“Somos muito rígidos na questão de tolerância zero com dopping"

Presidente do COB faz uma avaliação positiva sobre a participação da delegação brasileira na última Olimpíada

Publicado segunda-feira, 21 de março de 2022 às 06:04 h | Atualizado em 20/03/2022, 20:03 | Autor: Osvaldo Lyra
Paulo Wanderley, presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB)
Paulo Wanderley, presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB) -

À frente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), o ex-treinador e ex-atleta Paulo Wanderley, faz uma avaliação positiva sobre a participação da delegação brasileira na última Olimpíada de Tóquio. Anfitrião da segunda edição do Congresso Olímpico Brasileiro, realizado este final de semana, em Salvador, ele disse que o COB tem sido muito rígido na questão de tolerância zero com o dopping junto a seus atletas. De acordo com o dirigente, desde que assumiu, em 2018, tem investido na profissionalização do Comitê. “Deixaremos um legado de governança, transparência, austeridade no COB”. Para Paulo Wanderley, “é uma política do Comitê Olímpico alavancar jovens atletas”. Para isso, “foram injetados R$165 milhões nas equipes e nos atletas”. Confira. 

Presidente, o senhor foi eleito com uma expressiva vantagem, sobretudo, com grande participação da comissão de atletas. O que isso representou para o senhor como um participante ativo de eventos olímpicos do passado?

Bom, a história é construída dentro do esporte. A minha história se confunde com a minha vida profissional, com minha vida em si. Então desde a infância que eu pratico esportes, eu fui atleta, no início de natação, mas depois no judô e segui uma carreira a vida inteira. Ou como técnico, depois como árbitro, fui técnico e dirigente esportivo. E galgando cada passo instituição por instituição. Eu vim de uma federação pequena, fui para a Confederação Brasileira, depois alcei voos para internacional, confederação sul-americana, pan-americana. E cheguei no Comitê Olímpico. Então para mim é uma situação muito comum ir galgando passo a passo. Eu acho que é aí que você se constrói, que você se consolida. E o movimento com os atletas desde sempre... O técnico tem uma aproximação, entrando no Comitê Olímpico eu entendi que deveríamos chamá-los mais para dentro da responsabilidade, como realmente pessoas que podem agregar. E venho crescendo. Cheguei no COB e era um atleta que participava da Assembleia Geral, nem das decisões. Uma vez por ano. Logo em seguida, fomos para 12 atletas na comissão, hoje somos 19 atletas que votam e têm assento no Conselho de Administração. Tanto o presidente da comissão de atletas, que é Yane Marques, como o vice-presidente Fabiano Peçanha têm cadeiras dentro do Conselho de Administração que são 13 pessoas. Aí tem representantes de diversos segmentos. 

A gente ainda vive um momento de pandemia, uma fase de transição, que avaliação o senhor faz da crise de saúde pública e como o Comitê Olímpico atuou ao longo de todo esse período?

De uma forma bastante preventiva. Assim que começou essa questão de que competições internacionais seriam adiadas, campeonatos cancelados, treinamentos dentro do Brasil e fora do Brasil também cancelados. Nós partimos para cima, mobilizamos nossa área estratégica, nossa área financeira, e organizamos alguns planos, conseguindo dar continuidade a esses projetos em função da dificuldade que se tinha até dentro do Brasil. Porque o próprio centro de treinamento olímpico ficou fechado por alguns meses. Mas no ano de 2021 já voltou, aliás, no final de 2020. Nós montamos programas específicos. Os atletas que estavam em preparação para os jogos olímpicos foram fazer estágios em países onde a questão da saúde ainda não estava tão drástica. Em sistemas de bolhas. Esses atletas viajaram para a Europa e ficaram ali em treinamento. Foram 212 atletas de 14 ou 15 modalidades esportivas que tiveram a experiência de continuar treinando dentro do sistema de pandemia.

Qual o impacto econômico que a pandemia teve nas ações do Comitê e se houve diminuição de patrocínios ou novos frutos a serem colhidos a partir de todo o trabalho feito até aqui?

