DO ESTÁDIO AO ASFALTO
Corrida é o novo futebol? Entenda por que a modalidade virou um fenômeno entre gerações
Houve um aumento de 85% no número de corridas de rua entre 2024 e 2025 no Brasil
Por muitos anos, vestir a camisa do time do coração e ir ao estádio de futebol foi a principal demonstração da paixão esportiva dos brasileiros. Hoje, uma nova cena se repete pelas ruas das cidades: milhares de pessoas saem de casa para correr.
Mais do que uma atividade física, a corrida de rua vem se transformando em um fenômeno de massa e deixou de ser uma atividade restrita a atletas, passando a ocupar um espaço cada vez maior na rotina dos brasileiros.
Os números ajudam a explicar esse movimento. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO), houve um aumento de 85% no número de corridas de rua entre 2024 e 2025 no país:
- 2024 – Foram registradas 2.827 corridas de rua
- 2025 – No ano seguinte, esse número chegou a 5.241
Além disso, um estudo realizado pela Olympikus, em parceria com a BOX 1824, revela que cerca de 15 milhões de brasileiros correm atualmente. Desse total, 2 milhões começaram a praticar o esporte apenas no último ano, um crescimento de 15%.
“Sinto que a corrida é o pico de felicidade no meu dia. Com ela, eu consigo me distrair, aproveitar o meio ambiente e as paisagens da cidade, além de conhecer pessoas novas diariamente. Gosto de correr de manhã cedo justamente por ficar com mais disposição durante o restante do dia. Fica a sensação de dever cumprido e tranquilidade”, relatou o estudante universitário Marco Pitangueira, de 21 anos, em entrevista ao portal A TARDE.
O jovem conta, ainda, que começou a correr motivado pela vontade de sair do sedentarismo e melhorar o corpo, mas percebeu que os benefícios vão muito além das questões físicas.
Comecei com um objetivo e percebi que esse esporte traz benefícios que eu nem imaginava
Marco Pitangueira - Estudante universitário
Saúde física e mental
A rápida popularização das corridas de rua pode estar diretamente relacionada aos benefícios que a modalidade proporciona à saúde de uma forma geral, como explica Alexandre Dortas, cientista do esporte e professor da UNIFTC.
“É uma atividade aeróbica que contribui com o controle de peso, melhora a parte cardiorrespiratória e traz fortalecimento muscular, além do prazer, da questão lúdica, que envolve a atividade da corrida”, detalha Dortas.
Segundo ele, a atividade afeta positivamente diversas áreas, como:
- saúde cardiovascular;
- emagrecimento e metabolismo;
- bem-estar mental;
- fortalecimento dos músculos e articulações;
- melhora da qualidade do sono;
- aumento da capacidade respiratória;
- e ainda ajuda na socialização.
Desafio na vida adulta
A popularização da corrida de rua não se limita aos mais jovens. Além de conquistar espaço na rotina de pessoas como Marco, a prática também se tornou parte da vida de diferentes gerações.
Um deles é o administrador Tadeu Tavares, de 50 anos, que começou a correr em 2010 para melhorar o condicionamento físico. O hábito, porém, se transformou em uma prática regular nos últimos dois anos.
“Com o tempo, a corrida deixou de ser apenas exercício e passou a fazer parte da minha rotina e da minha vida.”
Apesar dos anos de dedicação, a prática de exercícios físicos pode se tornar desafiadora para quem precisa conciliar o esporte com a vida profissional e as responsabilidades familiares. Diante desse cenário, Tadeu revela a estratégia que encontrou para manter a corrida presente na rotina.
“O segredo, para mim, é correr muito cedo. Normalmente já estou de volta para casa antes das 6h30, então dessa forma consigo fazer com que a corrida não atrapalhe minha rotina profissional nem familiar”, explica.
Ainda assim, segundo ele, os desafios sempre permanecem.
“O maior desafio acaba sendo a preparação. Para conseguir acordar antes das 4h30, preciso dormir cedo. Muitas vezes vou dormir enquanto minha família ainda está reunida na sala. Existe um equilíbrio delicado entre cuidar da saúde, manter a disciplina e também preservar os momentos com a família. A corrida ensina muito sobre organização, prioridade e constância”, complementa.
Nunca é tarde para começar
Assim como a população adulta encontra obstáculos para conciliar a prática esportiva com as exigências da rotina, muitas pessoas da terceira idade acabam se afastando dos exercícios por falta de motivação ou insegurança em relação à condição física. Para Alexandre Dortas, porém, a corrida pode ser praticada em qualquer fase da vida.
A restrição de idade não existe. A corrida é uma atividade física eclética. O mais importante é que o praticante esteja dentro de um processo de avaliação médica
Alexandre Dortas - Cientista do esporte e professor da UNIFTC
Ainda de acordo com o profisisonal, a avaliação médica clínica e fisiológica é o que que vai fazer com que a pessoa possa fazer a corrida sem nenhum tipo de prejuízo.
Foi seguindo essa lógica que José Aguiar começou a correr aos 50 anos. Hoje, aos 68, ele compartilha a rotina como corredor nas redes sociais, onde acumula mais de 800 mil seguidores.
