"A Fonte devolve o orgulho do torcedor", garante Paulo Carneiro

Publicado sexta-feira, 13 de setembro de 2019 às 20:51 h | Atualizado em 21/01/2021, 00:00 | Autor: Nuno Krause* | Foto: Felipe Iruatã | Ag. A Tarde

“O ser humano, quando tem espírito de porco, não tem quem administre”. Foi o que o presidente do Vitória, Paulo Carneiro, disse nesta quinta, 12, sobre os torcedores do Vitória que desejam que o clube permaneça mandando jogos no Barradão. O sempre polêmico presidente, como ele mesmo se descreve, concedeu entrevista exclusiva ao Grupo A Tarde, o cartola falou principalmente sobre o acordo que o Vitória fechou com a Arena Fonte Nova, no último dia 9. Além disso, Carneiro ainda voltou a dizer que o Bahia foi mais beneficiado pelo governo do estado, e comentou sobre a saúde financeira do Rubro-Negro. De acordo com ele, o acesso é possível.

O Vitória  pretende jogar todos os jogos na Arena Fonte Nova a partir de agora?

Sim. A ideia é essa. A partir de agora, jogar todos os jogos na Fonte Nova [ontem, porém, o Vitória divulgou uma nota informando que os jogos contra Londrina e Coritiba, por indisponibilidade da Arena, vão acontecer na Toca].

O Barradão é um estádio com capacidade para quase 35 mil pessoas. Como manter um estádio desse porte sem jogos do profissional?

Ele tem um custo muito barato. Quem fala não entende de engenharia. É um estádio de custo muito barato. Tem um custo quase zero de manutenção sem jogo. A preocupação é como mantê-lo intacto, bem cuidado, pois nós vamos ter muitos jogos aqui. Temos os Campeonatos Brasileiros sub-17, sub-20 e sub-23. Praticamente teremos jogos toda semana. O Barradão não vai ficar parado.

A ida do Vitória para a Fonte Nova é motivada apenas por questões financeiras?

Como consequência. Mas a intenção é quebrar um pouco essa onda negativa que se debruçou sobre o Vitória ao longo dos últimos dois anos e meio, três anos. Indo para a Fonte Nova, com equipamento de Copa do Mundo, mexe com o orgulho do torcedor. O torcedor do Vitória perdeu um pouco do orgulho. Eu acho que isso [a Fonte] devolve. E, principalmente, crescer a base de sócios, indo para um estádio melhor, com novos planos de sócios. Esperamos ter uma quantidade de sócios maior, para que possamos sair dessa crise.

O Vitória tem pagado os salários em dia?

Eu não discuto isso. É assunto interno do Vitória. Não discuto. 

Com relação aos sócios, aqueles das categorias ouro e prata reclamaram dos assentos que serão destinados às categorias na Fonte. O que tem a dizer sobre isso?

Aí é uma questão fácil de explicar. As pessoas reclamavam muito do Barradão, mas vinham pouco. Quando você muda, sempre vai ter polêmica. Há pessoas que nunca estarão satisfeitas com as mudanças. Isso é da natureza humana. O Vitória não está fazendo nada diferente do que aplicar a política de assentos da Fonte Nova. A Fonte Nova tem um outro parceiro [Bahia]. O parceiro tem uma política de assentos adaptada com a Fonte Nova. O equipamento é o mesmo. Nós temos que nos adaptar à mesma política. Se lá tem uma política de assentos para um sócio que paga R$ 60,00, o nosso sócio de R$ 60,00 tem que ir para o mesmo lugar.

Este ano a média de público do Barradão é de 6.208 na Série B, com o ticket médio custando entre R$ 9,00 e R$ 15,00. Com a ida para a Fonte Nova, qual é a expectativa de aumento no público?

O time tem que continuar competitivo porque, infelizmente, o importante no Brasil é o futebol de resultados. Infelizmente, nosso torcedor não vai ao estádio para acompanhar o clube, ele vai torcer pelo time. Se o time vai mal, ele deixa de ir ao estádio e esquece o amor pelo clube. É assim no futebol. No Vitória é de forma mais crítica, porque o nosso torcedor é muito exigente. Nós esperamos que essa exigência seja convertida em participação num estádio que oferece, em forma real e efetiva, muito mais condições de abrigar partidas de futebol do que nosso estádio, que foi feito com muito sacrifício pela família rubro-negra, mas que precisa de indiscutíveis melhoras para o torcedor se sentir mais confortável. Mas não é por isso que o nosso público está baixo. Está baixo porque se instalou uma crise no Vitória nos últimos anos. Eu espero que a Fonte Nova seja um fato novo, um algo mais, uma motivação. E parece, pelos movimentos, que está sendo dessa forma. 

E o aumento do preço da entrada em relação ao Barradão não te preocupa?

A economia da Bahia é uma só. Qual é a média de público do nosso adversário na Fonte Nova hoje? Mais de 20 mil. A classe social é a mesma. É só você comparar o Teatro Castro Alves com a praça Castro Alves. Um [a praça] é uma área mais popular, mais simples, e com certeza mais barata. O teatro é mais caro, é normal isso. Você, quando vai a uma casa de espetáculo mais cara, você paga mais ou menos?

Anteontem, o atacante Neto Baiano disse que entraria com uma ação trabalhista contra o Vitória. Além dele, outros três jogadores já fizeram isso neste ano. O que tem a dizer sobre isso? E em que pé estão esses processos?