A questão de patrocínio vem numa descendência desde pós jogos olímpicos de 2016. Porque nós vimos nos jogos pan-americanos em 2009, nós tivemos a Copa do Mundo do Futebol em 2014, tivemos os jogos olímpicos em 2016. Então é natural, é evidente que diante desse cenário tivéssemos mais patrocínios, mais aporte de recursos. Isso é normal, em qualquer país do mundo acontece desse jeito. Também é natural porque aquilo ali era uma curva de ascensão, mas era uma bolha em função dos eventos criados. Quando terminou isso, é natural, em termos absolutos, que isso acabasse também. Mas o COB tem uma possibilidade através de nossos recursos de leis federais, principalmente das loterias Caixa, que é uma lei federal... Que a gente tem um subsídio, mas não houve impacto nesse específico. As pessoas continuaram apostando. Num primeiro momento teve aquela dificuldade, não podia sair de casa, mas continuaram no movimento e não tivemos muita dificuldade nesse sentido. Patrocínio, sim. Caiu, porque era irreal. Mas estamos recuperando e recuperando bem essa questão.

Como o Comitê Olímpico Brasileiro avalia o desempenho dos nossos atletas nas últimas Olimpíadas?

Muito bem. Se você fizer uma revisão histórica de passado recente, nós vínhamos crescendo em 2018 e 2019, aí teve aquele baque, mas nós tivemos antes do começo do ano de 2021, aquele resultado muito expressivo e inédito, porque de 63 o Brasil ficou em segundo lugar nos jogos pan-americanos, levando em consideração que eram muito menos países e foi realizado dentro do Brasil. Então fora isso, o Brasil era quarto, terceiro. E nos jogos pan-americanos de Lima, que eram um termômetro pra nós também para os jogos olímpicos de Tóquio, nós ficamos em segundo lugar geral. Então foi excelente. Nos jogos olímpicos, superamos o número de medalhas em 2016, superamos o número de modalidades com medalhas em 2016, então houve um crescendo nessa situação. O décimo segundo lugar para nós é um número extremamente positivo, tendo em vista que foram 206 países.

Desde 2016, os atletas baianos têm sido destaque nas performances olímpicas. No ano passado, Isaquias Queiroz, Ana Marcela, Hebert Conceição e Daniel Alves conquistaram ouro em suas modalidades. Keno e Bia Ferreira chegaram muito próximos no boxe. O que pode explicar esse sucesso dos baianos nas Olimpíadas e qual tipo de ação que pode ser realizada para fomentar ainda mais o esporte, sobretudo aqui na Bahia?

Veja só. Historicamente, o nordestino é batalhador, é guerreiro. Eu sou nordestino. Nasci no Rio Grande do Norte, me criei no sul, mas as raízes são todas aqui no Rio Grande do Norte e em Alagoas, inclusive é onde eu estou morando atualmente. Eu trabalho no Rio. Mas então já tem esse potencial. Esses atletas não surgiram de um dia para o outro. Eles buscaram caminhos. O Isaquias treina conosco lá em Lagoa Santa. Ele surgiu no estado, mas quando ele começou a ser o Isaquias que nós conhecemos, ele estava trabalhando lá em Lagoa Santa em Minas. Nós temos uma estrutura montada para ele lá. As pessoas não sabem disso. Ana Marcela mora no mesmo prédio que eu moro no Rio lá. Ela tem uma vida dentro do Rio de Janeiro, mas tem raízes nordestinas. O Hebert a mesma coisa. Eu tive a oportunidade de assistir o nocaute dele, a medalha dele. Então essas possibilidades do atleta nordestino... O Ítalo Ferreira do Rio Grande do Norte, nosso medalhista de surfe, a Rayssa Leal, do skate, é lá do Maranhão, Imperatriz. Então estamos chegando. E é uma política do Comitê Olímpico alavancar jovens atletas. Esse evento aqui é um exemplo.

Falta incentivo para os jovens investirem mais no esporte e não ter que conciliar outros trabalhos para a própria subsistência?

