"A Barra pode ser um case de sucesso replicável", diz Waltson Campos

Publicado segunda-feira, 01 de novembro de 2021 às 06:06 h | Atualizado em 31/10/2021, 18:41 | Autor: Gilson Jorge

Carioca, o bacharel em comunicação Waltson Campos mora na Barra desde que chegou a Salvador, em 2006. E mal desarrumou as malas já foi se enturmando com vizinhos da incipiente Associação dos Moradores e Amigos da Barra (Amabarra), que seria formalizada em 2008. “Adoro esse bairro, por isso me envolvi com a associação. Tinha isso muito presente no Rio, os moradores estarem associados buscando melhorar a qualidade de vida do bairro”. Depois de dois mandatos como presidente da Amabarra, Waltson ocupa atualmente a diretoria de comunicação, marketing e relações públicas. Nesta entrevista, Waltson, que classifica os assassinatos no bairro como “pontuais”, fala da relação  com o poder público, a mudança de perfil dos moradores, a fama de elitista e a nova verticalização, com a construção de prédios de até 26 andares e sem garagem. E diz que a maior preocupação é com pessoas que querem aproveitar a desordem para dominar o bairro e obter lucro.

Na semana passada, houve uma audiência pública sobre o bairro. Para a Amabarra, o que as autoridades públicas devem privilegiar em termos de políticas?

A audiência não foi feita para discutir as questões de desordenamento e segurança. Mas, desde 2013, quando houve a primeira obra de requalificação do bairro, a gente cobrou muito do prefeito na época a participação popular. A gente achava que a falta dessa participação nas tomadas de decisão poderia trazer problemas para o bairro. E foi exatamente o que aconteceu. Algumas decisões tomadas no passado estão aparecendo agora. A questão do desordenamento não é uma questão de agora, da pandemia. Sempre existiu, mas com a pandemia agravou muito. Houve essa pausa por causa da covid-19, mas a gente estava lutando sempre, indo à Câmara, cobrando. Conversando muito com os secretários. Quanto a isso, a gente não tem o que reclamar porque a prefeitura sempre nos atendeu. Depois das críticas, ela passou a adotar outra postura com os moradores. A reabertura fez com que as pessoas viessem mais para o bairro. Isso é muito natural, porque a Barra é um bairro cênico. Você tem belezas que não se encontram em lugar algum do mundo. Tem muita coisa legal para fazer. Quanto a isso, ótimo! Quanto mais pessoas vindo para a Barra, melhor. O que a gente não quer é que algumas pessoas se aproveitem da desordem e comecem a querer dominar o bairro. A gente começa a perceber que não é só uma desordem urbana, falta de educação, que existe também. Mas não é só isso, é alguma coisa que está por trás. Você começa a ver que tem vários estabelecimentos surgindo do nada no bairro, que começam a concorrer com os estabelecimentos tradicionais e isso começou a chamar a atenção da gente e a questionar qual é realmente a vocação do bairro. A Barra é lembrada só pela carnavalização e pelo tudo pode, ou a Barra tem outras vocações, como o turismo de praia, o náutico, o lazer o turismo histórico com as fortificações, compras e passeios? Tem o turismo de farra, atrelado ao Carnaval, que perpetua o ano todo. E esse turismo está alimentando os negócios que estão se implantando, trazendo problemas sérios para os moradores. Esse tipo de negócio ganha com a desordem.

Quem aposta na folia durante 24 horas, todos os dias…

Isso. Quando você tem leis municipais que dizem que é proibida a poluição sonora. Por que existe uma lei? Porque é necessário para regulamentar. Se o cidadão ficar exposto durante três horas seguidas à poluição sonora, ele vai ter problemas de saúde. Isso já é comprovado cientificamente. Então, dependendo do desordenamento, você traz poluição sonora, desrespeito com a coletividade. Em qualquer lugar do mundo você respeita o ambiente local. Por que eu vou sujar a praia? Por que eu vou urinar no muro de um estabelecimento? Por que eu vou fazer baderna? Vou para me divertir, conhecer pessoas. Interagir e não destruir. As pessoas que vieram em busca disso é que estão começando a dominar.

Pode dar exemplos?

