Patrimônio de Salvador, samba junino vai contar com manifestações virtuais

Publicado domingo, 13 de junho de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 12/06/2021, 13:34 | Autor: Yumi Kuwano

Junho é um mês importante para o Nordeste do país. Mês de tradição, quadrilha, licor, forró e, em Salvador, samba também! Apesar de ser antigo e genuinamente soteropolitano, o samba junino ainda não é conhecido por todos os moradores da cidade. E não pense que é um ritmo musical, apenas. Samba junino é o nome de uma manifestação cultural popular e com muita criatividade que se mistura com os signos da cultura afro-brasileira.

O samba duro, ritmo que caracteriza o samba junino e seu principal elemento, vem dos terreiros de candomblé, do samba de caboclo. Recebeu esse nome porque tem apenas instrumentos de percussão, como os timbales, e a voz, ou seja, sem harmonia, além de ter um compasso mais acelerado. Quando se aproxima do São João, vira o samba duro junino e costuma desfilar entre os dias 23 de junho e 2 de julho.

Não se sabe ao certo onde e quando começou, mas certamente teve  apoio das comunidades e muita  simpatia envolvida. Assim como foi a minha conversa com Gilberto Nascimento, o Beto do Boqueirão, 68, um dos precursores do samba junino em Salvador. 

No Nordeste de Amaralina, onde vive até hoje, Beto começou a organizar os desfiles de samba junino na sua juventude, com pouco mais de 18 anos,  na década de 1970. E tudo graças a um baba (partida de futebol) e uma reunião depois do jogo, em um dos botecos de lá. “Sempre aparecia cantor, compositor, percussionista, chegava todo mundo”, conta. 

Com a proximidade do São João, tiveram a ideia de fazer um samba para sair nessa época e Beto ficou na responsabilidade de bolar as camisas. “Eu fiz um colete vermelho, com franjas amarelas e calça branca. E quando estava tudo arrumado, a gente percebeu que não tinha instrumento. Fomos no Mercado Modelo, compramos um timbal, e 25 pessoas saíram nesse primeiro ano”, lembra. Assim nasceu o Samba Boqueirão, que ganhou esse nome mais tarde.

Talvez, no futuro

De acordo com Beto, o Samba Boqueirão deixou de desfilar há cerca de sete anos porque ele saiu da diretoria e não deram continuidade, mas deixa uma esperança de que, talvez, no futuro, o grupo volte a desfilar. “E a senhora está convidada. Vai ter a sua camisa”, diz.  

O cantor e compositor Tonho Matéria, que fez parte da época em que o samba junino esteve no seu auge, conta que o Engenho Velho de Brotas fez o primeiro festival, realizado pelo grupo União do Samba, dos irmãos Jorjão e Mário Bafafé, com palanque e tudo. Mas as primeiras manifestações de samba duro, para ele, são da Boa Fé, no Pero Vaz, uma coisa bem pequena e caseira.

A manifestação começa a ganhar forma em meados dos anos 1980 e vários bairros populares de Salvador criaram pelo menos um grupo para chamar de seu. Tonho Matéria se considera um desbravador do samba junino: Engenho Velho de Brotas, Pau Miúdo, Federação, Cidade Nova, Canabrava, Engomadeira, Barros Reis, São Caetano, Garcia, ele percorria todos esses bairros atrás do samba. 

Legado do samba duro

Do samba junino surgiram artistas importantes para a música baiana e principalmente para a axé music. O próprio Tonho Matéria se descobriu a partir do samba duro: “Eu tive sorte de tudo isso acontecer na minha geração. Foi nesses espaços que  me encontrei e descobri a música”, revela. O primeiro grupo de samba que participou foi o Oba Oba, mas passou por vários, até ir para grupos afros.

A Liga do Samba Junino foi criada em 2013 para fomentar, preservar e valorizar o samba, com 17 grupos de samba junino, que foram à luta pelo reconhecimento como patrimônio imaterial. 

Nonato Sanskey, idealizador da Liga, ressalta a contribuição do samba junino para a música que conhecemos hoje: “Artistas como Tatau, do Araketo, Márcio Victor, do Psirico, Ninha, da Timbalada, Reinaldo, do Terra Samba, Alexandre Guedes, entre outros, vieram do samba junino. Muitas canções gravadas por grandes artistas do axé, como Daniela Mercury, têm influência do samba duro, que contribuiu para a criação de movimentos como a Timbalada, por exemplo”.

O compositor Joel Nascimento, 49, também entrou na arte através do samba junino. Morador do Nordeste de Amaralina, criado apenas pela mãe, ele conta que via os músicos do samba junino como heróis: “Descobri que tinha o dom de cantar e comecei a escrever minhas primeiras músicas”.

