Irmãos Macêdo fazem folia da memória em show intimista

Eles sobem ao palco do Teatro Jorge Amado no próximo dia 24 de março

Publicado domingo, 20 de março de 2022 às 12:30 h | Atualizado em 19/03/2022, 20:00 | Autor: Vinícius Marques
André, Aroldo, Armandinho
e Betinho: memória viva
André, Aroldo, Armandinho e Betinho: memória viva -

O Carnaval de Salvador possui tanta história que, às vezes, fica difícil de acompanhar. É improvável conseguir detalhar com precisão cada fase dessa festa, que data de 1884 e que hoje causa tamanha saudade na população baiana. Mas existem pontos nesse festejo que são impossíveis de ignorar. 

Um desses pontos é a grande invenção de Dodô & Osmar, que mudou para sempre o carnaval de Salvador em 1950: a Fobica, um automóvel enfeitado com adereços carnavalescos, alto-falantes pendurados e alguns poucos instrumentos que desfilaram pelo centro da cidade. Durante 25 anos foi assim, era só ouvir o som do cavaquinho tocando que as pessoas já sabiam que o trio elétrico estava chegando. Essa era a sonoridade que marcava o carnaval naquela época. 

Em 1974, tudo mudou. Foi quando os filhos de um dos criadores do trio elétrico decidiram que queriam fazer estreia como grupo que a potência aumentou. Os Irmãos Macêdo, formado por Armandinho, Aroldo, André e Betinho, influenciados pelo som dos Beatles, acharam que era hora de colocar bateria, guitarra e contrabaixo nas fobicas.

Mas a história começa antes, para todos eles o interesse pela música vem desde criança. Influenciados pelo pai, Osmar Macêdo, um metalúrgico que também era músico, todos acabaram enveredando para o caminho sonoro. O primeiro deles, Armandinho, desde os nove anos já deslanchava na música. Com 10, já subia no primeiro trio mirim, acompanhando de outros meninos. Mas foi aos 15 anos, ao tocar no programa A Grande Chance, de Flávio Cavalcante, que ele viu sua carreira ascender.

“Ganhei aqui em Salvador e fui ovacionado pelo público, fui para a final no Rio de Janeiro e fui ovacionado lá também. Foi algo apoteótico”, lembra Armandinho, que ainda hoje possui a gravação do programa, realizado em maio de 1969. Daí em diante, com reconhecimento e prestígio, ele começa a tocar profissionalmente com outros artistas da época.

Alguns anos depois, com Armandinho em plena atividade musical e influenciando os irmãos, a família Macêdo recebe a visita de Caetano Veloso, em 1972, retornando do exílio em Londres. Foi nesse momento que ele pediu a Osmar se poderia gravar a música Frevo do Trio Elétrico. Após a gravação, Armandinho decidiu fazer um pedido ao pai também: ele queria um trio elétrico para ele e os irmãos tocarem. “Tivemos a ideia de pegar a fobiquinha que estava jogada no fundo do quintal, pintar ela toda, que era marrom, e a deixamos toda colorida, com bolinhas de confete”, lembra André Macêdo.

André lembra também que o pai dizia “Armandinho, é seu trio elétrico”', mas que o irmão queria homenagear os criadores do trio. Na mesma época, os irmãos foram para o Rio de Janeiro gravar o primeiro dos 17 discos que hoje possuem. Em 1975, a ideia era subir no trio com banda completa. 

“Tivemos umas dificuldades porque a tecnologia não era nem um pouco avançada, ela vinha desde 1950 no cavaquinho, saindo nas cornetas, o violão acompanhando e aquela charanga. No primeiro ano preparamos dessa forma, então, a gente teve que treinar”,  recorda Aroldo Macêdo. 

Caixas de som

Os irmãos precisaram pedir para fabricarem caixas de som e aparelhos mais potentes para poder aguentar a quantidade de instrumentos, considerando que naquela época não havia mesas de som para aquela finalidade.Aroldo lembra também que a partir do segundo carnaval dos irmãos, decidiram colocar mais a influência deles. Naquela época, a Tropicália já tinha acontecido e, junto do interesse dos irmãos pelos Beatles,  acharam que era hora de dar uma experimentada também. 

“Já tinha essa efervescência e aí nós mudamos mais uma vez e botamos bateria no trio elétrico pela primeira vez. Como estávamos gravando com bateria e contrabaixo, colocamos a voz também. Convidamos  Moraes Moreira para ser nosso cantor e isso foi muito bacana, porque quando entra a voz, ela dá uma dimensão e chega a mais gente”, conta Aroldo.

Armandinho se recorda de um momento em que Baby do Brasil ao ver Moraes cantando pela primeira vez no trio gritou para Osmar: “E pode cantar no trio elétrico?”, e recebeu a resposta: “O trio é de vocês”. Daí em diante, a história estava feita.

Uma lembrança que marcou muito os irmãos foi quando neste mesmo carnaval, Dodô e Osmar fizeram um elevador que saía do trio elétrico e ia até o povo na rua. Ao descerem na Praça Municipal, os dois foram carregados pela população até o palanque montado em frente a prefeitura. 

“Quando o elevador chegou no chão, ao invés de meu pai ir andando até o palco e dar um abraço no prefeito e voltar, o povo carregou ele e Dodô, e saíram os dois nas mãos do povo. A gente botou a mão na cabeça e disse 'Ih, rapaz, será que vão devolver?'. Foi emocionante”, conta Betinho Macêdo aos risos.

Os irmãos Macêdo guardam diversas recordações desses quase 50 anos em que saem no carnaval, mas a unanimidade é o Encontro de Trios, nome dado por Osmar ao momento em que dois ou mais trios elétricos se encontravam na Praça Castro Alves. “Era uma madrugada maravilhosa, aparecia Caetano,  Gil, Gal Costa, aparecia era gente. A praça Castro Alves começou a ser o centro dos alternativos, das pessoas ligadas ao teatro. Todas as tribos”, conta Betinho. 

A história dos Irmãos Macêdo continuou. Fora dos trios, eles decidiram que queriam passar adiante a ideia da música Tri Eletrizada, como chamam, e montaram a Escola Irmãos Macêdo, que funcionou por 12 anos e há quatro anos está parada por falta de patrocínio. “Já conseguimos um apoio de 50%, mas queremos voltar com os 100%. Fica aqui até um pedido”, diz Aroldo, idealizador da Escola.

“A escola já tinha mais de 100 alunos, uma banda de cinco guitarras baianas tocando. Era uma coisa muito gratificante de ver essa turma desenvolvendo tudo o que fizemos nesses anos todos”, conta Armandinho. “É ótimo acompanhar o que esses meninos vêm desenvolvendo porque isso é a nossa história fluindo”, acrescenta.

Agora, o público pode ouvir algumas dessas histórias nos palcos do teatro. Na sua sexta temporada, os Irmãos Macêdo sobem ao palco do Teatro Jorge Amado no próximo dia 24 de março, às 20h, para apresentar o espetáculo Carnaval, Música e Revolução, que segue até o dia 2 de abril. 

“É um show mais para o intimismo. O público sentado, a gente contando nossas histórias, intercaladas com músicas que fizeram parte da nossa trajetória”, explica Betinho. “É engraçado, mas também emocionante. Isso eu garanto, quem for se emociona”, finaliza André.

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