Nós que podemos dinamarcas

Publicado domingo, 09 de janeiro de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 08/01/2022, 14:48 | Autor: ró-Ã

Ariano Suassuna relatou certa vez em entrevista a Jô Soares sobre u’a mulher que dividia o mundo entre Quem já tinha ido à Disney e Quem não. Recentemente, tive a oportunidade de suassunar alguns dias em meio a gente que separa o Brasil entre “Nós” – capital letters – e “os favelados”, minúscula maioria não exatamente invisível mas sim odiosa e estraga-prazeres. Era já pra ter sumido, se dela não brotassem as empregadas domésticas, porteiros, manicures e outros que Nos servem.

Pra começo de conversa, destruíram a Zona Sul do Rio de Janeiro, mendigando às centenas à porta das lojas. Em segundo lugar, talvez pior, acabaram com a praia no fim de semana: era Nossa e agora foi invadida pela turba que deveria estar mais do que satisfeita em ocupar o Piscinão de Ramos ou – por que não? – os esgotos que cortam a cidade, contanto que não seja em área nobre, embora aqui também a podridão exulte.

Não pertencem à mesma espécie que Nós, não são brasileiros, possuem somente o direito de servir a gente “de nível” e se conformar com a Sorte. E tal convicção se expressa como se gravada em pedra, quem sabe as de Moisés. Sagradas e vigentes por séculos e séculos e que Assim Seja.

Eu nunca mais havia experimentado isso de perto, além do que ando convivendo com um grupo integrado por pessoas que se esforçam em tornar-se indivíduos cada vez melhores, a fim de deixar o menor sofrimento possível para a próxima encarnação. No entanto, apesar da minha irritação esbofeteando a dura e almejada virtude da indulgência, apesar da minha tristeza constatando o pensamento dos chiques fincado em profundezas quase inexpugnáveis, não pude deixar de me divertir com a quase totalidade de louras, possivelmente mais numerosas que a população inteira da Suécia e da Noruega. E ai se Hitler ousasse despachar para um campo de concentração essas arianas impuras. Seria prisão na certa, sob pretextos débeis, sem provas mas com convicção; aliás com C maiúsculo, como convém aos superiores, e ninguém mais superior que os legítimos donos das praias e esgotos nacionais.

Estamos falando da classe média alta carioca, que certamente comunga do mesmo pensamento que as das outras capitais e interiores. E em se tratando de uma faixa etária que já passou dos 20, a botocagem e o preenchimento facial são a culminância de uma vida invejável para qualquer parasita. A partir de módicos R$ 12.000,00, o médico dos sonhos desses rostos outrora mais, ou menos, belos destinará algumas horas regiamente pagas a lhes injetar pseudo juventude em sofisticada clínica de Ipanema. Continua tudo com cara de velha, só que remendada. Se fosse pra eu recuperar a estampa dos 30, o procedimento constaria da minha lista de prioridades, já que não faz mal a ninguém exibir um rosto celebrizado por Balzac. Mas pra trocar por isso uma viagem ao Vietnã e continuar sendo chamada de tia pela meninada, francamente.

E se o telefone celular não existisse, o que fariam da vida essas bruacas douradas? Porque são os dias inteiros enviando besteira pros satélites, como se o amanhã não existisse, ninguém nascesse, ninguém morresse, só os umbigos próprios estuporando suas dores lancinantes e excludentes. Achei que não aguentaria mais 48 horas testemunhando aquilo sem dar uma de louca, mas já sobrevivi sem enlouquecer a sofrimentos que me doeram na gostosura tutana dos ossos, portanto não sucumbiria.

Este é o balanço de uma viagem a fim de atender a um compromisso às 07:20 do dia 23 de dezembro próximo passado. Como me falha ser loura e escandinava, acharam de boa gastar meu tempo e dinheiro me despencando de Salvador às vésperas do Natal para ter o agendamento cancelado horas antes por motivo de força maior, ao tempo em que lamentaram pelos transtornos que me pudessem ter causado. E ainda tiveram a cara de pau de remarcá-lo para o dia 3 de janeiro. Quem pode, pode, mas nós não mendiga. Enviei-lhes cordialmente bela e verdejante pastagem. Esse orgulho mantenho da patricinha em mim encarnada enquanto crescia, que felizmente despachei pros quintos dos infernos no dia em que vi um grupo de trabalhadores subindo a Padre Feijó puídos e desbotados, e tive tanta pena e vergonha deste meu país, Pátria Amada para louras cabeleiras, praias particulares e Tudo de bom.

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