Posso. Você tem uma praia como o Porto da Barra. Vamos focar ali que hoje é o epicentro da questão. É uma praia para você vir com os amigos, curtir, nadar, tomar sua cervejinha, nada impede que você possa usufruir daquele mar. Agora, quando você de repente começa a trazer pessoas e começa a achar que a praia do Porto da Barra dá para fazer um churrasco, colocar seu som, consumir descaradamente uma quantidade absurda de bebidas e outras coisas, isso aí começa a afetar o coletivo, porque a pessoa ao seu lado veio para curtir a praia. Está querendo, mas não dá porque aquilo está incomodando. Quando você começa a ver várias pessoas fazendo as mesmas coisas, aquilo acaba  descambando para o que está ocorrendo agora, que é a questão da violência. Por que? Porque as facções criminosas estão aí e querem disputar um espaço concorrido. Se há muita gente, a probabilidade de ele ganhar dinheiro é muito maior. Então, o que ele vai fazer? Ele vai concorrer. Aí você começa a ver esses casos de violências pontuais que correm no bairro. Por que eu falo que são pontuais? Porque todos os casos ocorridos tinham a ver com o tráfico.

Isso já está definido…

Nós aproveitamos que houve a mudança no comando da 11ª (CIPM) e a mudança de delegada (14ª Delegacia) e sentamos para conversar e tentar entender por que estava ocorrendo. Pensamos, então, em fazer ações que também envolvessem a polícia, mas chamar as secretarias de Ordem Pública, Transalvador e Subprefeitura bairro. Quando chamamos as secretarias, a gente resolveu elaborar planos de ação. Começar a pensar em primeiro atacar as aglomerações que estão acontecendo, até porque existe um decreto municipal que diz que é proibido aglomerar. Quem fez isso foi a PM. Depois, fizemos outras reuniões para entender que tipo de desordenamento era esse. Era o de barraqueiros na praia do Porto? Como só ambulantes lá em cima? E os depósitos de bebida? Para não parecer uma coisa segmentada, as ações foram para que todos os estabelecimentos, formais ou informais, autorizados ou não, sofressem as mesmas ações. Depois, fomos à Câmara Municipal falar com o Ouvidor Geral para ele entender as demandas. Fomos falar com os vereadores na Plenária da Câmara Municipal para que fôssemos ouvidos. A Associação quer que a sociedade saiba o que está acontecendo, não fique sabendo só uma parte pelos jornais. Depois disso, o próximo passo seria conversar com o prefeito e convocar os moradores para uma audiência pública. Só que estamos numa pandemia e isso não é tão simples. Montamos uma audiência [No Grande Hotel da Barra] para minimizar os impactos, obedecendo todos os protocolos. Estavam presentes não só os moradores como representantes de todos os segmentos comerciais do bairro. Da baiana do acarajé e do vendedor de coco ao hoteleiro. Agora é cobrar das ações que aconteçam. E estão acontecendo. Todos os arrombadores que atuavam aqui na Barra foram presos. Dos cinco homicídios cometidos na Barra, a delegacia elucidou três. Dois ainda estão sendo investigados. O último caso de arrombamento que teve [de um açougue] a imprensa fez uma crítica muito errada do trabalho da polícia.  Criticaram como se esse arrombamento tivesse acontecido porque tudo estava sendo direcionado para o Porto. Acontece que o cidadão estava dentro do estabelecimento. Ele não arrombou de fora para dentro. Ele estava dentro e quando todo mundo foi embora ele fez o que queria fazer e arrombou para sair.

Foi um funcionário?

Não, foi uma pessoa que conseguiu entrar no estabelecimento. Ela [lê mensagem da delegada no WhatsApp] diz assim: foi falha de segurança do estabelecimento, que deixou o ladrão entrar enquanto estava em funcionamento. Aí a imprensa a coloca...

É um pouco estranho isso.

Mas é o que estou te falando, são os casos que a gente tem que apurar. Tanto a Polícia Civil quanto a Militar estão muito focadas em tentar acabar com esses delitos.

Para quem não é do bairro, algumas posturas encampadas pelos moradores soam como aversão à presença de pobres.

