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Crônica - Pela hora da morte

Publicado domingo, 31 de outubro de 2021 às 06:02 h | Atualizado em 30/10/2021, 15:28 | Autor: Franklin Carvalho | Escritor
Para entendermos como Cotinha tratava os empregados, vejamos o que disse ao filho, certa vez, num almoço: "Este arroz não cheira bem. Deixe aí, que eu dou para Amália comer" | Imagem: Túlio Carapiá | Editoria de Arte A TARDE
Para entendermos como Cotinha tratava os empregados, vejamos o que disse ao filho, certa vez, num almoço: "Este arroz não cheira bem. Deixe aí, que eu dou para Amália comer" | Imagem: Túlio Carapiá | Editoria de Arte A TARDE -
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O carro de som entra na feira e tentamos identificar o que berram os seus alto-falantes roucos. Rotineiramente, o veículo apregoa dois tipos de mensagens pelas ruas da cidade: anúncios de velório e o delicioso acarajé da irmã do locutor. A pequena economia do município não remunera reclames; a prefeitura, muito raramente; e nem a banca de acarajé paga nada, a propaganda sai de graça para a irmã. É dos funerais que vive o dono do carro. Neste dia, queríamos que ele divulgasse promoções da comida de azeite, mas logo sobreveio o desenlace: comunica, com pesar, o falecimento da velha Cotinha Pereira.

Na porta do mercado municipal, um bêbado maltrapilho acena para o carro gritando: "Obrigado! Obrigado!". Não sabemos se agradece a informação ou a algum préstimo da velha Cotinha. Já é de tarde, e o bêbado aproveitou bem o dia.

No entanto, muito dificilmente alguém deveria favor à falecida: a velha, viúva endinheirada, era avara e muito ranzinza. Morreu principalmente porque se recusava a comer nos últimos meses, acreditando que tudo o que lhe traziam estava envenenado. Não confiava na nora, nos netos nem no filho, nem nas empregadas novas que o filho contratava, sempre buscando alguém mais paciente.

Cotinha Pereira havia se acostumado com Amália, uma dona meio aparvalhada que serviu na sua casa durante décadas, mas que estava igualmente velha, incapaz de lhe dar banho e ampará-la nos passos vacilantes. Foi até surpresa para a família Pereira que, nos últimos dias de convalescença da mãe, Amália veio da sua casinha na roça e apareceu grata, na porta do quarto da ex-patroa, preocupada com a saúde da outra. A empregada, com seus olhos vermelhos de catarata, foi a única pessoa a visitar Cotinha no seu fim.

Há alguns anos, o filho de Cotinha Pereira, advogado, teve a ideia de garantir uma aposentadoria para Amália, usando para isso o registro rural da fazenda dos Pereira, cadastrando a empregada doméstica como trabalhadora agrícola. A família não gastaria nada com a manobra, mas a velha achou aquilo um desperdício de bondades. Para entendermos como Cotinha tratava os empregados, vejamos o que disse ao filho, certa vez, num almoço: "Este arroz não cheira bem. Deixe aí, que eu dou para Amália comer".

Mas o advogado Pereira gosta de confrontar alguns padrões sociais, às vezes, talvez para chamar a atenção. É católico, mas malvisto na paróquia porque aceitou defender os filhos adotivos de um padre antigo, que requerem parte do patrimônio da igreja. Mesmo com a desaprovação de outros fiéis, ele continua frequentando as missas aos domingos, com a esposa e as crianças.

No mercado municipal, no final da feira, tudo soa ainda mais absurdo, e barato, quase de graça, no varejo da vida. O carro de som proclama a hora do enterro, logo mais, e diz que a família agradece aos que comparecerem. O povo, no entanto, parece mais interessado nos restos de frutas e verduras, e nos peixes cercados de moscas, que podem apodrecer a qualquer instante. É por isso, agora entendemos, para romper com essa frieza, que o bêbado andrajoso reitera o apelo que vem dos alto-falantes, o convite para os homens comparecerem ao cemitério, e já adianta os cumprimentos da família de Cotinha: "Obrigado! Obrigado!".

E logo o dia, apaziguado, principia a declinar para o sono e o breu.

Franklin Carvalho é autor de Eu, que não amo ninguém (Ed. Reformatório)

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