Crônica: Do parmesão pra vida

Publicado domingo, 28 de junho de 2020 às 10:10 h | Atualizado em 28/06/2020, 10:12 | Autor: Luisa Sá Lasserre

A espera é uma arte. A frase estava escrita na embalagem de parmesão ralado em cima da mesa. Reparei, quase de relance. Estava ali como quem não quer nada, impressa naquele pacotinho azul, e invadiu meu almoço em uma só garfada. É dessas máximas que talvez soem um pouco clichê. Mas parei para pensar no sabor da frase feita.

Lembrei de uma música repetindo que vivemos esperando dias melhores. Esperamos isso como quem aguarda que passe a chuva. Ou como quem anseia pelo resultado de uma prova. Positivo, claro. Esperamos pelo retorno imediato de um projeto ou investimento. E também por aquela ligação, que tanto nos alegrará. Ou esperamos que ninguém ligue, quando queremos silêncio e sossego.

Sou do tipo que não gosta de esperar em fila, seja qual for. Tem quem não se importe, se resigne com um maço de jornal embaixo do braço. Tudo bem, com um celular em mãos, qualquer espera se tornou mais tolerável. Basta mergulhar no mundo digital ao nosso alcance e já não estamos ali na fila do banco, do supermercado, do consultório médico.

A espera nem sempre é bem-vinda. Tentamos ludibriá-la algumas vezes no desejo de vencer nosso cansaço e satisfazer nossos caprichos. Esperar pra que, se podemos adiantar os processos? Fácil pensar assim. Até para nascer precisamos aguardar nove meses, ainda que nem sempre o tempo fisiológico seja respeitado – alguns se antecipam de espontânea vontade, vai ver se entediaram muito cedo...

É verdade que esperamos que a chuva não caia, quando programamos uma praia; que o sol dê uma trégua, quando nos cansamos do calor. E que o vento sopre, por favor, mas não demais, para não assanhar o cabelo. Esperamos algo incrível acontecer hoje ou amanhã. E não tarde nossos sonhos se realizarem.

Pode reparar: estamos sempre esperando alguma coisa. Mas, quase sempre, temos a expectativa de algo em acordo com os nossos quereres e com o nosso inevitável desejo de controlar um pouco as coisas – ou muito. Saber esperar sem ansiedade, saber esperar o tempo certo, aí está a arte.

Frequentemente nos vemos sobre uma corda bamba, um extenso fio que liga o passado já cristalizado ao futuro que a Deus pertence. O presente é o instante em que o pé toca a corda, sem saber exatamente como será o passo seguinte. Esperamos cruzar a linha de chegada a todo custo. Estamos com um pé cá, de olho no outro lado.

A arte da espera não é parar no meio da corda bamba, ansiando por um chão de concreto aos nossos pés que torne a caminhada muito mais fácil. O segredo talvez esteja em se manter em movimento, ainda que contrabalanceando pratos e pisando em falso aqui ou ali. A jornada nos faz descobrir que o equilíbrio surge de passos suaves, porém regulares e constantes.

Volto a lembrar do pacotinho azul em cima da mesa. A maturação do parmesão também demanda um tempo de espera – de seis meses até quatro anos, eu li. Envolve cuidados, etapas e processos até chegar ao resultado final. Me dou conta de que, na expectativa, se faz urgente direcionar atenção ao objeto do aguardo, trabalhar no silêncio da espera.

E aí me vem à mente a voz de Gil cantando: “Louvo quem espera sabendo / Que pra melhor esperar / Procede bem quem não para / De sempre mais trabalhar / Que só espera sentado / Quem se acha conformado”. A vida é mesmo feita desses intervalos de aguardos e esperanças. Pausas longas, outras curtas, algumas mais difíceis. Mas do parmesão pra vida, quem há de negar que a espera também pode dar sabor?

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