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Aumento do consumo de produtos vegetarianos potencializa empreendimentos

Publicado às | Atualizado em 09/10/2021, 22:21 | Autor: Gilson Jorge
Na foto, Hanna Soares, do Veganas Baianas | Foto: Felipe Iruatã / Ag A Tarde
Na foto, Hanna Soares, do Veganas Baianas | Foto: Felipe Iruatã / Ag A Tarde -
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O consumo de carne vermelha no Brasil atingiu este ano o nível mais baixo desde 1996, quando a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) começou a monitorar a venda do produto. Segundo o Datafolha, 67% dos brasileiros reduziram a ingestão de carne bovina em comparação ao ano passado. Uma queda que está muito relacionada ao aumento de preços. As fotos de pessoas pobres fazendo fila para conseguir ossos em açougues correram o mundo.

Mas também tem aumentado o número de pessoas que, mesmo podendo pagar por um bom pedaço de filé, está abandonando parcial ou totalmente as proteínas animais. Seja para cuidar da saúde, seja em favor do meio ambiente ou porque as imagens de animais sendo maltratados e torturados pela indústria alimentícia tornam de difícil digestão a ideia de comer um bichinho que, vivo, parece tão fofinho, especialmente para os mais jovens.

Segundo a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), 14% dos cidadãos do país declaram ter algum grau de restrição ao consumo de carne por vontade própria. Como entrada, vamos às definições. O vegetarianismo estrito, segundo a própria SVB, é a exclusão do cardápio de qualquer alimento de origem animal.

Mas aí vêm as exceções: adeptos do ovolactovegetarianismo utilizam ovos, leite e laticínios. O lactovegeterianismo usa leite e derivados, enquanto o ovovegetarianismo aceita somente os ovos. Há ainda o flexitarianismo, ou vegetarianismo flex, que é a adoção parcial da dieta vegetariana com escapadas em finais de semana, festas ou quando der na telha. E o veganismo é uma filosofia de vida que abole tudo o que causa sofrimento aos animais, o que inclui o uso de cosméticos, que normalmente são testados nos bichinhos.

Em Salvador, alguns empreendimentos voltados para a alimentação vegetariana estão expandindo o negócio. A biomédica carioca Hanna Soares, do Veganas Baianas, que fornece quentinhas por delivery, contratou recentemente o seu primeiro funcionário e não pensa mais em procurar trabalho em sua área de formação.

Ela veio morar em Salvador em 2016. Não conseguiu emprego na área de imediato e durante um evento médico percebeu que não eram servidas opções de comida vegetariana. Junto com uma amiga, começou a vender na Feira da Cidade e para entrega em casa. Depois de três meses, a empreitada se mostrou viável, mas sua amiga decidiu sair do Brasil e ela tocou o negócio sozinha.

Criado há 19 anos para oferecer lanches e refeições saudáveis no centro da cidade, o Health Valley abriu recentemente uma lanchonete na Rua Direita da Piedade, quase em frente à sede, tem uma unidade na Barra e há seis meses inaugurou outra em Vilas.

“A maior preocupação das pessoas é com a alimentação saudável”, acredita a paulista Maria Helena Lulio, casada com o taiwanês Hu Zi Pan, um dos sócios da empresa, que não domina o português. O casal divide a administração da rede com o outro sócio, o ganês Johnny Row Quashi. Seis meses de administração para o casal e seis meses para Quashi. Vida saudável, a propósito, não se resume à alimentação.

Maria Helena aponta um crescimento na frequência de comerciários da Avenida Sete tanto no restaurante original, quanto na lojinha ao lado. Um dos artigos mais procurados, segundo o casal, é o trigo integral, importado do Rio Grande do Sul.

Também em crescimento, a B-Vegan Gastronomia, com várias opções, voltou a operar a unidade da Pituba no mês passado. A loja foi aberta pouco antes da pandemia, mas logo teve que fechar. A unidade da Barra, fundada em 2016 e que há três anos ocupa uma casa maior, com área externa, voltou a atender ao público mais cedo.

Leo Torres, o fundador, deixou de comer carne ainda na adolescência, mas só radicalizou a mudança no cardápio em 2015, depois de participar do Vegfest, em Recife. Cozinheiro desde 2009, com sete anos de experiência na Europa, começou a produzir pães especiais e, quando surgiu o boom das hamburguerias em Salvador, viu a oportunidade de colocar no recheio do pão que fabricava um hamburguer vegano.

“Nunca tive a preocupação de imitar o sabor da carne”, explica Torres, ressaltando que essa tendência de trazer uma textura, cheiro e sabor próximos da carne bovina chegaria ao Brasil em 2019. Atualmente, o empresário emprega 15 pessoas.

Festas

Antes da pandemia, as festas em família frequentadas pela servidora pública Lívia Malheiros, 31 anos, costumavam reunir em torno de 30 pessoas, em churrascos, feijoadas ou aniversários com as mesas repletas de salgadinhos com recheio de algum tipo de carne.

Desde que se decidiu a reduzir o consumo desse item, há cinco anos, ela passou a perguntar com antecedência o que vai ser servido e levar no dia uma bandeja com seus petiscos veganos. Como ratatouille e coxinha de jaca para a ceia de Natal e, para os churrascos, legumes, cogumelos e abacaxi para assar na brasa.