Eu não discuto essas questões. São ligadas ao meu departamento jurídico, e eu me permito não comentar. É lamentar que falsos ídolos estejam insensíveis à situação do Vitória, pois no passado estiveram aqui e tiveram tudo. É sinal de que o Vitória está em dificuldades, né? A instituição é a mesma. Só tenho a lamentar. O que eu gostaria de dizer eu prefiro me calar.

O acordo com a Fonte chegou a desandar em agosto. O Consórcio da Arena chegou a afirmar que o Vitória não estava aceitando as condições que já eram impostas ao Bahia. Essas condições foram aceitas?

Todo acordo é assim. Tem idas e vindas, mas terminou tudo bem. Eu tenho um compromisso de confidencialidade. Não posso avançar no assunto em respeito ao meu parceiro [a Fonte Nova].

Imagem ilustrativa da imagem "A Fonte devolve o orgulho do torcedor", garante Paulo Carneiro
O Vitória assinou esta semana o contrato que permite o clube mandar seus jogos na Arena

O contrato com a Fonte Nova vai até o fim do seu mandato, em 2022. A intenção é que o contrato seja renovado? E o senhor pretende disputar a reeleição no clube?

Muito cedo para eu te dizer isso. Eu posso te dizer que estamos trabalhando duro para tirar o Vitória dessa situação,  os progressos são evidentes. Até aqueles que não gostam de mim, porque eu sei que tem muita gente que não gosta, têm que se curvar às evidências. Contra fatos não há argumentos. Nós já reduzimos o custo anual do clube em R$ 17 milhões, em quatro meses. E o clube tá funcionando até melhor, eu posso dizer, muito mais ajustado. Estamos implantando um programa de desenvolvimento esportivo para a nossa formação.   O grande desafio do Vitória, hoje, é manter o programa esportivo imune às intercorrências administrativas e financeiras, para que a gente possa implantar a política institucional do clube de priorizar os atletas formados no clube em relação aos contratados de fora. O Vitória se perdeu nisso ao longo dos últimos anos. Estamos administrando o passivo do clube de forma quase heroica para manter o clube vivo. Estamos dando todo o suporte que o time profissional precisa, para continuar nessa missão de ir para as primeiras posições. Agora, espero que a renovação com a Fonte Nova aconteça, que a gente possa passar muitos anos. A relação não nasce pensando em terminar. Quanto à minha reeleição, não é hora de falar sobre isso.

Caso vença o Guarani, no sábado, o Vitória pode ficar a sete pontos do G-4. A partir daí, a meta do clube passa a ser o acesso?

A meta sempre foi o acesso, desde o primeiro dia que eu entrei aqui. Os resultados não têm nada a ver com a meta. As metas às vezes são cumpridas, às vezes não. Não entramos no clube para nos livrar de rebaixamento. Nós somos um clube de Série A. 

O momento  positivo do Bahia incomoda o Vitória? 

Acho que é importante para o futebol baiano. Eu só gostaria que o Vitória tivesse a mesma ajuda que o Bahia teve quando esteve em crise pior do que a nossa. Porque o Bahia passou sete anos na Série B. Sete anos. E o Bahia, em 2009, recebeu um estádio de presente: Pituaçu. Custou R$ 80 milhões aos cofres públicos. O Bahia não tinha estádio para jogar. O governo fez um estádio para o Bahia. Muito justo. Tem até passarela larga para o público do Bahia passar. E o Bahia soube aproveitar bem. Em 2013, o Bahia iniciou uma relação próxima com a Fonte Nova, que se mostrou muito boa. Espero que a nossa também seja. Não me incomoda nada, o rival forte é melhor de ganhar. Talvez, se eu fosse presidente do Vitória, eu teria buscado as mesmas condições na época. Acho que o Vitória até que deve ter tentado. Temos aqui convênio, fizemos três campos aqui com a ajuda do governo, temos os acordos, mas, indiscutivelmente, o Bahia foi apenhorado por valores milionários, e soube aproveitar isso. Eu confirmo que o Bahia atravessa um bom momento,  mas estou dizendo como nasceu esse processo. O Estado se preocupou demais com um dos seus principais representantes. Estava há sete anos na Série B. O Vitória está há um. Talvez o Vitória não mereça, ou não esteja precisando da ajuda.

Não existe nenhuma possibilidade de o Vitória se desfazer do Barradão, então?

Não. É nossa paixão. Não. O torcedor é assim, ele é do contra. Todo mundo quer a Fonte Nova, mas tem aquele grupo que acha: “Ah, o Barradão...”. Mas isso é como meu pai me dizia: “O ser humano, quando tem espírito de porco, não tem quem administre”. Você tá vendo algum problema no Barradão? É normal, tranquilo.

Alguns torcedores têm falado nas redes sociais até em deixar o programa de sócios por causa da mudança para a Fonte Nova. Como o presidente enxerga isso?

De ontem pra hoje entraram mil sócios. Quatrocentos até ontem, um dia. Acho que vamos aumentar. Eles querem o Vitória grande. Tirando essa turminha, que quer o Vitória pequeno, a maioria quer o Vitória grande. E a maioria aprovou a ida do Vitória para a Fonte Nova. Não posso administrar em cima das minorias.

Acredita no acesso?

Sim. Sempre.

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