Crônica - Insetos, assoalhos e outros brilhos

Publicado domingo, 14 de novembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 13/11/2021, 14:36 | Autor: ró-Ã*

A baratinha pulou de uma caixa onde eu trouxe ecologicamente as compras do supermercado. Gil Bakunin deu logo em cima, atendendo à sua natureza de gato, mas deixou que ela escapasse.

– Ô, Gil, seu abestalhado! Só que o bichinho tem menos de um ano de vida e muito a aprender. O vexame com Dona Baratinha foi esquecido, as necessidades do dia a dia se impondo.

Um mês se passou.

Quando foi três noites atrás, ói que vejo Gil na maior farra com um enorme baratão cascudo e encerado que nem os assoalhos das casas antigamente. Sim, existia até um eletrodoméstico chamado “enceradeira”, que se fazia deslizar sobre a cera previamente aplicada de quatro, com uma flanela, por toda a extensão do piso. Pensei logo: deve ser a tal saída da caixa do supermercado, agora adulta. Resolveu dar um rolé, toda pimpona e fúlgida, encontrou as patinhas de Gil prontas pra se divertirem.

Aconteceu, no entanto, que o duas vezes leso permitiu à danada escapar de novo. Sumiu debaixo do sofá, deixando ele com os bigodes mexendo e o sobrenome anarquizado.

No meio da tarde do dia seguinte, encontrei o cadáver ainda lustroso de barriga pra cima, que foi imediatamente encaminhado aos cuidados da Limpurb sem maiores pesares.

ARTES de Gil durante as manhãs que pra mim só existem para ser(em) dormidas? Prefiro o infinitivo impessoal, acho mais elegante. Ou morreu de morte natural, de velhice, falência múltipla de órgãos? Não sei qual o tempo de vida de uma barata. Ou não teria resistido às porradas da noite anterior? De todo modo, senti dó. Uma criatura de Deus, não tem culpa de ter nascido barata.

Assim penso a respeito dos psicopatas. Entendo que fazem vítimas, precisam pagar por isso, não podem ser deixados soltos torturando e matando as pessoas até estourarem de prazer. No entanto, não têm culpa de ter nascido psicopatas. Da mesma maneira, essas ideias infinitivas pessoais me vieram de berço, o que é que eu posso fazer?

Queria, na verdade, falar dos cupins, seres abjetos que só servem pra alimentar tamanduás, destruir portas e móveis e nos infernizar a vida.

Se deixassem de existir, seríamos mais felizes e aos tamanduás restariam as formigas. Viveriam como os gatos e cachorros domésticos, sem jamais variar a alimentação. Morro de pena. No tempo em que os assoalhos eram encerados, gato e cachorro de casa comiam o que sobrava do almoço e ninguém morria por isso. Mas a indústria, né? Cria necessidades e verdades absolutas, a gente acaba acreditando, inclusive porque é mais prático. Já são tantos os agastamentos a nos consumir alma e miolos, vamos deixar que os interesseiros decidam o que é bom.

Ah, mas se eu fosse uma retada como os cachorros grandes e os que a eles se opõem, porque donos do mundo igualmente querem ser! Uns ocupam países conforme seus apetites, assassinam milhares de gaiatos que não tiveram culpa de ter nascido ali. E os que os combatem enviam até os filhos em ataques suicidas – com o que não há entendimento possível: como lidar com esse argumento?

Gil está aqui ronronando em meu ouvido que os psicopatas individuais matam muito menos que os coletivos e obedecem a necessidades íntimas. Que, se pudesse, exterminaria os cupins do planeta, por amor a esta mamãe humana que se apaixonou de cara pela sua alegria listrada de amarelo e branco. Mas que cupins e baratas reinarão pela eternidade, a despeito dos inseticidas e das barrigas dos tamanduás. E os cachorros grandes estarão também presentes.

Pelos nossos, de todos, momentos de aflição e de ternura sempre aventureiros.

*É autora do livro Dor de facão & brevidades

Publicações relacionadas