Ao longo da trajetória, José acumula:
- duas maratonas;
- diversas meias maratonas;
- mais de 200 troféus conquistados;
- desde os 54 anos, quando venceu sua primeira prova, nunca mais perdeu em sua categoria.
“Começar a correr depois dos 50 anos foi a melhor decisão que eu tomei para minha vida. Hoje, aos 68 anos de idade, me sinto como um jovem cheio de energia”, disse em entrevista ao portal A TARDE.
Corridas coletivas
Parte do sucesso das corridas de rua pode ser explicada por um elemento que vai além do desempenho esportivo: o senso de comunidade. Assim como acontece no futebol, a modalidade passou a reunir pessoas em torno de interesses em comum, criando laços de amizade, identificação e pertencimento.
Segundo a Federação Baiana de Atletismo, foram realizadas 124 corridas em 2024 e 181 em 2025, representando um crescimento de 46%.
Em Salvador, esse movimento pode ser visto tanto em provas temáticas, como a Corrida do Leão, quanto nos grupos que se encontram regularmente para treinar pelas ruas da cidade, a exemplo do Collective Runners.
Corrida do Leão
Um exemplo de como a corrida pode unir esporte, identidade e paixão é a Corrida do Leão. Promovido pelo Esporte Clube Vitória desde novembro de 2024, o evento chegou à sua quarta edição e reúne corredores e torcedores em uma experiência que vai além da competição, transformando as ruas em um espaço de celebração da cultura rubro-negra.
A ação, segundo Guilherme Queiroz, diretor do Departamento de Marketing do clube, tem sido um fio condutor para a adoção de hábitos mais saudáveis.
“O objetivo da corrida, em primeiro lugar, é incentivar a prática esportiva, cuidar da saúde, do bem-estar, da saúde mental e incentivar as pessoas. A gente vê muitos torcedores que começaram a praticar corrida ou algum outro tipo de atividade esportiva depois da corrida do Vitória”, disse em entrevista ao portal A TARDE.
Além do aspecto esportivo, a Corrida do Leão também se tornou um espaço de confraternização para os participantes. O administrador Tadeu, que esteve presente nas últimas três edições do evento, descreve a experiência como uma das mais marcantes da sua trajetória como corredor.
“A Corrida do Leão é a prova mais simbólica para mim. Como torcedor rubro-negro, correr ao redor do nosso estádio e terminar a prova literalmente dentro do gramado do Barradão é uma sensação impossível de explicar completamente. No último quilômetro, quando entramos no estádio, parece que o corpo deixa de responder apenas ao físico e passa a ser movido pelas batidas do coração, no ritmo dos cantos da torcida. É como chegar em casa e receber um abraço de acolhimento”, definiu.
A última edição, para ele, teve um significado ainda mais especial.
“A última, realizada na orla, teve uma emoção diferente. Havia muito mais gente, o percurso inteiro virou uma festa e o pós-prova teve uma energia inexplicável. A bateria da torcida Os Imbatíveis transformou a orla em um verdadeiro santuário rubro-negro. Foi lindo e emocionante.”
Collective Runners
Se as provas temáticas ajudam a reunir milhares de pessoas em ocasiões especiais, os grupos de corrida mantêm esse espírito de coletividade ao longo de todo o ano. Em Salvador, iniciativas criadas pelos próprios corredores vêm fortalecendo ainda mais essa cultura.
Foi com esse objetivo que os amigos Fábio Silva e Luan Teles, de 28 e 25 anos, respectivamente, criaram o Collective Runners, grupo de corrida voltado para incentivar a prática esportiva coletiva em Salvador.
Em conversa com o portal A TARDE, Fábio contou que a ideia surgiu em 2025, quando percebeu a ausência de um movimento mais forte de grupos de corrida — as chamadas crews — na capital baiana, algo já consolidado em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
“Eu sentia falta de a galera se juntar para se exercitar, para conhecer pessoas e se conectar”, declarou.
Pouco tempo depois, em 22 de abril daquele mesmo ano, Fábio e Luan organizaram um encontro que contou com apenas um participante. Um ano depois, em 2026, o grupo no WhatsApp já reúne mais de mil pessoas, enquanto os encontros presenciais atraem entre 150 e 200 participantes.
Segundo Fábio, as atividades são abertas ao público, totalmente gratuitas e não seguem um calendário fixo, justamente para ampliar o acesso ao esporte.
“É só colar, é só aparecer lá, é só participar. Não tem nenhum tipo de pagamento, não tem nenhuma restrição. A gente está lá para receber todos os tipos de pessoas. A gente tem de fato esse papel de incluir, de movimentar a galera, de trazer geral para esse mundo do esporte e fazer uma inclusão ao máximo possível.”
Muito além do esporte
Os números mostram o crescimento da modalidade, mas as histórias de Marco, Tadeu, José, Fábio e de tantos outros corredores ajudam a explicar um fenômeno que vai muito além das estatísticas.
Seja pela busca por saúde, pela superação pessoal ou pelo desejo de pertencer a uma comunidade, a corrida conquistou espaço entre brasileiros de diferentes idades.
Talvez ainda esteja longe de substituir o futebol como paixão nacional. Mas, para milhões de pessoas, ela já deixou de ser apenas um exercício físico para se tornar parte da rotina, da identidade e da forma de viver o esporte.