A gente tem essa preocupação. Há milhares de pessoas diferentes. A associação é apartidária e totalmente contrária a qualquer tipo de preconceito, qualquer um que você possa imaginar, a gente é contrário. A gente tem que entender que as pessoas são fundamentais para o crescimento de uma sociedade. Tem moradores que já estão num nível de estresse que já não aceitam diálogo, querem porteira fechada. É o direito dele pensar. Na audiência eu coloquei isso bem claro, não é reduzindo ônibus, não é fechando portas que se resolvem esses problemas. A Barra, por ser essa península, pode ser um case de sucesso replicável em todas as comunidades. A gente quer o bem estar de todos, de moradores, dos comerciantes, frequentadores, do turista, do cara que trabalha aqui. Não adianta eu estar bem aqui e o cidadão ali na esquina sofrendo algum abuso. O que somos contra é o modelo do Carnaval. Pegar dois milhões de pessoas e botar num bairro de 17 mil habitantes.

Houve aqui o projeto Espicha Verão, há 10 anos, com shows de MPB na praia. Quando terminava, os bares e restaurantes da Orla ficavam lotados. Por pressão dos moradores, o projeto foi transferido para o centro. Não foi um erro da Amabarra?

Não, vou te falar por quê. Eu não fazia parte da associação na época, mas quis entender esse processo. Lá atrás, antes do Espicha Verão, tinha a Lavagem do Porto. Era uma coisa simples. Quando é uma manifestação espontânea, cultural, você pega um grupo de pessoas e resolve fazer uma coisa legal, perfeito. Agora, quando você começa a perceber que tem todo um maquinário por trás daquilo com intenção de ganhar dinheiro, porque nessa lavagem as pessoas começaram a separar as pessoas em cordas. Essa separação começou a atrair outras pessoas que queriam ganhar dinheiro. Isso a gente é contra. Quando veio o Espicha Verão, a ideia inicial era ótima com o projeto Som no Porto. Só que a prefeitura perde um pouco a dosagem. Está dando certo assim e começa a atrair mais gente, mais gente, mas a estrutura é a mesma. Começou a ter um maior consumo de drogas, um maior número de deterioração do patrimônio público. Não tem banheiro público na Barra. No dia seguinte, a praia estava cheia de lixo... aí começou a incomodar. Você vai no Porto da Barra hoje no final de tarde tem lá 600 pessoas aglomeradas. Elas não estão nos bares, estão nas balaustradas. O lixo delas precisa ser jogado em algum lugar. Precisa de um banheiro, o bar não vai deixar, você vai se virar sem estrutura. A pessoa que foi lá com uma intenção já não está mais preocupada com o coletivo depois de quatro cervejas na cabeça. Ela não quer saber daquela arvorezinha que a gente (Amabarra) está regando, vai lá quebrar. A gente não quer proibir as pessoas de irem à balaustrada, mas fazer entender que há uma necessidade de respeitar o ambiente.

Impressiona a quantidade de edifícios em construção no bairro, atualmente. Como a Barra vê a verticalização da paisagem?

É irônico porque alguns empreendimentos vendem a Barra como bairro butique. O que é butique? Aí já não sei (risos). A Barra foi preparada para isso, lá atrás. Numa reunião na Fundação Mário Leal Ferreira foi dito que a Barra estava passando por uma fase de declínio, com os moradores mais idosos morrendo e os mais novos indo embora. Com a carnavalização do bairro, os moradores queriam outros ares. Qual seria a saída? Povoar o bairro trazendo eventos e empreendimentos imobiliários. Mas de que tipo? Aí foi onde, de novo, erraram a mão. Empreendimento de 26 metros quadrados não traz família. Que tipo de cliente você vai ter? Um rapaz ou moça solteira ou pessoas que vão alugar por uma temporada e vão embora. Essas pessoas não estão preocupadas com o bairro, com o açougue, com o verdureiro, com a baiana de acarajé. Você traz para o bairro uma população flutuante que vai depender de festas e eventos. E se não tivesse o Carnaval aqui? Você tem gente comprando apartamento de 26 metros quadrados por R$ 350 mil. Precisa ter muito dinheiro para fazer isso. Aí você descobre que esse empreendimento não tem garagem.

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