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Herchcovitch: "Eu me transformei e a marca mudou"

Publicado quarta-feira, 15 de outubro de 2014 às 16:22 h | Atualizado em 15/10/2014, 16:22 | Autor: Eron Rezende
Alexandre Herchcovitch
Alexandre Herchcovitch -
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Alexandre Herchcovitch, 43, interrompe a entrevista para mostrar "mais um equívoco" dos sites que noticiam a moda no país. "Na legenda, escreveram que o acabamento franzido já é um hit, mas na foto não há roupa com acabamento franzido", diz, num dar de ombros, para, depois, deixar seu comentário sobre o erro no Instagram do site em questão. O dar de ombros de Herchcovitch é, para o jornalismo de moda no Brasil, "meramente descrito e descuidado". Mas o gesto pode ser entendido também como a expressão de alguém grande o suficiente para ser ombudsman da profissão. Estilista que sintetizou em roupas o underground paulistano dos anos 1990, Herchcovitch projetou seu nome através de uma grife afamada, desfiles no exterior e da logomarca de caveira espalhada num sem-número de franquias. Mesmo depois de vender seu nome para um conglomerado de lojas de luxo, a InBrands, não deixou de ser a mente que assina "sofisticadas elaborações", como publicou o New York Times, em abril passado. "A moda é bastante cruel com as aspirações artísticas dos estilistas. A arte das roupas exige altíssimas doses de obstinação", diz.


Você trabalha como diretor criativo da marca que leva seu nome, mas da qual não é dono. Qual sua responsabilidade na prática?
Como trabalho para uma empresa, não tenho o poder total de decisão. Só consigo decidir nas minhas áreas, que são marketing e produto. Mas continuo com liberdade total de criação, então digo que eu sou um funcionário com alma de sócio. Meu trabalho não mudou, ficou mais maduro, apurado e focado. Preciso aprovar, desenhar e criar produtos que vão vender e fazer com que essas vendas atinjam uma meta corporativa. Quando era dono da empresa, essas metas eram mais intuitivas. Aprendi a ser mais objetivo nas decisões, escolhas e vontades.

A marca Alexandre Herchcovitch está associada a produtos tão díspares quanto isqueiros e band-aids. Qual é o critério para fechar parcerias?
Mais que colocar o nome, criamos produtos. Há empresas que licenciam apenas o nome. Interferimos no produto. A marca é conhecida porque aprendi a dizer não. Já tive propostas para colocar apenas o nome e sempre respondo que preciso criar, interferir. Minha equipe é pequena, cinco pessoas, mas criamos 1.200 produtos por ano, entre roupas e não roupas.
 

Não teve medo de perder a essência?
Já são 13 anos de produtos licenciados. Quando começamos, muita gente falou que iríamos perder a identidade. Isso não aconteceu. Hoje, temos 20 contratos de licenciamento. Isso faz parte do business da marca e corresponde a 40% do faturamento. Para cada produto licenciado, recebemos entre 8% e 12% e royalties. O restante fica para a empresa. Dá para ter uma ideia de quanto se fatura com Alexandre Herchcovitch no Brasil e no exterior.

Em algumas entrevistas, você disse que a InBrands mexeu bastante na empresa que já existia. Há algum arrependimento no processo de venda?
A InBrands é formada por sócios ligados à moda, como Nelson Alvarenga, mas também por sócios ligados aos bancos. O que eu senti quando a empresa foi comprada é que eles olharam e disseram "está tudo errado". Eles fizeram mudanças radicais que não precisavam. Poderiam ter ouvido mais a minha opinião. Demitiram a minha mãe e o meu irmão, por exemplo, que trabalhavam comigo há muito tempo e que poderiam continuar trabalhando. As funções poderiam ser remodeladas. Mas, como eram pessoas importantes para mim, eles poderiam aproveitá-las da melhor forma.

Você chegou a colocar isso?
Sim. Mas eles estavam com uma vontade avassaladora de resolver os problemas, de reformular a estrutura da marca.

Você mantém-se distante das redes sociais - com apenas um perfil no Instagram - num momento em que a moda volta-se para ações na internet. É um efeito do que ocorreu no ano passado, quando foram publicadas críticas contra o Norte e o Nordeste em seu Twitter?
A marca mantém um perfil no Facebook. O meu Twitter era uma conta que muitas pessoas tinham acesso. Era uma conta pessoal, mas que pessoas da marca tinham a senha. Depois do que aconteceu, preferi desativar a conta. Hoje, nem eu nem a marca temos Twitter.

