Vendas de imóveis de 6 a 35 metros quadrados têm alta de 30% este ano

Moradia compacta já é uma realidade em grandes centros, como São Paulo, e uma tendência em Salvador

Publicado sábado, 06 de agosto de 2022 às 00:30 h | Atualizado em 09/08/2022, 09:43 | Autor: Fábio Bittencourt e Júlia Isabela*
Móveis personalizados são fundamentais na decoração de imóveis compactos
Móveis personalizados são fundamentais na decoração de imóveis compactos -

As vendas de imóveis menores e com um dormitório aumentaram 30% este ano no Brasil, de acordo com levantamento da Câmara Brasileira Indústria da Construção (CBIC). Se espalhando pelo país, a tendência no comportamento chegou em Salvador. Diante da escassez de terreno, a alta demanda por moradia em área central, além da grana mais curta, o mercado local incorporou os chamados microapartamentos com a proposta de oferecer preço mais em conta, aliado à localização estratégica. Estamos falando de unidade de até seis metros quadrados (estúdio).

Sim, é possível “sobreviver” em uma casa exígua, dizem os especialistas. Desde que o espaço seja otimizado, contam. E a saída  começa com bom planejamento, e uso de marcenaria personalizada, com móveis dinâmicos, multifuncionais e feitos sob medida.  

Diretor na Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário na Bahia (Ademi), Marcos Vieira Lima, da MVL Incorporadora, estima que foram lançadas ao menos cinco mil imóveis compactos em Salvador no período compreendido entre 2020 e 2022. E diz que o modelo é uma boa opção para investidor, morador solteiro ou casal, “que passe mais tempo fora de casa”.

“A grande vantagem é que eles têm um preço final mais barato”, afirma Vieira. “E, pelo tamanho, têm um custo com decoração muito menor, então você consegue pegar um apartamento desse, de 22 m², e fazer uma boa decoração, tornando-o prazeroso de morar”, diz.

Não dá para ter mais do que o essencial, porém.

“Os microapartamentos são voltados para comportar apenas o essencial do dia a dia, já que possuem espaço bem limitado”, fala, explicando que geralmente as tipologias variam entre estúdio e quarto e sala. O estúdio varia de 6 m² a 22 m², e o quarto e sala, entre 26 m² e 35 m². 

Enquanto a capital paulista possui o menor apartamento da América Latina, com 10 m², o menor estúdio em Salvador tem 16 m². 

O sócio da MVL destaca que a infraestrutura das áreas comuns dos prédios é o “grande trunfo” dos produtos. “Geralmente tem piscina, espaço para guardar encomendas frias e secas, lavanderia, espaço gourmet. Alguns têm coworking. São empreendimentos completos, e as pessoas usam o apartamento para dormir e a infraestrutura do prédio para receber pessoas e para se divertir”, afirma. 

Marcenaria planejada

O arquiteto Thiago Manarelli, do escritório Manarelli Guimarães, pontua que somente com a marcenaria padrão não é possível decorar bem um microapartamento. Segundo ele, tudo precisa ser bem calculado para, de acordo com demandas específicas do proprietário do imóvel, projetar o espaço de forma satisfatória. O que só é possível com uma marcenaria personalizada, diz.

“Algumas coisas precisam ter dinâmica, não devem ser estáticas. Por exemplo, a mesa não estar ali o tempo todo, ela surge com um mecanismo que a marcenaria permite, para mover, abrir e fechar, mostrar ou esconder. A cadeira pode entrar para debaixo da mesa, a cama pode levantar e, com isso, você ter um espaço de uso maior, porque uma cama toma um espaço muito grande em um apartamento. Então, a área útil tem que ser pensada de um jeito que seja possível otimizar esses espaços”, fala Manarelli.

Para o arquiteto, quanto menor a unidade, mais necessária é a ajuda de um profissional de arquitetura na hora de montar o ambiente.   Ele também ressalta a importância do minimalismo (mínimo consumo)  para   conseguir se adptar a um  espaço pequeno, já que não será permitido o acúmulo, ou guardar uma vasta quantidade de utensílios “desnecessários”. Esse tipo de empreendimento não comporta armários largos.

“Quanto mais uma cidade grande, uma capital, onde grande parte das pessoas passam o dia na rua, trabalham na rua, almoçam na rua, vivem a cidade de forma direta, é mais fácil delas morarem em um apartamento desse tamanho, porque elas voltam para casa para descansar, dormir, e no dia seguinte sair novamente”, afirma Manarelli.

A arquiteta especializada em design de interiores Lucia Molinari ressalta que, dentro de uma micro casa, o ideal é receber apenas pessoas bem próximas, pois não há muita área disponível e nem privacidade para todos, mas que nas áreas comuns se possa convidar uma diversidade maior de amigos ou conhecidos. A arquiteta conta como conseguir alguma “reserva” no lugar, sem comprometer o espaço. 

“É difícil ter separações, porém é possível, a depender do tamanho, trabalhar com biombos e painéis para dividir os cômodos, mas com a condição de que possam ser recolhidos depois”, fala Lucia.

Vieira Lima conta que a MVL lançou dois empreendimentos de apartamentos supercompactos.  “Um foi o Barra Conceito, que lançamos em 2020, na Barra, 100% comercializado, com os estúdios e quartos e salas vendidos em 24 horas. E, em 2021, lançamos o RV Conceito, no Rio Vermelho, empreendimento com essas mesmas características, que hoje já está chegando a 50% de comercialização”.

Com relação ao uso de cores claras para dar a impressão de mais espaço, o arquiteto Manarelli discorda de que a prática seja uma regra. Para ele, o mais importante é que as cores reflitam a personalidade e o gosto do cliente, e não necessariamente tenham que ser somente branco e bege. 

“Às vezes o cliente é médico, por exemplo. Ele trabalha em um ambiente branco, bege, a última coisa que ele vai querer na casa dele é isso, ele já passa muito tempo na presença dessas cores”, pontua. 

Já Lucia Molinari explica que o uso de tons claros ajuda na manutenção de um ambiente harmônico e calmo, haja vista que o espaço será único, para comer, dormir e estudar ou trabalhar. No entanto, não é necessário abrir mão de cores mais fortes, e que o cliente possa desejar ter em casa. 

“A base pode ser em tons neutros, mas essa cor que o cliente gosta estará nos objetos, na decoração, para que esse apartamento também não perca a personalidade”, explica Lucia. 

Marcos Vieira Lima acredita que a tendência veio para ficar. “Por conta da praticidade e baixo custo”. Thiago Manarelli diz, contudo, que a pandemia, pode ter alterado esse plano.

*Sob a supervisão da editora Cassandra Barteló

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