittencourt

Frutos nativos da caatinga, o umbu e o maracujá-do-mato – antes vendidos in natura e sem nenhum valor agregado em feiras livres, quando não ficavam perdidos na terra – geram hoje renda para 270 pequenos produtores do semiárido baiano, vinculados à Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc).  

De sabor marcante, as frutas são os principais ingredientes de doces cremosos e em barra, geleias, compotas, polpas e cervejas artesanais, agora comercializadas em latas de 473 ml – tudo sob a marca Gravetero. De alta qualidade, os produtos já são embarcados para países como França e Alemanha. Os próximos destinos devem ser Estados Unidos, Polônia e Espanha.  

Em Salvador, os itens podem ser encontrados em empórios e casas especializadas, além de plataformas de comércio justo, como Rede Moinho, Quindins da Bahia, Cesol (Centro Público de Economia Solidária, nos Mares); Mercado Orgânico de Produtos Saudáveis (no Salvador Shopping), Bolo das Meninas, Solange Biscoitos Finos, portal da startup Escoaf e lojas de Perini.  

A Coopercuc conta com apoio do governo do estado por meio dos projetos Bahia Produtiva e Pró-Semiárido, ambos geridos pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) desde 2015. Nos últimos seis anos, R$ 4 milhões foram investidos na construção de uma usina de beneficiamento das frutas na região.  

Com a implantação da agroindústria, a produção, que era de 200 toneladas ao ano, teve a capacidade ampliada para 800 t/ano. Em 2020, o faturamento da Coopercuc foi de R$ 3 milhões, e a expectativa para este ano é de um aumento de 25% nas vendas, afirma a presidente Denise Cardoso.  

A cooperativa foi criada em 2004, sem nenhum tipo de financiamento externo.

“A parceria com o governo do estado já existe há bastante tempo, mas a maioria dos trabalhos sempre foi pautado na produção. Com o Bahia Produtiva e Pró-Semiárido os ganhos são muito grandes, pois eles são focados na gestão e comercialização. Já temos uma agricultura familiar forte, precisamos profissionalizar a organização e conquistar mercados”, fala Denise.  

Ainda segundo a cooperada, ações da Coopercuc mais as políticas públicas “mudaram muita coisa na região”. “O Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae)  garante que 30% dos recursos sejam destinados à compra de itens da agricultura familiar, e as crianças estão se alimentando com produtos mais saudáveis. Hoje, temos acesso à água, energia, novas estradas”.         

Diretor-presidente da CAR, o agrônomo Wilson Dias explica que em oito anos (até 2022) o Bahia Produtiva e o Pró-Semiárido terão investido no estado um total de US$ 355 milhões, entre obras de infraestrutura  (mercados, feiras, pontes, barragens, água para produção, consumo, irrigação) bem como na capacitação e apoio a cooperativas, visando a geração de riqueza.  

Os projetos são financiados também pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) e o Banco Interamericano Desenvolvimento (BID). Segundo Dias, pelo potencial de  transformação social de regiões, as cooperativas agrícolas são as meninas dos olhos dos dois programas.  

Faturamento

Na Bahia são 473 as contempladas. A maioria faturando   uma média de R$ 3 milhões ao ano; 53 encontram-se em estágio “avançado” de maturação – a maior delas com uma receita anual bruta de R$ 20 milhões.

Em alguns casos, a renda média mensal por família gira em torno de R$ 5 mil.  

Wilson Dias  destaca os trabalhos desenvolvidos pelas cooperativas de Capim Grosso e Sobradinho, que produzem e beneficiam licuri e acerola orgânica verde, respectivamente. O óleo de licuri produzido na região é vendido hoje para a multinacional de cosméticos L’Occitane, e a pasta grossa de acerola é destinada à indústria farmacêutica, que a transforma em ácido ascórbico (para vitamina C).  

Ele explica que existe uma “aliança produtiva das cooperativas com o empresário do setor privado, que adquire a produção em condições diferenciadas”. “Antigamente, as catadeiras de licuri vendiam o fruto nas feiras livres por R$ 0,50 o quilo. Para a L’Occitane sai a R$ 8. É  uma relação de ganha-ganha. O preço é justo, o prazo compatível. O empresário não quer mais associar a marca à exploração. Vale para o café, o cacau, o morango da Chapada Diamantina”.

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