Se a sua conta foi manipulada indevidamente, por que não buscar resolver a questão judicialmente?
Cogitei fazer isso, mas precisaria mexer em muitas questões e, talvez, descobrir que quem fez a postagem era uma pessoa próxima a mim. Conversei muito com minha advogada e resolvi não ir à frente.
 

Durante muito tempo, você foi um personagem da noite paulistana e o seu sucesso aconteceu, sobretudo, pelo fato de exprimir essa cena. Hoje, quando você diz estar mais recluso, onde está a munição para suas criações?
A minha criação possui rastros dessa influência da noite paulistana. É algo mais sutil do que era há 20 anos. Foi um período que aproveitei bem. Foi realmente muito importante. Mas não acredito que, se eu continuasse frequentando a noite, isso permaneceria um motor criativo. Tenho revisto o histórico da marca. Isso tem ativado criativamente a minha equipe. No começo da carreira, eu não tinha o alcance que tenho hoje e fiz muitas coisas que foram mal aproveitadas comercialmente. Temos revisto e atualizado detalhes de coleções passadas. Me transformei, e minha marca mudou também.

Acredita que semanas de moda, revistas dedicadas ao tema e jornalistas especializados gabaritaram o Brasil para um pensamento crítico sobre moda?
O que aconteceu foi justamente o contrário: um esvaziamento do pensamento crítico. No começo dos anos 1990, nem dormia para ver o que iam escrever sobre meu desfile no dia seguinte. Hoje, demoro para ver. Meus assistentes que me mostram. As críticas de moda se tornaram descrições dos desfiles. Por outro lado, há 200 faculdades de moda hoje no Brasil. Eram apenas três há 20 anos. Muita gente que não sabe o que quer opta pela moda. Vejo jovens ingressando na moda em busca de notoriedade. Outro dia, uma menina me perguntou como é que ela poderia fazer para ser conhecida. Expliquei que há métodos mais fáceis que seguir a carreira de estilista, que é difícil e concorrida.

No ano passado, o Ministério da Cultura (MinC) autorizou projetos da área de moda a serem contemplados com a Lei Rouanet. Você foi agraciado com R$ 2,6 milhões. Conseguiu levantar a verba?
Nada. Quem capta patrocínio na minha empresa não sou eu. E quem deveria captar não foi atrás. Antes, eu fazia quase tudo. Hoje, deixo que os responsáveis corram atrás.

Como avalia a repercussão em torno da decisão do MinC?

O projeto só aconteceu porque Marta Suplicy passou por cima da decisão da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), que não aprovou.
A pior crítica é dizer que moda não é cultura. Uma das piores sensações que já tive foi quando fui ao MinC explicar minha profissão para uma comissão de pareceristas (que avalia os projetos proponentes). Eles não entendiam moda como cultura.

Fazer moda no Brasil é mais fácil hoje?
Não. A estrutura está menos azeitada. O parque industrial diminuiu. As malharias estão fechando. A China, que faz melhor e mais barato, deixou o Brasil para trás. Outra coisa: não há mais a vontade do jovem em ser costureiro. Todos querem ser estilistas. Então, falta mão de obra em muitas profissões ligadas à moda. Esse é um problema que não enfrento, porque formei costureiras que estão comigo há anos.

Foi por conta desse cenário que você disse que gostaria de deixar o Brasil?
Foi um jornalista que editou o que falei e pôs numa manchete. Nunca disse isso. Jamais deixarei o Brasil.

Você e o designer Fabio Souza casaram em julho do ano passado. Na ocasião, disseram que a decisão era uma forma de sinalizar uma igualdade de direitos conquistada. Como vê a inserção de assuntos como casamento gay e criminalização da homofobia no debate eleitoral atual?
É triste ver que os brasileiros têm os mesmos deveres, mas não os mesmos direitos. O que leva uma pessoa a querer cercear o direito do outro? Ninguém se incomoda com algo a não ser que isso seja objeto de um conflito interno. Se sou hétero, por que incomodaria o fato de meu vizinho ser homossexual? A sociedade brasileira é muito preconceituosa . É triste ver o debate político pautado por essa visão.


Quando uma marca passa a ser tão cultuada, surgem muitas lendas sobre sua história. Qual a verdade sobre a marca Alexandre Herchcovitch?
A verdade é que eu jamais teria criado a marca se não me pedissem para fazer uma roupa. Minha mãe costurava em casa e gostei de aprender a transformar um tecido plano numa estrutura. Então, passei a fazer minhas próprias roupas. Mas se um amigo não tivesse pedido para fazer e vender uma camisa, eu continuaria fazendo roupas só para mim.

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