CRÔNICA: Minha cara mãe

Publicado domingo, 20 de dezembro de 2020 às 12:51 h | Atualizado em 20/12/2020, 12:54 | Autor: Franklin Carvalho*

Migrar é bom nada. Às vezes, só ilusão”, disse-me um amigo do sertão, num Natal recente. Logo para mim, que saí do norte da Bahia aos quinze anos e vivo há décadas em Salvador, com saudades de uma juventude rural, que não tive, de farras noturnas na praça da matriz e no pequeno clube municipal, que não fiz, somente experimentei quando ia passar as férias no interior. Hoje, minha recordação mais sentida da adolescência é uma inveja – então não é recordação, é inveja – dos meus parentes que ficaram naquelas ruas de casas tão unidas, tão geminadas, enquanto eu me abismava na metrópole.

Surpreendeu-me o desabafo comovido do amigo na noite natalina principalmente porque a migração parece ser uma porta sempre à disposição do interiorano, seu último e primeiro recurso, inclusive o deslocamento dentro de uma mesma microrregião. Até hoje o sertanejo, com ou sem estudo, olha para a franja do horizonte imaginando cruzá-la. Desde criança ouve relatos de gente que foi para o Sul, ou para Salvador, e que depois já não é de lugar nenhum.

Quem vai e volta aprende a silenciar a saudade, a esconder o desamparo na coabitação com desconhecidos, inclusive outros migrantes que longe de casa são novas pessoas, com outras demandas e até com novos corpos, urbanizados. Somente as conquistas devem ser mencionadas, e com algum exagero. Na cidade de concreto, lutar pelo mínimo e, enquanto isso, ser o mínimo, sentir o mínimo. Continuar esperando da franja do horizonte, às vezes somente o dia de amanhã.

No entanto, segundo ouvi de conterrâneos, não dá para desistir do asfalto porque aqui as coisas “pingam”, acontecem, mesmo que o pão venha em migalhas. O meu amigo, o da noite de Natal, disse que a migração pode ser só mais um tipo de violência, como todas as circunstâncias da pobreza, a fome, o abandono, a invisibilidade. Então me lembrei que o escritor Antônio Torres, baiano de Sátiro Dias, enquadrou a problemática no seu romance Essa Terra, contando a história de um migrante que é visto como exemplo de sucesso, mas que acaba cometendo um desatino.

Quanto ao desabafo,  no século XX os migrantes napolitanos nos EUA entoavam a Lacreme Napulitane (de Francesco Buongiovanni e Libero Bovio), cuja letra era uma carta direcionada à “Minha cara mãe” na noite de Natal. A canção concluía reconhecendo “como é amargo este pão” ganho longe de casa. No Brasil, Dorival Caymmi questionava “Se ter saudade é ter algum defeito” (de Saudades da Bahia). Mas, se os grandalhões do Mediterrâneo podem chorar, por que não nós?

Neste Natal, eu também rumino canções feitas nas estradas. “Hoje longe, muitas léguas/ Numa triste solidão” (Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), e “Eu quase não saio/ Eu quase não tenho amigo” (Lamento Sertanejo, de Gilberto Gil e Dominguinhos). Além disso, “Há tempo, muito tempo que eu estou longe de casa” (Tudo outra vez, de Belchior) e “Onde a máquina me leva não há nada” (Retrovisor, de Fausto Nilo e Fagner). Essas duas últimas se tornam secas como a caatinga nas vozes de violeiros que as executam nos botecos, feiras, esquinas ou rodoviárias Brasil afora. Todas são comoventes orações da saudade, cartas à família distante.

Elas motivaram a redação desta crônica, que dedico às famílias dos migrantes, especialmente àquelas que não se reencontrarão neste final de ano devido às restrições da pandemia. Ou da economia.

Tenham todos um feliz ano. E novo!

*Franklin Carvalho (autor de Céus e Terra e de A ordem interior do mundo)

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