O que começou a mudar os seus hábitos alimentares foi a preocupação com a sustentabilidade e o avanço do desmatamento para a plantação de soja, ração bovina. Com o tempo, a divulgação de vídeos em que porcos, galinhas e outras espécies aparecem maltratados antes do abate ajudou Lívia a diminuir também o consumo de carne suína, ovos de granja e laticínios.

“Sempre que vejo imagens de animais confinados em gaiolas minúsculas sinto um mal-estar tremendo. Isso reforça minha decisão”, explica Lívia, que não defende a abolição da venda de carne, mas a redução dos atuais níveis de consumo.

Um estudo feito em 2018 pelo Laboratório de Pesquisas Bovinas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) apontou que, naquele ano, os brasileiros comeram em média 100 gramas de carne vermelha por dia. Uma quantidade aceitável, do ponto de vista da saúde.

Mas, levando-se em conta a desigualdade social, pode-se dizer que enquanto há pessoas que, neste momento, vão atrás dos ossos, é presumível que haja quem consuma até um quilo de carne no churrasco do fim de semana.

Se a quantidade de carne vermelha a ser mastigada é uma decisão individual sobre a sua saúde, a quantidade total de bovinos criados pode ser uma ameaça coletiva. Os gases desses animais têm efeito comprovado na destruição da camada de ozônio, o que acelera as mudanças climáticas. E a soja que vai sendo plantada Brasil afora tem tudo a ver com isso.

Efeito estufa

Os grãos são de difícil digestão para os bois, o que aumenta a produção de gases intestinais. Vacas arrotam metano e, nos Estados Unidos, respondem por 25% das emissões de gases que causam o efeito estufa, segundo a Agência de Proteção Ambiental daquele país. Há estudos que indicam que uma só vaca produz mais gases do que um automóvel de passeio.

No mesmo ano de 2018, o Greenpeace lançou o relatório Less is More[Menos é mais], que prega a redução gradual do consumo de carnes e laticínios até 2050, como um esforço adicional para reduzir as emissões.

Ninguém acredita que seja realista um mundo em que os humanos se tornem todos vegetarianos. Mas o costume de comer carne não seria tão prejudicial ao planeta se a humanidade mantivesse os procedimentos padrões da vida selvagem de matar um bicho apenas para comer (felizmente, as outras espécies não descobriram o benefício do fogo e dos temperos). Mas o sistema industrial transformou a pecuária num produto de exportação em benefício de grandes latifúndios.

Aliás, esta semana o Congresso Americano ameaçou vetar a importação de produtos brasileiros suspeitos de ligação com o desmatamento florestal.

Mas, afinal de contas, o corpo humano pode abrir mão da carne vermelha sem prejuízo para o seu funcionamento? Mestre em alimentos, nutrição e saúde pela Ufba, a nutricionista Joseni França Oliveira Lima considera que sim. “Tem toda a condição. O nosso corpo precisa de partículas dos alimentos, como os aminoácidos, que estão presentes tanto nos músculos que o animal produz a partir do que ele come, os vegetais, e em maior oferta nas leguminosas e nas oleaginosas”, afirma.

Joseni destaca que a maior concentração de aminoácidos está nos músculos e nos derivados de leite. E, proporcionalmente, estão melhor concentrados nos ovos. ”Ali vai se formar um pintinho. As pessoas não param para pensar que uma galinha come milho, se desenvolve, produz um óvulo que quando aquecido vai gerar um ser vivo”, destaca a nutricionista que se declara ovolactovegetariana. Quanto ao consumo dos frangos, ela faz restrições em função da maneira como eles são criados para o abate. “Eu não creio que os frangos sirvam de alimento de forma apropriada porque eles estão doentes”, declara.

A nutricionista, que aderiu ao vegetarianismo por questão de saúde, convenceu a filha, hoje com 15 anos, a não comer carne desde a infância, apelando para o amor aos animais. “Ela tinha um peixinho, um gatinho e olhava para o bezerro com outro olhar. Ela tem 1,74m. Eu sou baixinha, tenho 1,50m e comi de tudo”, declara, para ressaltar sua crença de que a falta de proteína animal na dieta não afetou o desenvolvimento da menina.

Organismo

Uma das preocupações de quem pretende se tornar vegetariano é a deficiência de vitamina B12, o que pode levar à anemia. “A B12, na verdade, está presente em bactérias gastrointestinais e na pele dos animais. Mas o fato de uma pessoa comer carne não significa que o organismo vai produzir a vitamina, isso depende de outros fatores também. O consumo de bebidas alcoólicas pode inibir a produção de vitaminas”, diz a nutricionista. Ela recomenda que todo mundo, vegetariano ou não, faça uma análise anual para verificar os níveis de vitamina B12 no sangue.

Em diferentes níveis de adesão, o vegetarianismo vai conquistando cada vez mais jovens. Lívia, que se quisesse poderia se encaixar na definição de flexitariana, não gosta de trazer essa discussão à mesa quando se senta com amigos em um restaurante.

Até porque não quer que lhe apontem o dedo quando por um acaso resolver beliscar algum canapé que contenha carne. Mas sem dúvida é parte de uma nova leva de consumidores que está obrigando o aumento da oferta de produtos vegetarianos.

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