No esporte de altíssimo rendimento e performance já não cabe mais essa colocação. Os atletas hoje quando já estão júniores, quando ascendem a uma seleção brasileira... Não de todas as modalidades, evidentemente, algumas menos, mas muitas modalidades, digo para você que bastante, os atletas já têm uma forma de subsistência garantida. É Bolsa Atleta, é o Programa do Exército, o próprio Comitê Olímpico auxilia também, as confederações estão auxiliando. Então esse discurso que era fato em um passado recente, hoje um atleta de alto rendimento não se aplica.

Que avaliação o senhor faz da gestão do Governo Federal no esporte?

Eles estão seguindo uma planilha, um exemplo que já existia anteriormente. Eles seguem essa situação. Os convênios deles auxiliam, as entidades... O COB não faz uso de convênios do Governo Federal. Mas as confederações fazem, os clubes fazem, as ONGs fazem. Então na sequência desses programas, eles estão dando continuidade.

 Qual a situação das modalidades olímpicas e quais os principais investimentos que estão sendo feitos pelo senhor à frente do COB?

Vou te dar um dado muito claro em números. Esse ano de 2022 serão investidos 10% a mais do que foi investido no ano passado. E assim tem sido desde 2018 quando efetivamente eu comecei a presidência dentro do COB. Esse ano... Em descentralização para as confederações, que aí capilariza para as demais organizações, foram R$165 milhões injetados na atividade fim. Nas equipes e nos atletas.

Além disso, nós temos tantos outros milhões aplicados no plano de reparação olímpica que aí somos nós que definimos junto com as confederações o que irá fazer. A questão do recurso ordinário que a gente chama para as confederações é esse montante de R$165 milhões.

Salvador sediou o segundo Congresso Olímpico Brasileiro com um sucesso de público e com ingressos esgotados. De que forma o senhor acredita que o Comitê conseguiu evoluir do primeiro evento para esse?

Nós tínhamos uma expectativa de que fosse um sucesso realmente. É a primeira vez que a Bahia recebe um evento desse porte. O Nordeste... Tem uma política do Comitê Olímpico de descentralização. Então foi um evento espetacular, o local maravilhoso, o Centro de Convenções excepcional. Atendeu plenamente às nossas expectativas.

O tema do Congresso foi o planejamento referencial de futuro para o esporte olímpico, e isso representa a importância de preparar e investir nos nossos atletas. Esse é o principal foco até Paris 2024?

Sem dúvida. O planejamento é a mola mestra de todo o processo. Sem planejamento, você não vai a lugar algum. Se você não planeja, se você não diz aonde quer chegar, qualquer caminho vai servir. Já dizem. Esse foi o objetivo do Congresso, trazendo experts não só nacionais como internacionais, e atendendo a toda a comunidade esportiva. Não só atletas, treinadores, profissionais da educação física, cientistas do esporte e os gestores. Então foi aqui que nós demos essa arrancada de forma oficial, porque já estamos fazendo o Paris 2024 já tem dois anos.

Como incentivar também o protagonismo feminino com relação aos esportes?

O olhar do COB é de igualdade, equidade. E eu te digo o seguinte. Aliás, nós estamos em desvantagem, porque o Comitê Olímpico do Brasil tem mais mulheres colaboradores do que homens. Então nós temos essa visão, esse foco de oportunizar questões de igualdade para ambos. 

Como aconteceu no futebol com a FIFA, a recomendação do COI é banir atletas russos em eventos olímpicos internacionais. Assim como a punição de só poder competir com bandeira do Comitê Olímpico da Rússia desde 2014.VO senhor acha que essa é uma maneira mais justa de aplicar punições ao país, ou é culpabilizar os atletas russos por uma culpa que eles não têm?