Desde a adolescência, ele assistia aos ensaios do Samba Boqueirão, mas começou a cantar mesmo com 20 anos. Ao compor e cantar suas próprias canções, logo foi descoberto por olheiros. 

A partir daí, teve suas letras gravadas por muitos artistas e ganhou o prêmio Pássaro Preto do Ilê Aiyê, com a música Negro Alegre.

Dentre as suas composições estão Voa beija-flor, a primeira delas, interpretada pela banda Cheiro de Amor; Levada do amor, da banda Patrulha; e A dança do Xexéu.

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O precursor Beto Boqueirão (esq) e o compositor Joel Nascimento (centro) | Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE

Reconhecimento

Em 2018, o samba junino foi reconhecido como Patrimônio Cultural de Salvador que, de acordo com a atual gerente de patrimônio cultural da Fundação Gregório de Mattos (FGM), Gabriella Melo, não traz apenas visibilidade, mas garantias, principalmente ao reconhecer as necessidades dos grupos. “Criamos um Plano de Salvaguarda do Samba Junino ao lado dos manifestantes, com ações de curto, médio e longo prazo para preservação desse bem cultural imaterial da nossa cidade”, explica a gestora. 

Entre as ações (com apoio do edital municipal Samba Junino – Ano III) estão o fortalecimento da memória e tradição, formações para agregar as novas gerações e organização dos grupos que fazem parte do samba junino. 

“É muito importante esse reconhecimento público, mas é mais ainda o reconhecimento da própria comunidade sobre esse papel de ser patrimônio de resistência e luta ao longo dos anos”, diz. 

Após o reconhecimento, foi produzido um documentário como uma das ações para salvaguardar o patrimônio: Samba Junino – De porta em porta, com direção de Fabíola Aquino (disponível no YouTube).

“O principal desafio foi contar essa história de 40 anos com inúmeros personagens de toda cidade. Fazer um resumo de tudo isso mantendo a densidade de sua história com a qualidade e importância dos participantes foi o maior desafio dessa produção”, conta Fabíola. 

Economia

Apesar de não fazer mais parte da diretoria da Liga, Sanskey, que agora integra a Organização Cultural de Samba Junino, ressalta a importância de um olhar maior do poder público para esses grupos, porque além de ser uma manifestação cultural, o samba junino é importante para a economia das comunidades. 

“As festas geram o emprego informal, porque muitas pessoas esperam esse momento para vender uma água, um amendoim, fazer um dinheiro a mais”, comenta.

Nem mesmo a pandemia pode parar o samba junino. Claro que, longe de ser o que realmente é, sem todo calor das pessoas nas ruas, o que é quase a essência do samba junino, mas ferramentas como as redes sociais podem manter essa tradição viva neste período com restrições.

“Estão sendo organizadas não só lives, mas também oficinas de confecção de acessórios, oficina de percussão, de dança, tudo completamente online”, afirma Gabriella. Tudo isso está sendo divulgado na página do Instagram da FGM (@fgmoficial).

Pokett Nery, 51, também vai participar de uma live. A dançarina trans recebeu o título de rainha do samba junino há três anos. Desde os 9 anos de idade era apaixonada pelo samba. Com 51 anos, ela considera o samba como parte da sua vida: “O samba é tudo para mim, Ave Maria”.  

Ô dona da casa...

Sem os tradicionais ensaios que acontecem normalmente dois meses antes do São João, aos fins de semana, os dias estão sendo de tristeza para a rainha, moradora do Alto das Pombas. 

Lá os grupos encerraram suas atividades há cerca de dois anos, de acordo com Pokett. Mas, antes disso, ela já participava do Samba do Morro, na região do Alto da Bola, entre a Garibaldi e a Vasco da Gama, entre outros que costumava frequentar, em diversos bairros.

“Diminuiu muito isso, mas antigamente os grupos saíam para fazer visita nas casas, chegavam lá e começavam a cantar: Ô dona da casa, me dá o que beber. Éramos bem tratados, a gente tomava licor, comia amendoim, chupava laranja e ia assim de porta em porta”, lembra. 

Neste ano, ela ganhou o documentário Pokett Nery – Rainha do Samba Junino, ideia que surgiu no set de gravações do documentário De porta em porta, lá em 2019. “Ao conhecer Pokett, surgiu a ideia de fazer a sua biografia e falar também sobre a comunidade LGBTQIA+ e toda a sua complexidade e desafios”, destaca Fabíola Aquino, que trabalhou no roteiro do filme.  

No dia 15, próxima terça-feira, Nonato também lança um projeto de narrativa histórica sobre o samba junino e uma live show com participações especiais que acontecerá, no dia 20 de junho, na sua página do YouTube e Instagram (@nonatosanskey)

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