Crônica - Michelangelo versus Fulana de Tal

Publicado domingo, 20 de junho de 2021 às 06:02 h | Atualizado em 19/06/2021, 20:36 | Autor: Ró-Ã

Agora já perdoou, mas por muitos anos esteve pouco se lixando para o autor da pintura no teto da Capela Sistina: desde que soube que Michelangelo Buonarroti havia denunciado Leonardo da Vinci como “pederasta” ou coisa que o valha, causando ao autor da Gioconda grandes tribulações com a Lei. Ficou com uma raiva desgramenta do cara, tenha sido gênio ou não. Gosta de artistas sangue-bom, como dizem de Pixinguinha.

Nossa, que Michelangelo deve ter se revolvido no túmulo por causa da birra de uma anônima desprovida de talentos! Capaz até de ter reencarnado como pretendente que não lhe bateu a passarinha e ela mandou pastar, já que “aqui se faz e aqui se paga”. E a Terra quase parou na rodagem devido à picuinha entre eles. Afinal de contas, dizem que o Universo é muito sensível às nossas causas.

Fariam as pazes caso se encontrassem adiante? Ou ela mereceria uma esnobada por ter estado na Catedral de São Pedro e se esquecido de ver La Pietà? Poderia tentar explicar que bateu perna pelo Museu do Vaticano o dia inteiro, depois subiu os degraus todos até o topo da catedral, desprezando o elevador que leva até a metade, espiado Roma, a Cidade Eterna lá de cima, descido tudo de volta, e já não estava pensando direito quando deu uma rodada pelo interior do templo. Só alguns dias mais tarde lhe ocorreu não ter lembrado de admirar a escultura tão sublime e famosa... e ficou passada. Já tinha relevado o fuxico dele no século XVI como coisa de gente mal comida...

…embora ainda lhe cause grande assombro que seres do quilate de Michelangelo possam ter sofrido de carências e males tão comezinhos. Seu Germano, morador das cercanias da Vila de Santo Antônio da Praia, aqui no litoral norte, era exímio em trançar palha e viveu amado e feliz, ao que tudo indica, deixando, quando de sua passagem desta para melhor, rebentos entre 45 e 3 anos de idade. E Fulana não sabe de nenhuma fofoca que ele tenha tido gana ou tempo de espalhar.

Na verdade, vivemos todos com tantos desassossegos; o ruim é quando eles prejudicam os outros. Não é o caso de Fulana, tão boazinha. Cultiva umas antipatias, às vezes xinga no trânsito, mandando pra porra o elemento que buzinou atrás, pura impaciência, porém exibe com orgulho um currículo atestando que jamais fez mal a alguém deliberadamente.

E embora admita as contradições com que vivemos, não compreende como uma pessoa que vive carrapatada a Deus possa apoiar indivíduos que idolatram o que de mais atroz pode existir, como a tortura de outros seres humanos. Mas quantos pensam como Fulana?

Na maior parte das vezes, parecemos conseguir acomodar as contradições mais antagônicas, bem como pleonasmos, num departamento onde dormem lado a lado e até de conchinha, sem nunca quebrar o pau. Como se a existência de uma não se opusesse visceralmente à da outra. Como se não tivéssemos vísceras, ou elas só se manifestassem quando resolvem desenvolver um tumor.

“A maioria das pessoas não faz mais que existir”, segundo Oscar Wilde. A Fulana espanta a incapacidade de discernimento dessa maioria das pessoas, incólumes, seguras de si, e certas de que vão para o céu. Da Capela Sistina? O céu do detrator? Muito complicado se indispor com difamadores geniais e indivíduos eviscerados.

Ainda assim, não poder dividir as gentes entre boas e más lhe causa uma confusão do Capeta, porque nas gentes cabem virtudes e defeitos ao mesmo tempo. O cara combateu a ditadura, arriscando a vida, e anos depois não teve pudor em meter a mão nos cofres públicos a fim de beneficiar amigos. O outro entregou uma judia aos nazistas (,) mas fez muito pelos trabalhadores. Somos todos conjunções adversativas, quando a ideia de soma prescinde de vírgula. E da Gramática prescinde a vida.

De minha parte, contudo, devo declarar que estive em Florença, onde viveram Michelangelo e Leonardo, além de Dante Alighieri e outros nobres representantes da humanidade. Até hoje não me esqueceram as escadas das duas torres que subi bravamente na mesma manhã, turbinada pela nicotina dos cigarros tantos que já inspirei, e quando visitei a Accademia, achei que os pés do belo David eram grandes demais da conta.

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