Balé Teatro Castro Alves completa 40 anos no início do mês de abril

Publicado domingo, 21 de março de 2021 às 06:04 h | Atualizado em 20/03/2021, 21:08 | Autor: Yumi Kuwano

O Balé Teatro Castro Alves (BTCA), 5ª companhia pública de dança do Brasil e a primeira do Norte e Nordeste completa 40 anos no próximo dia 1º de abril. De verdade. Portanto, celebrar quatro décadas de existência, que o diretor artístico Wanderley Meira considera a idade da maturidade, deveria ser um grande evento.

Mas, com a pandemia, a programação vai acontecer em outros formatos. A quarentena, como não poderia deixar de ser, mudou toda a dinâmica de trabalho e rotinas dos artistas do balé, de forma nunca imaginada.

Ao longo desses anos da companhia, muitos dançarinos passaram por ela. Mas alguns permaneceram. Quatro, para ser mais exata. Konstanze Mello é uma dessas pessoas. Com 60 anos, ela fez parte do primeiro grupo a fazer audições para entrar na companhia, logo quando foi criada. É até difícil separar as histórias.

Konstanze começou a estudar balé porque queria fazer teatro e, como sua mãe não encontrou uma escola para crianças, entrou em uma de balé, a Ebateca, que funcionava na época no Teatro Castro Alves. Aos 17 anos, entrou no Balé Brasileiro da Bahia, fazendo turnês pelo país e mundo afora. Foi assim que decidiu o que queria para a vida.

Dos momentos mais especiais e memoráveis, a bailarina destaca alguns e, ao passo que se orgulha da internacionalização do BTCA, ressalta a importância de percorrer o interior da Bahia. Lugares com pouca ou nenhuma estrutura para se fazer um espetáculo, mas com uma plateia ávida por cultura.

“Fomos para Ibirataia, uma cidadezinha muito pequena, e lá foi montado o espetáculo 1Por1Praum, de Jorge Vermelho, apresentado em cabines para apenas um espectador por vez. Chovia muito, com relâmpagos, e mesmo assim as pessoas não saíam da fila que não tinha nenhuma proteção, ansiosas para assistir”, lembra.

A ida para Nova Iorque, primeira viagem internacional do BTCA, em maio de 1992, também é lembrada com carinho por Konstanze: “A crítica foi muito boa e foi importante porque abriu muitas portas para nós”.

Entre os espetáculos favoritos, são muitos, mas ela destaca Ilhas, de Victor Navarro; Sanctus, de Luis Arrieta; e Essa tempestade, de Cláudio Bernardo. “A companhia sempre se destacou pelo vigor dos bailarinos, uma alegria do baiano, eu diria”.

A partir de 2009, de acordo com a bailarina, começa a segunda fase do BTCA, com um marco importante: os dançarinos deixaram de executar coreografias, principalmente, e passavam também a criá-las.

Imagem ilustrativa da imagem Balé Teatro Castro Alves completa 40 anos no início do mês de abril
Os bailarinos Fernanda Santana, Douglas Amaral e Konstanze Mello, no palco do TCA | Foto: Olga Leiria | Divulgação

Pluralidade e experiências

Após concluir o colégio, Konstanze entrou na faculdade de dança, mas foi jubilada por causa das faltas. Na época, as turnês eram constantes e foi difícil conciliar, mas aos 52 anos ela fez os testes e retornou para a Universidade Federal da Bahia, onde se formou dois anos depois. “Acho que as coisas aconteceram no tempo certo, porque naquela fase eu tinha que aproveitar, viajar”, analisa.

A diferença de idade na companhia é vista como um ponto positivo, mas já foi tema de discussões na Assembleia Legislativa, a partir de 2007, a respeito dos privilégios individuais para alguns bailarinos do corpo artístico. 

Ao que parece, tudo se resolveu e a experiência da idade faz os mais jovens se encantarem ainda mais com o balé. 

Formada em dança pela Ufba, Fernanda Santana, 33,  coleciona diferentes experiências no mundo da dança. Passou por companhias na Alemanha, Holanda e Portugal, dançando em grandes musicais como O Rei Leão. 

Para ela, que ingressou no BTCA no fim de 2019, e só começou a trabalhar em fevereiro do ano seguinte, ainda não deu para sentir a rotina de fazer parte da companhia pública de dança do seu estado, por causa da pandemia. 