A questão da punição da Rússia não competir nos jogos olímpicos, ou competir com a bandeira do Comitê Olímpico Russo se dá de forma diferente. Foi por questão de dopping, dopagem, uma questão de fair play. Você não pode responsabilizar todos os atletas por essas questões. Nós somos muito rígidos nesses aspectos, na questão de tolerância zero com o dopping. Isso foi uma medida do Comitê Olímpico Internacional que já havia adotado em outras situações. Essa questão exata com relação à polarização da guerra existente no momento, que a gente espera que isso termine, porque o movimento olímpico trata da relação entre os povos. Nós não temos inimigos, nós temos adversários esportivos. A solidariedade, a amizade, o respeito, são bases do movimento olímpico, da humanidade. O movimento olímpico trabalha exatamente em cima da solidariedade, da humanidade. Enfim. Nós trabalhamos nesse sentido. Então em uma situação dessa, quando se fala em proibir os atletas de participar... O Comitê Olímpico do Brasil recomenda fortemente às nossas entidades esportivas que não participem de eventos na Rússia, evidentemente que lá ninguém nem entra, mas inclusive nos países limítrofes por questão de segurança dos atletas. Não é questão de dopping. Não. É questão de “não vá lá para você não levar tiro”. Então não vá. É a nossa orientação nesse sentido. E a forma de você fazer isso aí, os atletas não participarem, é porque pela força dos atletas eles vão se sentir prejudicados e vão pressionar internamente. É o efeito contrário, entendeu? O dopping está fazendo contra ele. É uma sabotagem, ele está furando o jogo, está se prejudicando. E aí você não permite participar pelo país, pela bandeira do Comitê Olímpico dele. Nesse caso, quando você diz assim “aqui não entra”. Porque os países estão em guerra. O sentido não é punir os atletas. O sentido é usar a força desses atletas para que eles pressionem internamente os seus políticos, seus dirigentes para encerrarem a guerra. É nesse sentido.

Depois das Olimpíadas no Rio a gente viu muita politização sobre o assunto e acabou entrando também na seara política. Existe algum fantasma dos jogos olímpicos do Rio?

Não. Não existe nenhum fantasma dos jogos olímpicos do Rio. O Comitê Olímpico passou por todas as reformas necessárias. Aliás, o legado nosso é a governança. Deixaremos um legado de governança, transparência, austeridade. Isso tudo fez com que o Comitê Olímpico recuperasse a sua imagem positiva e credibilidade com essas três palavrinhas, esses três pilares. A austeridade: fizemos cortes, otimizamos recursos. A transparência: tudo no Comitê Olímpico é muito transparente. Você quer saber o que uma Confederação recebe? Está lá no nosso portal. Quais os programas que nós aprovamos? Está lá no portal. Resultados de licitações, enfim... Tudo isso é muito claro. E a meritocracia. Hoje os recursos são descentralizados para as confederações através de critérios. São critérios esportivos, através de resultados, mas tem critérios também de governança. A prestação de contas deles é analisada e tem pontuação. Nós temos um programa chamado GET (Gestão, Ética e Transparência) que tem uma pontuação para saber se aquela confederação está dentro dos padrões de boa governança. E não é só cobrar deles não. Nós ensinamos como fazer, transferimos conhecimento. E aí depois é que vem o resultado.

Esse evento desse final de semana em Salvador mostrou a importância de profissionalizar, de construir para obter resultados positivos no esporte?

Sem dúvida. O termo principal é exatamente esse. Planejamento. É por isso que nós trouxemos aqui dirigentes esportivos para eles verem o que está acontecendo no mundo, e que sirva como exemplo. A questão da governança mudou muito no país. No entendimento de que tem que ser uma administração voltada para os atletas, de forma transparente, tem que ter austeridade. Isso você pode ter certeza que ao longo desses poucos anos evoluiu muito em todos os segmentos esportivos brasileiros.

Para finalizar, qual o maior desafio para crescer e obter novos resultados positivos na próxima Olimpíada?

Eu digo para você o seguinte. É muito difícil chegar em um patamar alto, e é muito mais difícil você superar. Mas quando eu botei um time para trabalhar em relação a Tóquio, eu falei: olha, a Olimpíada Rio 2016 só serve como referência para cima. E é o que eu vou fazer para Paris também. Tem que ser para cima.

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