“Logo quando começamos, duas semanas depois surgiu a necessidade do isolamento social e não podíamos mais nos reunir presencialmente. A minha experiência com o BTCA é mais online do que presencial. Estou bem ansiosa para sentir a rotina de verdade”, diz a artista. 

Konstanze também não esconde a saudade da plateia. Ela conta que em uma certa apresentação em Praga, quando terminaram o espetáculo Sanctus, a cortina se abriu e estavam todos de pé. Foram 13 minutos  de aplausos. “Ficamos tão emocionados que quando as cortinas se fecharam, choramos de emoção e nos abraçamos”. Hoje, ela lamenta não poder ouvir nem um aplauso sequer, com tudo acontecendo através de telas.

Plateia virtual

Mas nem com a pandemia, as atividades para os 33 bailarinos pararam. Além das aulas que acontecem todos os dias, foram realizadas muitas lives, bate-papos e as aulas abertas também continuam, agora, atingindo um público muito maior que, provavelmente, não poderia participar presencialmente por causa da distância.

A comemoração do aniversário de quatro décadas do BTCA será completamente online. Os planos eram grandes, para um mês intenso de trabalho e interação com a sociedade. “Tínhamos esperança de que fôssemos conseguir  fazer a transmissão de uma produção  com todos  no palco, mas veio a segunda onda de maneira tão forte que nos impossibilitou de fazer qualquer coisa presencial”, diz Meira.

A programação para o mês de abril ainda está sendo definida, mas algumas ações já estão na lista, como trazer professores convidados para movimentar as aulas abertas. Em parceria com a TVE, serão exibidos seis espetáculos, produzidos no ano passado no projeto Voltando aos Palcos.

O Domingo no TCA também será exibido na TVE e no YouTube, com o documentário Memórias em Movimento – A história do Balé Teatro Castro Alves, dirigido por Giovani Lima. “Além de bate-papos e campanhas para que o público possa interagir e contar os momentos que viveram com o balé”, conta o diretor, à frente do BTCA desde 2019.

Diversidade

“Eu sempre assisti ao BTCA, desde criança, mas não me sentia representada, não me via lá, achei que não era o meu perfil”, diz Fernanda Santana, que é negra. Por isso, ela dançou em algumas companhias locais e em 2010 foi morar na Alemanha. “Gosto de experiências de vida diferentes”, diz.

Ao morar em diversos países e estados como São Paulo, talvez tenha conquistado uma maturidade que a fez olhar de outra forma para o BTCA, como um espaço que pudesse de fato ocupar. “Voltei para Salvador, me inscrevi e participei da audição em 2019. Foi o timing perfeito para mim”.

Para Douglas Amaral, 33, fluminense que estudou e se formou em dança no Rio de Janeiro, o BTCA é um lugar de pluralidade, como nenhum outro. Segundo ele, há diversidade não só de faixas etárias, mas sobretudo de pensamento: “Existe muito diálogo entre os bailarinos e com a direção também, que é bem aberta. Pensamos de forma plural sobre dança e sobre o mundo. Tudo é muito rico”.

Ele veio a Salvador para concorrer a uma vaga na companhia. Ao ser aprovado, em 2014, mudou-se para a Bahia. Douglas destaca o ano de 2017 como um dos melhores da sua época, por causa do espetáculo Lub Dub, do qual participou do processo criativo.

“Com isso, vi que às vezes as coisas podem não dar muito certo, mas a companhia se une e dá as mãos. Isso me fez abrir a cabeça para muitas possibilidades”, conta o bailarino.

Durante os 14 anos em que Moacyr Gramacho está na direção do TCA, ele participou de muitas transformações e, na opinião dele, a mais importante foi a tomada de consciência social do corpo artístico. “É um grande privilégio ser bailarino e viver da dança, e fazer parte de uma companhia pública é algo maior ainda”, diz.

O diretor ressalta que o balé tem uma dimensão política fundamental na sociedade e que os bailarinos não são apenas reprodutores de coreografias, mas também criadores.  “Queremos estender essa experiência para todo o estado, ir para todos os lugares”.

Como em 2019, quando o BTCA percorreu muitas cidades, de acordo com ele, com ricas cenas de dança. “O objetivo é fazer com que a dança seja a grande escritura de transformação”.

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